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Fonte da imagem: https://cutt.ly/fhU7inU

Este artigo é da autoria de Nigel Coutts, professor australiano, cujas reflexões e partilhas se focam muito na aprendizagem centrada no aluno e no desenvolvimento de competências que se constituam como ferramentas para aprender sempre. São temas da sua preferência os processos de compreensão, o pensamento crítico e criativo. No blogue que dinamiza, The Learner’s Way, partilha os seus pontos de vista.
 
É a tradução de um desses artigos, de 23 de novembro de 2020, que, com a sua autorização, aqui publicamos. Esse artigo vem na sequência de um outro que escreveu sobre a importância da prática reflexiva como peça do puzzle da aprendizagem, no qual citou John Dewey, quando este afirma: "Não aprendemos com a experiência, aprendemos com a reflexão sobre a experiência".
 
Para assegurar que a prática da reflexão seja mais do que uma atividade acrescentada à nossa programação, precisamos de assumir uma postura reflexiva.
 
A reflexão é, demasiadas vezes, o que fazemos no final de uma tarefa ou no fim do dia. Olhamos para trás e contemplamos o que aconteceu, e com isso em mente, ansiamos pelo que poderemos fazer de maneira diferente da próxima vez. É, deste modo, um processo muito reacionário. É evidente que esta forma de reflexão tem o seu lugar e pode ser uma estratégia poderosa a implementar quando procuramos aprender com a experiência. Se valorizarmos a prática reflexiva, teremos a certeza de reservar tempo para esta forma de reflexão numa base rotineira. Ao envolvermo-nos habitualmente na reflexão, asseguramos que ela se torne uma das nossas rotinas diárias.
 
Mas isto pode ser reforçado através da adoção de uma postura reflexiva.
 
Uma postura reflexiva requer um esforço deliberado para nos afastarmos da reflexão enquanto atividade que põe termo à nossa jornada de aprendizagem. Em vez disso, torna-se algo em que estamos empenhados antes, durante e no final da aprendizagem. Significa que não só atribuímos tempo à prática da reflexão, mas que compreendemos o seu valor como ferramenta cognitiva que fortalece a aprendizagem.
 
Uma postura reflexiva faz-nos passar dos comportamentos à metacognição.
 
A metacognição é um dos Hábitos Mentais, que Costa & Kallick definem como "Pensar sobre o pensamento. Conhecer o próprio conhecimento. Ter consciência dos seus próprios pensamentos, estratégias, sentimentos e ações - e de como estes afetam os outros". Segundo Costa & Kallick "metacognição, ou pensar sobre o pensamento, é a nossa capacidade de perceber o que sabemos e o que não sabemos. É a nossa capacidade de planear uma estratégia para produzir a informação necessária, de estar conscientes dos nossos próprios passos e estratégias durante o ato de resolver problemas, e de refletir e avaliar a produtividade do nosso próprio pensamento. . . As pessoas inteligentes planeiam, refletem e avaliam a qualidade das suas próprias capacidades e estratégias de pensamento". Tal como com cada um dos "Hábitos da Mente", e num sentido mais lato, com as disposições, a metacognição progride quando existe uma predisposição para a utilizar, baseada na perceção do seu valor e no empenho em desenvolvê-la enquanto capacidade.
 
Se pretendemos maximizar os benefícios da metacognição, devemos estar conscientes da nossa capacidade de planear no sentido de um pensamento objetivo e eficaz. Devemos então monitorizar os efeitos que o nosso pensamento está a ter no momento e ter consciência de como pensamento e ação estão a evoluir. Por fim, também devemos prever tempo para refletir tanto sobre os processos graduais da nossa jornada de aprendizagem como sobre os resultados assim alcançados. Num artigo para Improve with Metacognition, Costa & Kallick identificam a necessidade de o planeamento do pensamento ser combinado com o autocontrolo, através de um olhar consciente para a frente e para trás. As práticas reflexivas de fim de dia ou de fim de tarefa dependem demasiado da eficácia de uma das partes deste processo: olhar para trás.
 
