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Blogue RBE

Ter | 31.05.22

Autonomia e Flexibilidade Curricular - Relato de uma experiência

Agrupamento de Escolas Fernando Casimiro Pereira da Silva

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Leitura: 3 min

1. Enquadramento

Segundo Perrenoud “Mudar a avaliação significa provavelmente mudar a escola. Pelo menos se pensarmos em termos de mudanças maiores, no sentido de uma avaliação sem notas, mais formativa, uma vez que as práticas de avaliação estão no centro do sistema didático e do sistema de ensino” [1]. Nesta metamorfose, o planeamento carecia de ser repensado e a forma como a escola orientava a sua gestão curricular deveria estar coerente com os propósitos da sua ação. Assim sendo, o agrupamento decidiu alterar a forma como geria o currículo e os instrumentos de planeamento que usualmente utilizava.

A gestão do currículo passou a ser feita numa lógica de ciclo, ajustando algumas das aprendizagens ao ano de escolaridade e identificando as aprendizagens-chave de cada ano. Nos trabalhos preparatórios, os diferentes grupos disciplinares realizaram um processo de mapeamento dos programas das diferentes disciplinas, acentuando as aprendizagens consideradas chave em cada ano de escolaridade, tendo por referência as aprendizagens essenciais, e definindo claramente os tópicos comuns a cada área, ajustando as planificações e evitando redundâncias.

Este trabalho minucioso de sinalização das aprendizagens chave permitiu identificar, permitiu desenhar cenários de aprendizagem que se constituem como ponto de partida para a elaboração de projetos transdisciplinares e funcionam como catalisadores da articulação curricular.

Assim, o currículo é visto como uma unidade global a gerir pela escola e por cada equipa educativa, consoante a realidade do seu contexto e o perfil de cada conjunto de alunos.

No que diz respeito às diferentes matrizes curriculares, o agrupamento desenhou as suas próprias matrizes, através da agregação parcial de disciplinas e da criação de espaços de trabalho transdisciplinar (Oficina do Conhecimento).

A Oficina de Conhecimento funciona a partir da organização de unidades curriculares integradoras, planeadas a partir de modelos agregadores de competências e de conteúdos curriculares transversais ao currículo.

Numa visão holística, tendo como cerne do problema a desconstrução da compartimentação do saber, a Oficina do Conhecimento está assente em Cenários Integrados de Aprendizagem (CIA).

 

2. Cenários Integradores de Aprendizagem (CIA)

Os cenários tiveram origem na identificação, para cada ano de escolaridade, de disciplinas nucleares e complementares, assim como das aprendizagens a promover em cada cenário. No desenho de cada projeto participa toda a equipa educativa, procurando que o cenário migre do espaço destinado a trabalho de projeto para cada uma das áreas curriculares.

Os CIA são pontos de partida para o desenvolvimento de trabalhos de projeto, arquitetados pelas diferentes equipas educativas e construídos com e pelos alunos.

Os Cenários foram desenhados pelas equipas pedagógicas tendo por base os domínios da Cidadania e Desenvolvimento, o mapeamento curricular elaborado e a identificação, em cada ano de escolaridade, das disciplinas consideradas nucleares e das disciplinas tidas como complementares.

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Cada CIA inicia com um ponto de partida, regra geral, uma obra literária, ajustada a cada ano de escolaridade e sugerida em articulação com os docentes de Português.

A obra é explorada em momentos distintos, geralmente através de Tertúlias Dialógicas Literárias, nos quais os diferentes grupos são convidados à leitura interpretativa e coletiva. Assim, constrói-se um sentido coletivo da obra, levando cada grupo a exponenciar os diferentes sentidos da mensagem através da vivência individual de cada aluno.

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Os cenários são apresentados, regra geral, aos alunos através de vídeos desafiadores onde a equipa pedagógica apresenta CIA e incentiva a pesquisa e reflexão.[2]

Deste modo, construíram-se, para os 2.º e 3.º ciclos, um total de 15 Cenários Integradores de Aprendizagem, a saber:

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3. Creative Problem Solving (CPS)

A formação interna do AEFCPS procurou colmatar as necessidades sentidas pelos docentes, nomeadamente em relação ao trabalho de projeto. Assim, durante um ano, os docentes vivenciaram um processo continuado de desenvolvimento profissional em torno da metodologia Resolução Criativa de Problemas ou Creative Problem Solving.

Esta metodologia visa a resolução criativa de problemas tendo por base seis fases:

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O desenho dos CIA foi acompanhado pela construção de um guião exploratório que auxilia os docentes na dinamização das diferentes fases de cada projeto e na respetiva avaliação.

Cada CIA termina com a apresentação do currículo aprendido durante cada uma das três semanas temáticas (Eu e os outros, Eu e o mundo e Eu e o ambiente). Nessa semana são apresentados os produtos finais, assim como, explorado o processo que conduziu aos mesmos.

 

4. O papel da Biblioteca Escolar

Neste tipo de trabalho procuramos que a biblioteca seja um ponto aglutinador de vontades e um polo centralizador de recursos.

Para tal, foram disponibilizados recursos humanos de diferentes áreas, de modo a que o trabalho a desenvolver tenha massa crítica e cooperante.

A aquisição de fundo documental sugerido pela equipa da biblioteca tem em consideração as necessidades de cada projeto e as dinâmicas de cada equipa pedagógica procuram, em graus crescentes, a utilização dos recursos e oportunidades disponibilizados pela biblioteca.

As abordagens dialógicas em tertúlias partem da biblioteca, os trabalhos de projeto centram a sua operacionalidade na biblioteca e cada vez mais, embora a velocidades que se pretendiam mais acentuadas, a biblioteca se assume como um pilar para o trabalho de projeto.

Os modelos de pesquisa da informação são articulados com as oportunidades criadas pela Biblioteca e a apresentação do currículo aprendido acontece no espaço biblioteca.

O Diretor, Paulo Jacinto Correia de Almeida

 

Referências

1. Citado por Cosme, A., Ferreira, D., Sousa, L. & Barros, M. (2020). Avaliação das Aprendizagens. Propostas e Estratégias de Ação. Porto Editora

2. O vídeo do Cenário Integrador “O meu herói és tu” pode ser consultado em https://youtu.be/i841YF9AMs8

3. Imagem de capa de Steve Buissinne por Pixabay 

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