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Blogue RBE

Sex | 11.03.22

Afinal, para que serve a Semana da leitura?

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No final desta Semana da leitura 2022, vale a pena fazer esta pergunta; questionar o que fazemos e para que fazemos…

Encontramos uma boa resposta na crónica de Miguel Esteves Cardoso, no jornal Público, na última segunda-feira. Dizia ele que “não ler é sempre mais perigoso que ler”. Reforçamos a palavra perigoso, pela carga negativa que acarreta e pelo estado de alerta a que nos deve conduzir.

Não ler é perigoso, quer do ponto de vista individual, quer do ponto de vista coletivo, porque nos afasta da nossa condição humana.

Porque nos impede de conhecer os outros e o que já descobriram.

Porque nos apouca as capacidades de expressão, de reflexão de construção de conhecimento.

Porque nos impossibilita de viver múltiplas vidas e de, pela mão (pela pena) do outro, experienciar o que os seres humanos já viveram, já sentiram, já imaginaram, já recearam, noutras latitudes, noutros tempos…

Não ler é perigoso porque nos limita a liberdade: impede-nos de conhecer a multiplicidade de opiniões sobre a mesma temática, que nos permitem refletir e criar ideias próprias, reduz-nos a capacidade de bem compreender as mensagens com que nos confrontamos, leva-nos com frequência a ser manipulados, a não sermos vozes ativas nas questões que nos rodeiam e implicam, sejam elas mais locais ou mais globais...

Não ler é perigoso ainda do ponto de vista económico – índices menores de literacia conduzem habitualmente a menor capacidade de criar riqueza e quando se pensa à escala macro, isso tem um enorme impacto no bem-estar pessoal e social, individual e coletivo.

Não ler é perigoso também no que respeita à saúde, como bem vimos durante a crise sanitária que temos vivido nos últimos anos.

E as memórias destes últimos tempos levam-nos a uma outra ameaça, muitas vezes omitida: o perigo de não se saber que não se lê bem; o perigo de se acreditar que decifrar as letras e as palavras é suficiente para atingir uma boa compreensão e uma leitura plena.

Por todos os perigos que elencamos, a Semana da Leitura vem abanar consciências, lembrar o risco de não capacitarmos as nossas crianças e jovens, a nossa população, se não conseguirmos assegurar que todos leiam verdadeiramente.

Ler é o fogo que os seres humanos roubaram aos deuses. Nascemos equipados para respirar, para caminhar, para sobreviver, para falar (mais ou menos) … Fazemo-lo de forma inata e todos chegamos lá, mais cedo ou mais tarde. Com a leitura não é assim. É necessário aprender e dificilmente acontece por instinto. Passa por várias fases: começamos por decifrar lentamente ideias simples e, à medida que atingimos velocidade e nos tornamos proficientes, alcançamos níveis de compreensão cada vez mais complexos.

Hoje, mais do que ontem, ler é uma atividade que exige aos seres humanos muitos recursos e diversas ações simultâneas – já não falamos “apenas” de ler carreiros de letras bem enfiadas umas após as outras, mas para além disso, há que ler imagens, gráficos, infográficos, filmes… Tudo ao mesmo tempo e em múltiplos suportes.

Por isso, ler é difícil, embora saibamos que é possível torná-lo fácil. E os sinais das dificuldades estão por aí: multiplicam-se os estudos que vêm mostrar a falta de competências e simultaneamente a falta de hábitos de leitura. E todos os que temos responsabilidades na qualificação dos nossos concidadãos, sejam crianças e jovens, sejam adultos, não podemos ignorar os avisos e os riscos, porque sabemos que não ler é perigoso.

Voltando à pergunta de partida (afinal, para que serve a Semana da Leitura?), pode entender-se este momento como as olimpíadas ou campeonatos do mundo ou quaisquer outros eventos desportivos. É a festa! Os atletas exibem as suas especialidades com fluidez e é um gosto observar. Mas para que pareça simples e fluido, muitas horas de treino suportam essa aparente facilidade, muitos momentos de desânimo surgiram durante o processo, muita resiliência foi necessário convocar.

Também para a leitura o treino e a resiliência são indispensáveis: só lendo muito e muitos textos de diferentes tipos, de diferentes extensões, de diferentes autores com diferentes propósitos, em suportes diversificados é possível adquirir a desejada aparente facilidade.

Para isso, todos somos poucos.

Apenas todos juntos, reunindo diferentes habilidades e modos de estar face à leitura, é possível proporcionar às crianças e jovens (e é esse o público das nossas bibliotecas escolares) as numerosas oportunidades de contacto com a leitura que conduzem, primeiro à fluência, depois ao gosto, de que decorrem mais leituras e subsequentemente maior gosto, melhores e mais profundas leituras, num ciclo que se sucede.

Nesta Semana da Leitura temos então a festa (o momento de cigarra) que justifica todas as horas de trabalho de formiga. E tantas são as formigas!

Desde logo, na mais tenra idade, os pais, as mães, os avós e outros cuidadores que, diariamente fazem chegar o livro à criança – pouco tempo, mas com regularidade;

Depois, nas escolas, os professores de todas as áreas curriculares também estão convocados para proporcionar esses momentos frequentes de contacto;

Também nas escolas, nas bibliotecas escolares, tantas são as estratégias e os pretextos que os professores bibliotecários encontram para trazer a leitura para o quotidiano dos alunos dos vários níveis de ensino;

Nas bibliotecas públicas, saímos do meio escolar, acrescentam-se outros públicos e outros atores;

Contamos também com o trabalho precioso de mediadores de leitura, de escritores e de tantos outros bons exemplos que nos chegam da sociedade civil…

Obviamente, deste contingente de formigas indispensáveis também fazem parte todos os que, com cargos de decisão, determinam apoiar, com ações, com reconhecimento, com financiamento, tudo o que se vai fazendo em prol da leitura.

Observemos agora mais de perto a realidade mais próxima: as bibliotecas escolares.

Tendo em conta a diversidade de ações que aí acontecem, a nível nacional, para lhes dar visibilidade apelámos à sua divulgação e partilha através do portal RBE. Temos hoje o registo de cerca de 150 000 crianças e jovens envolvidos, mas número cresce a todo o momento e muitos ainda não tiveram oportunidade de registar a sua presença.

As propostas de atividades, que já se encontram visíveis no mapa para isso disponibilizado, incluem o recurso a diferentes expressões e linguagens, que assim ajudam à abertura e entendimento para as diferentes realidades que o mundo comporta. As leituras que se sugerem e a literatura que se oferece poderão ajudar a conquistar um posicionamento plural e multidimensional tão necessários no mundo atual!

Afinal, para que serve a Semana da Leitura? Para refletir, para valorizar, para celebrar. Para nos unirmos em torno da preocupação ligada ao perigo de não ler. Para inspirar e apoiar todas as outras semanas de trabalho invisível que se sucedem ao longo do ano.

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