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A Mãe Natal

14.12.09

A aldeia de Pouldreuzic iria conhecer, finalmente, um período de paz? Havia largos anos que a dilacerava a oposição entre clericais e radicais, a escola livre dos Irmãos e a escola comunal laica, o cura e o professor. As hostilidades, que tomavam as cores das estações, assumiam o teor das iluminuras lendárias com as festas do fim do ano. A missa da meia-noite realizava-se, por motivos práticos, em 24 de Dezembro às seis da tarde. À mesma hora, o professor, mascarado de Pai Natal, distribuía brinquedos aos alunos da escola laica. Graças à sua diligência, o Pai Natal convertia-se em herói pagão, radical e anticlerical — enquanto o cura da aldeia lhe opunha o Menino Jesus do seu presépio vivo, que era célebre em todo o distrito, como quem atira um chuveiro de água benta à cara do Diabo.
Sim, Pouldreuzic teria uma trégua? Acontecia que o professor, chegado à idade da reforma, tinha sido substituído por uma professora vinda de fora — e toda a gente a observava em expectativa, ansiosa por saber de que massa era ela feita. A senhora Oiselin, mãe de dois filhos — um dos quais contava apenas três meses —, havia-se divorciado. E isso afigurava-se a muitos um penhor de fidelidade laica. Mas o partido clerical triunfou logo no primeiro domingo depois da sua chegada, quando se viu a nova mestra dar entrada na igreja. 
(…)
Os dados pareciam lançados. Não haveria mais a árvore de Natal sacrílega à mesma hora da missa da meia-noite celebrada às seis da tarde. O cura ficaria como único dominador em campo. Foi grande a surpresa, por conseguinte, quando a senhora Oiselin anunciou aos seus alunos que nada seria mudado na tradição estabelecida e que o Pai Natal distribuiria os seus presentes na hora habitual. Que jogo estaria ela a jogar? E quem desempenharia o papel de Pai Natal? O carteiro e o guarda florestal, em que toda a gente pensava devido às suas opiniões socialistas, afirmavam não estar ao corrente de coisa alguma. A estranheza atingiu o cúmulo quando se soube que a professora emprestaria o seu bebé ao cura para representar o Menino Jesus no presépio vivo.
De início, tudo correu bem. O pequenino Oiselin dormia a bom dormir quando os fiéis desfilaram ante o presépio, de olhos aguçados pela curiosidade. O boi e o burro — um boi e um burro autênticos — pareciam enternecidos diante de bebé laico tão miraculosamente metamorfoseado em Salvador.
Infelizmente, a partir do Evangelho começou a agitar-se e os seus berros redobraram no momento em que o cura subia ao púlpito. Nunca se ouvira uma voz de bebé tão sonora. Em vão a menina que representava a Virgem Maria o embalou contra o peito magro. O miúdo, rubro de cólera, agitando os braços e as pernas, fazia ressoar as abóbadas da igreja com os seus gritos furiosos e o cura não conseguia fazer ouvir uma palavra.
Por fim, o sacerdote chamou um dos meninos do coro e sussurrou-lhe uma ordem ao ouvido. Sem largar a sobrepeliz, o rapaz saiu da igreja e ouviu-se o ruído dos seus passos decrescer lá fora.
Poucos minutos depois, a metade clerical da aldeia, que se encontrava reunida em totalidade na nave, teve uma visão insólita que se inscreveu para sempre na lenda dourada da região: viu-se o Pai Natal em pessoa entrar apressadamente na igreja, dirigir-se a passos largos para o presépio, pôr de lado as suas grandes barbas de algodão branco, desabotoar a vestimenta vermelha e estender um seio generoso ao Menino Jesus, que logo se quedou apaziguado.

TOURNIER, Michel - O galo do mato. Lisboa : D. Quixote, 1986. 217p.

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