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2021-03-29 CC1.jpg

No início, … bem no início, não foi o verbo. Antes uma imagem. Melhor, um boneco em pasta de papel, articulado, tamanho natural, sentado na cadeira de realizador, na zona dos filmes da biblioteca. Não lhe faltava nada: o chapéu, a bengala, uma bobina, uma claquete, até um foco de luz. Mas ainda não tinha voz. Era necessário animar aquele boneco, dar-lhe alma, fazê-lo comungar do espírito daquele espaço. Foi então que surgiu a ideia de lhe atribuir uma tarefa que, não só o mantivesse ativo, como também ao serviço da biblioteca. Os tempos eram duros, o vírus circulava, poucos clientes apareciam e um agente de marketing vinha mesmo a calhar. Foram definidas as linhas de intervenção: escreveria crónicas regulares, publicaria no Facebook da Biblioteca e faria os desabafos que entendesse deste que mencionasse sempre um livro, um filme ou uma atividade da biblioteca. Como veem, um pacto justo: dava liberdade ao artista, mas simultaneamente impunha-lhe algumas obrigações. Contrato feito. Luz, ação: click! Tirámos fotos (… e o jeito que ele tinha para a câmara, quem diria?!), fizemos revisão de provas e as crónicas começaram a sair, uma, duas, … já vai na 11.ª! Porquê “CC”? Porque em junho de  2020, antes de arrancamos com a 1.ª crónica, criámos um momento de intriga, desafiando os seguidores a identificarem o cronista através dos olhos e as iniciais CC do seu nome. O jogo pegou e já não voltámos atrás: passaria a ser o CC.

Para seguir as crónicas: https://www.facebook.com/becre.sequeira/

 

CC – crónica 11

Imagem1.jpgSaúdo todos os que me leem, vocês são a minha tábua de ligação com o mundo nesta fase de isolamento, fatal para uma alma de artista. Mesmo na condição de imortal, habituámo-nos à exposição, ao palco, às palmas (e assobios), à tela, aos flashes das fotos, às primeiras páginas e é difícil apagar tudo isso e estar aqui sentado na cadeira de realizador. Claro que os livros são boa companhia, mas muitas vezes “ler é maçada”, como dizia Fernando Pessoa. 

Carl_Spitzweg_021.jpegEntão, levanto-me e ando por aí entre as estantes à procura de outra alma. Às vezes encontro-a, como aconteceu há dias com o “Guarda-Livros Jerónimo”. Guarda-Livros Jerónimo? O que é isso? perguntam vocês. Pois, há por aqui uns fantasmas, principalmente à noite, quando… Aeih! Aeih! O que vai aí de histórias! É o que dá estar sozinho! Nada disso, aqui não há fantasmas, repito, aqui não há fantasmas, e este “Guarda-Livros Jerónimo” é o nome que as professoras da casa deram a uma gravura de Carl Spitzweg que têm emoldurada na parede e a quem chamam do seu padroeiro. Segundo me explicaram, o S. Jerónimo é considerado o padroeiro dos bibliotecários e dos livreiros e lá acharam que aquela figura do criado, em cima do escadote a ler em vez de limpar, se encaixava mais com um amante de livros do que aquele teólogo e historiador da antiguidade, S.Jerónimo de Estridão, que ficou conhecido pela sua tradução para o latim da Bíblia e pela sua extrema dedicação ao trabalho intelectual. Quando andam a fazer uma visita guiada aqui na biblioteca, oiço-as sempre dizer com uma pontinha de orgulho: “… e aqui nesta parede, está o nosso padroeiro, o guarda-livros Jerónimo!” Só falta colocarem lá um vaso com flores, mas adiante… a verdade é que eu e o Guarda-Livros Jerónimo estivemos, há dias, em amena cavaqueira e até descobrimos umas coisas que, se não repõem a verdade dos factos e dos nomes (sabe-se lá o que é isso de verdade!), pelo menos acrescentam mais variações e versões. É que aquele “criado-guarda-livros” não gosta lá muito do nome de “Jerónimo” e até acha que, a haver um padroeiro dos bibliotecários, ficaria melhor entregue a S. Lourenço de Roma que foi morto pelos romanos em 258 d. C. por negar-se a entregar a coleção de tesouros e documentos do cristianismo os quais ele estava encarregado de guardar. Bem… eu ouvi-o e não discuto estes direitos quando envolvem mártires de causas, mas julgo que há uma figura da antiguidade clássica mais apropriada: é Calímaco de Cirene, poeta e bibliotecário na grande biblioteca de Alexandria que se encarregou do seu catálogo no século III a.C. Li esta informação no livro “O infinito num junco” da investigadora espanhola Irene Vallejo (em destaque na crónica anterior).

Imagem2.pngAproveitei para ler ao guarda-livros a passagem do livro da estudiosa: “Calímaco é considerado o pai dos bibliotecários. Imagino-o a preencher as primeiras fichas bibliográficas da História – que seriam tabuinhas – e a inventar algum antecedente remoto dos códigos. Talvez tenha conhecido o segredo das bibliotecas babilónicas e assírias e se tenha inspirado nos seus métodos de organização, mas chegou muito mais longe do que qualquer dos seus antecessores. Resolveu problemas de autenticidade e falsas atribuições. Encontrou rolos sem título que era preciso identificar.” (p.150)

Imagem3.pngO texto alonga-se com mais elogios e confesso que fiquei rendido àquela personalidade fascinante do passado. Acho até que ele está mais perto do trabalho real de uma biblioteca (e eu sei do que estou a falar porque bem observo as professoras aqui na sua lida diária). Chegámos a um acordo: o guarda-livros ficava aliviado do peso de “S. Jerónimo” e passava a chamar-se só “Guarda-Livros”, sem a carga do passado. 

Achei justo e quando mais tarde regressei ao meu posto, estava seguro de ter ali um amigo para conversar. Nessa noite, pareceu-me que, algures, num canto da biblioteca, decorria um concílio de sábios onde se esgrimiam nomes para o guarda-livros: “Lourenço! Não, Jerónimo! Calímaco é que é!” Deixei-os debater e fiquei no meu cantinho sem me mexer, nem respirar. Em matéria de fantasmas, como já disse, sou cético, mas pelo sim, pelo não… 

O vosso CC
 



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