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Blogue RBE

Seg | 05.12.22

Bibliotecas e borboletas

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Há algumas semanas, uma aluna perguntou-me pela obra Retalhos da Vida de um Médico, de Fernando Namora. Pedi-lhe que me acompanhasse e retirei da estante um exemplar que lhe passei para a mão, apressando-me a voltar ao balcão de atendimento, sem explicações, apartes ou recomendações; um pedido de alguma forma tão inusitado, num raro dia de chuva de outubro, merecia o cuidado dispensado a uma borboleta: se entra na sala é prudente ignorar a sua beleza.

Quando algum tempo depois surgiu a oportunidade de escrever um texto para a rubrica “Retalhos da vida de um professor bibliotecário”, não consegui evitar o sorriso. Lá estava o acaso a fazer das suas, a estabelecer conexões, o “grande fazedor” a mostrar que não tem reservas ou preceitos de grandeza e que tanto se imiscui nas mais válidas descobertas e realizações da ciência ou da arte, quanto na ínfima e curta prosa de um professor bibliotecário. O acaso, creio, merece certamente um espaço reservado e exclusivo nos nossos planos de atividades, um domínio no MABE. Como dizia Manuel António Pina, “as coisas melhores são feitas no ar”…

Não me recordo de quando li Retalhos da Vida de um Médico. Provavelmente devo tê-lo feito depois do Constantino, guardador de vacas e de sonhos, dos Contos, de Almeida Garrett, ou da coleção 15, da Verbo. Depois de Gaibéus, decerto... Mais tarde, fomos tomados pela consciência de que, afinal, o que líamos nesses livros ainda refletia a nossa realidade e a dos nossos amigos numa pequena aldeia no extremo do Ribatejo - alguns deles, após a 4.ª classe, eram obrigados a trocar a escola pelas obras e, de um dia para o outro, passavam a beber minis no café e a acompanhar com os “homens”. Foi então que percebemos que a conjuntura e a ação vivida e praticada por aquele médico em aldeias do Alentejo e Beira Baixa eram, na sua génese, o retrato de um país analfabeto, isolado e cinzento que ainda resistia nesses idos anos 80, e que sua generosidade para com os mais pobres e humildes era, afinal, um valor humanista e universal.

De alguma forma talvez tenha sido esta consciência - ainda incipiente, mas já quase política - que me fez associar as bibliotecas a este altruísmo que se manifestava sob a oferta de conhecimento, cultura e entretenimento. Porque desde as bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que percorriam vilas, aldeias e lugarejos, e onde tantos de nós iniciámos o gosto pela leitura, passando pelas bibliotecas de associações e coletividades, até às atuais bibliotecas municipais e escolares, sempre se manteve este espírito de partilha, de acesso livre e de incentivo ao conhecimento. Uma função cívica, profundamente democrática e um compromisso para com o futuro: as bibliotecas como a memória dos homens, de todas as suas ações, espírito e criação.

Por isso, entendo que o nosso papel no apoio ao currículo deverá ir sempre além desse currículo, que as nossas coleções, ao invés de conjuntos de títulos de uma seleção nacional, deverão ser diversas, disruptivas e inconformadas, cultivando dúvidas ao invés de certezas. Que devemos invocar com frequência os mortos das nossas prateleiras e trazer os vivos para que não acabem reduzidos a vizinhos de cota: RED, TOR, AND, PES, BEL, VIC. Bibliotecas que não querem a nobre linhagem do coração, preferindo tornar-se pernas e mãos, espaços informais de leitura e convívio onde se cultivam plantas e se reparam coisas. Locais confortáveis onde todos os alunos possam desenvolver projetos e descobrir interesses pessoais.

Para isso, o professor bibliotecário, nas suas deslocações pelos montes e vales da escola, pelas suas vilas, aldeias e lugarejos, não pode perder de vista os mais ”fracos” e os menos populares, os que não figuram nos quadros de honra, escondem os seus talentos ou cultivam gostos inusitados. Porque, tanto tempo passado depois da publicação de Retalhos da Vida de um Médico, continuam a ser estes os que mais necessitam de Namora... Perdoem-me, da biblioteca.

Luís Germano, professor bibliotecário
Agrupamento de Escolas Josefa de Óbidos, Óbidos

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  1. *Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
  2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
  3. Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.

 

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