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Blogue RBE

Sex | 29.04.22

As bibliotecas têm uma arquitetura própria…

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Quando se pensa em arquitetura (espaços, ambientes…) e bibliotecas imaginamos desde logo que nos encontramos na esfera do edifício, do mobiliário, dos equipamentos… No entanto, não é por acaso que o quadro estratégico da RBE, no seu eixo Sítios, reúne sistematicamente o físico e o digital, como duas faces da mesma moeda que se complementam e não existem de forma independente.

Neste texto, a reflexão será sobre arquitetura de informação, um conceito fundamental quando se pretende ponderar “o desenvolvimento de espaços […] digitais inclusivos, seguros, acolhedores, multifuncionais e flexíveis e que viabilizem as múltiplas vertentes da ação da biblioteca” (RBE, 2021, p. 45)

Quando se concebe o espaço de uma biblioteca é necessário considerar todos os recursos que se vão disponibilizar, todas as diferentes ações que os utilizadores aí vão desenvolver, as suas necessidades ou dificuldades específicas, os fluxos de circulação… e ainda projetá-las para serem esteticamente agradáveis.

Do mesmo modo, os arquitetos da informação determinam as necessidades de informação dos utilizadores e definem os caminhos que levam até ela, criando simultaneamente interfaces agradáveis para apresentar os conteúdos. Pode dizer-se, em termos gerais, que a arquitetura de informação corresponde à organização das informações dentro de um espaço visual:

“Consiste em tornar claro, aquilo que é complexo." (R.S Wurman)

A arquitetura da informação trata, pois, da organização da informação com o objetivo de a tornar clara e de criar as estruturas de organização de um sítio de internet para que o utilizador consiga compreendê-lo com facilidade. Trata-se de projetar a estrutura, o esqueleto sobre o qual tudo o resto se vai apoiar, seguindo uma regra de ouro: que a informação esteja acessível e facilmente recuperável.

“Arquitetura de informação é a arte e a ciência de estruturar e organizar ambientes de informação para ajudar as pessoas a satisfazerem suas necessidades de informação de forma efetiva.” (Toub)

Porque é que a arquitetura de informação é importante quando se projeta um sítio de internet? 

Ignorar a importância de apostar numa arquitetura de informação bem estruturada, resulta frequentemente em sítios confusos, que geram grandes dificuldades de compreensão e desmobilizam os utilizadores – em termos de biblioteca, pode dizer-se que corresponde a colocar simplesmente os livros nas estantes sem qualquer sistema biblioteconómico a suportar essa arrumação, algo impensável para os profissionais da ciência da informação.

Voltemos ao conceito de arquitetura. O principal objetivo é fazer com que um edifício utilize o espaço disponível da melhor forma, criando ambientes bem distribuídos, aliando preocupações estéticas e práticas.

Na construção de um sítio web, os conceitos são os mesmos: há um espaço disponível e é necessário distribuir as informações de forma lógica, hierarquizada e ligada para uma boa perceção dessa estrutura e, consequentemente, para uma boa experiência de utilização.

Se não se tiver em conta a experiência do utilizador, o resultado pode ser uma página negativa, com informações mal localizadas e uma taxa de acesso muito abaixo do desejado.

O que é necessário considerar, quando se pensa a arquitetura da informação de um sítio?

Um sítio de internet pode ser esteticamente muito agradável, mas se for confuso, lento, de difícil navegação e não tiver em conta os utilizadores visados, vai afastá-los, pois ninguém terá vontade de perder tempo na sua navegação.

Pelo contrário, uma página com conteúdo claro, organizado e que permita ao utilizador compreender rapidamente as funcionalidades e caminhos sem consultar documentações auxiliares, navegando por um percurso fluido, leva à recuperação da informação de forma intuitiva e a uma melhor experiência de navegação.

Quanto melhor for experiência de navegação, mais tempo o utilizador permanece na página, conhecendo e utilizando os produtos ou serviços e maior é a probabilidade de se tornar um utilizador frequente.

De acordo com Steve Krug em Não me faça pensar, para uma boa disponibilização dos conteúdos, é necessário ter em conta os seguintes pressupostos:

  • Qualquer pessoa com experiência mediana, na utilização da Internet deve ser capaz de utilizar um sítio sem achar o processo frustrante e complicado.
  • Um sítio deve ser óbvio e autoexplicativo: ao aceder, o utilizador deve entender, de imediato, para que serve.
  • Os utilizadores querem saber imediatamente o que é para fazer e como, ou saem e procuram outro lugar.
  • Se a as ações a desenvolver implicarem a desperdício de tempo, o utilizador vai-se embora.
  • O utilizador deve conseguir sempre voltar onde estava sem se perder, ou recomeçar tudo a partir da página principal.
  • Se o sítio funcionar bem para o utilizador, ele não vai procurar outros.
  • Há utilizadores que procuram uma caixa de pesquisa assim que abrem um sítio.

