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Blogue RBE

Seg | 10.10.22

“Agora é a minha vez!”

Retalhos da vida de um professor bibliotecário*

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Leio recorrentemente um conto do escritor americano Herman Melville, intitulado Bartleby. Bartleby é o personagem principal da história, um homem com um carácter muito peculiar que, a uma ordem do patrão, responde, repetida e insolitamente, a expressão “Preferia não o fazer”.

Como professora bibliotecária com um percurso de apenas quatro anos, tenho de admitir que, por vezes, não raras vezes, me sinto tentada a proferir a mesma expressão… Aposto que alguns dos meus colegas, neste momento, começam a acenar com a cabeça e a concordar comigo… Mas longe de mim querer incutir ideias desviantes ou subversivas! Acreditem, “Preferia não o fazer!”.

Tal pensamento toma conta de mim quando, após uma reunião concelhia RBE/SABE com a minha CIBE – que jamais pensaria “prefiro não o fazer” –, me vejo confrontada com tarefas, prazos, informações, reflexões, atividades, prioridades, deveres, análises … Na última reunião, os meus ouvidos registaram a expressão “Novo, pá!” e, pensando que se tratava de uma novidade, questionei a colega do lado sobre a mesma. A colega não só me dirigiu um olhar em que o sobrolho quase tapava o olho – uma coisa assustadora! – como vociferou de forma autoritária e impaciente: “Novo PAA!” Ah!!!!

Nesse mesmo dia, depois da reunião, regressei à biblioteca da minha escola. À minha espera estava um grupo de alunos e alunas do terceiro ano, para quem as histórias são uma parte do dia e para quem um bom livro é aquele que ganha vida quando é lido, em voz alta ou em voz baixa, não interessa… o que interessa é que crie um arrepio de espanto, de medo, de estranheza, de ilusão… Tinha prometido ler-lhes, mais uma vez, a história do Tio Lobo - não resistem à malandrice da Carmela e à vingança do tio Lobo...

Assim que acabei de ler a história, uma aluna levantou a mão e informou o resto do grupo: “Agora é a minha vez!” e repetiu mais alto para chamar a atenção dos colegas: “Agora é a minha vez de contar uma história!”. Todos os colegas consentiram. Ouvir uma história não se recusa, e esta que a Francisca escolheu tratava de uma manta e do seu destino ao longo de gerações… Eu também ouvi e lamentei ter começado o dia a pensar: “Preferia não o fazer”.

Cristina Gonçalves (professora bibliotecária)

AE Carlos Amarante, EB1 de Gualtar

 

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1. *Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.

2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.

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