Uma postura reflexiva permite que cada parte deste processo seja feita de uma forma que as práticas habituais de fim do processo não permitem. Uma postura reflexiva inclui uma atenção prévia à atividade cognitiva, durante a atividade cognitiva e, no final, sobre a atividade cognitiva. Uma postura reflexiva torna-se um ciclo contínuo de planeamento, observando e refletindo sobre a eficácia do pensamento e da ação.
 
Uma postura reflexiva não significa que estejamos permanentemente a analisar o nosso pensamento.
 
Envolvermo-nos a cada o momento numa metacognição plena e atenta seria cansativo e largamente inútil. Thinking, Fast & Slow, de Daniel Kahnemann convida-nos a ver o nosso pensamento como sendo o resultado de dois sistemas metafóricos. "O sistema 1 funciona automática e rapidamente, com pouco ou nenhum esforço e sem controlo voluntário. O sistema 2 dedica atenção às atividades mentais exigentes que necessitam dele, incluindo cálculos complexos". Cada sistema tem as suas vantagens e desvantagens, e, na maioria dos casos, alternamos entre os dois sem esforço e sem problemas, um apoiando o outro.
 
Considere a tarefa de conduzir. Para o condutor experiente, é normal viajar grandes distâncias tendo como tarefa gerir o veículo, percorrendo as estradas e evitando obstáculos, com a nossa mente em piloto automático. Só quando a tarefa exige maior concentração, é que nos concentramos nela e estamos plenamente conscientes das escolhas que fazemos. Quando refletimos sobre a nossa viagem, recordamos estes momentos com detalhes vívidos enquanto os outros não são de todo recordados. O mesmo se aplica a muito do pensamento que ocorre ao longo dos nossos dias. No entanto, quando adotamos uma postura reflexiva, planeamos os momentos em que iremos deliberadamente envolver todas as nossas capacidades mentais e os momentos em que iremos observar como o nosso pensamento está a evoluir e o efeito que isso tem. Porque valorizamos as nossas práticas reflexivas, tomamos medidas para garantir que teremos o impacto que desejamos e que anotamos as ações e pensamentos que realizamos com este objetivo. Não estamos a deixar as coisas ao acaso; estamos a planear e a monitorizar o sistema de que necessitamos.
 
A nossa postura reflexiva também irá melhorar a forma como aprendemos no futuro.
 
Como referido, aprendemos com a reflexão sobre a experiência. Quando adotamos uma postura reflexiva, reconhecemos os benefícios de determinados padrões de ação e pensamento. Ao reconhecer estes padrões e o impacto que têm no momento, e ao refletir depois sobre as nossas observações, permitimo-nos incorporar os padrões mais eficazes no nosso planeamento futuro e aperfeiçoar ou abandonar aqueles que não estão a funcionar.
 
Uma postura reflexiva exige um compromisso e uma valorização da prática reflexiva como sendo mais do que um conjunto de comportamentos que programamos para o nosso dia. Os benefícios plenos de uma postura reflexiva são alcançados quando planeamos a observação e a reflexão sobre as nossas ações e depois utilizamos a informação obtida como resultado para informar as nossas escolhas futuras.
 
Nigel Coutts
 
Ler - Playing with Habits of Mind
 
Explorar - Strategies & Routines that Support Metacognition
 
Costa, A. & Kallick, B. (2008) Aprender e liderar com hábitos de mente: 16 características essenciais para o sucesso. ASCD, EUA
 
Costa, A & Kallick, B. (2015) Metacognition: What Makes Humans Unique  https://www.improvewithmetacognition.com/metacognition-what-makes-humans-unique/
 
Kahnemann, D. (2012) Thinking, Fast And Slow. Penguin, Random House Books; UK
 
Coutts, Nigel. Taking a reflective stance. The Learner’s Way, 23/11/2020. Acedido em 25/11/2020 em https://thelearnersway.net/ideas/2020/11/23/taking-a-reflective-stance 
 



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