Quais os passos a seguir para construir a arquitetura de um sítio?

Para conseguir um bom resultado, ou seja, uma arquitetura em que a informação é recuperada com eficiência, é importante considerar as seguintes etapas:

1. Inventariar o conteúdo
Reunir todo o conteúdo (ou áreas de conteúdo) e serviços que se pretende disponibilizar para estudar a melhor forma de o fazer.

2. Listar e hierarquizar as secções
Definir as secções e páginas de forma clara, agregando os assuntos por categorias. Esta é uma tarefa de base importantíssima pois corresponde à estrutura da informação e é determinante para que o acesso a ela seja eficaz.

3. Nomear as secções e subsecções
Cada título selecionado tem de ser claro e intuitivo para que o utilizador compreenda facilmente quais os conteúdos que agrega.

4. Criar o mapa do sítio
O mapa do sítio é a representação visual de todas as páginas já estruturadas. Permite uma visão geral de todo o conteúdo e as suas localizações dentro da lógica aplicada na arquitetura da informação utilizada naquele sítio.

5. Idealizar as linhas gerais do design
A arquitetura da informação é quase indissociável do design. É preciso analisar o conteúdo e toda a sua distribuição. E, depois, pensar nas soluções visuais e textuais a utilizar para “dar vida” a esse conteúdo.

6. Rever, rever, rever
Se já tem um sítio e pretende melhorar a sua arquitetura, sugere-se que faça um mapa do sítio tal como está, o que lhe permitirá compreender o que está a funcionar bem e o que não está.

Em seguida, faça o mapa de acordo com a estrutura que está a pensar seguir para reorganizar a informação, perguntando sistematicamente: “Onde é que os meus utilizadores esperam encontrar este conteúdo?”

Dê algum tempo à sua arquitetura de informação – talvez um ou dois dias, e depois volte a ela. Muitas vezes, será possível encontrar coisas que ficaram esquecidas numa primeira fase ou observar as questões de acordo com uma nova perspetiva.

Partilhe o seu mapa com alguns potenciais utilizadores (professores, alunos) que não estejam familiarizados com o projeto e possam trazer novos pontos de vista. A organização faz sentido para eles? Eles sabem onde encontrar informações?

Este é um processo que deve ser periodicamente implementado. Uma arquitetura de informação nunca está perfeitamente concluída.

UX e arquitetura da informação

Uma das prioridades da arquitetura da informação é a construção de boas experiências de navegação. Ela insere-se numa área mais ampla, que é UX (sigla de língua inglesa para experiência do utilizador).

A UX engloba vários de conceitos: design, arquitetura da informação, estratégias de conteúdo, entre outros, sendo determinante que tudo parta de um bom conhecimento dos utilizadores para compreender melhor seus desejos e suas necessidades.

Em qualquer projeto, a arquitetura de informação tem de conversar com a UX. Mais do que apenas organizar, a arquitetura da informação tem um papel estratégico.

Sites bem construídos...
Sem erros de direcionamento…
Com conteúdos relevantes para o público-alvo…
Com uma estrutura lógica de navegação…

…são mais atrativos e têm um maior potencial de interação e retenção.

A reter:

O foco está sempre no utilizador e na sua satisfação ao navegar. Este é um fator crítico para “o desenvolvimento de espaços […] digitais inclusivos, seguros, acolhedores, multifuncionais e flexíveis e que viabilizem as múltiplas vertentes da ação da biblioteca” (RBE, 2021, p. 45)

 

Referências

  1. Araújo, D. (2021) Recapitulando a Arquitetura da Informação. https://brasil.uxdesign.cc/recapitulando-a-arquitetura-da-informacao-37d2125f4848
  2. Digital House (2021) Arquitetura da informação: entenda o que é, sua relação com UX e suas principais metodologias. https://www.digitalhouse.com/br/blog/arquitetura-da-informacao/
  3. Guimarães, F. M. (2017). 10 Lições Incríveis de Usabilidade de “Não Me Faça Pensar”. https://medium.com/aela/10-li%C3%A7%C3%B5es-incr%C3%ADveis-de-usabilidade-de-n%C3%A3o-me-fa%C3%A7a-pensar-4a8bcaf1ccac
  4. McInerney, H. How to Build Information Architecture (IA) that’s a “No Brainer”. https://www.vontweb.com/blog/how-to-build-information-architecture/
  5. Portugal. Rede de Bibliotecas Escolares (2021). Bibliotecas Escolares: presentes para o futuro. Programa Rede de Bibliotecas Escolares: Quadro estratégico: 2021-2027. https://rbe.mec.pt/np4/file/890/qe__21.27.pdf
  6. Santana, F. (2017) Arquitetura de Informação e o seu propósito. https://coletivoux.com/arquitetura-de-informa%C3%A7%C3%A3o-e-o-seu-prop%C3%B3sito-29cd278ebdfe

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