Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Blogue RBE

Ter | 02.12.25

A leitura no mundo digital

04122025.png

As práticas de leitura das crianças e jovens mudaram profundamente ao longo da última década. Entre manuais digitais, plataformas educativas, pesquisas online, redes sociais, jogos e mensagens instantâneas, o contacto com textos digitais tornou-se parte integrante do quotidiano. A escola, e muito particularmente a biblioteca escolar, é hoje chamada a compreender este novo ecossistema e a preparar os alunos para ler, compreender e avaliar a informação num ambiente cada vez mais complexo e dinâmico.

A evolução acelerada da tecnologia tornou a leitura digital mais presente, mas também mais exigente. A partir dos contributos de Teaching Reading Comprehension in a Digital World [1], é possível identificar linhas essenciais que ajudam a compreender este novo território de literacia.

As especificidades da leitura digital

A leitura digital não se limita a transpor textos do papel para o ecrã. O ambiente digital introduz características próprias, estruturais, técnicas e cognitivas, que alteram profundamente a forma como lemos, compreendemos e gerimos a informação. 

De facto, a leitura digital não se resume à transposição de textos impressos para formatos digitais. Envolve novas estruturas, novas formas de navegação e exigências cognitivas específicas. Os alunos encontram hoje:

🟥textos lineares em formato digital, semelhantes aos impressos mas dependentes de tamanho de ecrã, brilho, rolagem e ergonomia;

🟥hipertextos, com múltiplas ligações internas e externas que fragmentam e reorganizam o percurso de leitura;

🟥hipertextos multimodais, que articulam texto, imagem, som, vídeo, gráficos interativos e elementos adicionais.

Estas características exigem competências que vão muito além das necessárias na leitura tradicional. A leitura digital introduz desafios que derivam tanto do suporte tecnológico como das estruturas próprias dos textos em linha. Ler no ecossistema digital implica interagir com ambientes multimodais, navegar em estruturas não lineares, gerir distrações constantes e tomar decisões rápidas. Estas exigências transformam a experiência de leitura e requerem competências mais amplas.

De forma integrada, podemos identificar quatro grandes dimensões que caracterizam estas especificidades:

1. A materialidade do ecrã transforma a experiência de leitura

🟥Os dispositivos digitais (computadores, tablets ou telemóveis) moldam a forma como o texto é apresentado e percorrido:

🟥O tamanho do ecrã limita a quantidade de texto visível, dificultando a construção de uma visão global.

🟥A rolagem contínua (scroll) aumenta a carga cognitiva, sobretudo para leitores com menor capacidade de memória de trabalho, que podem perder o fio da leitura.

🟥A ausência de paginação fixa elimina pontos de referência estáveis, reduzindo a ancoragem espacial disponível na leitura em papel.

Estas características não são obstáculos intransponíveis, mas alteram as estratégias necessárias para compreender.

2. As estruturas hipertextuais exigem escolhas sucessivas

Grande parte dos textos digitais assume a forma de hipertexto (linear, hierárquico ou em rede). Este último, muito comum na internet, fragmenta o percurso de leitura e obriga o leitor a decidir:

🟥se deve clicar numa ligação,

🟥quando o deve fazer,

🟥como integrar a nova informação no conjunto.

Os hipertextos em rede, com múltiplas ramificações e ligações cruzadas, revelam-se particularmente exigentes para leitores com menor vocabulário ou menor capacidade de memória de trabalho.

3. A multimodalidade aumenta a complexidade cognitiva

Os textos digitais são frequentemente multimodais: combinam texto, imagem, vídeo, áudio, animações, gráficos interativos ou hiperligações.

Esta riqueza pode apoiar a compreensão, desde que os elementos sejam relevantes, estejam articulados entre si e não criem sobrecarga cognitiva.

Na prática, contudo, o ambiente online introduz estímulos que competem pela atenção (publicidade, elementos em movimento), desviam o foco da leitura e nem sempre contribuem para o significado.

Ler digitalmente é, por isso, também gerir o ambiente multimédia.

4. A leitura digital molda expectativas e comportamentos

Ao longo dos últimos anos, a leitura quotidiana de conteúdos breves (redes sociais, mensagens, textos curtos) influenciou a forma como os leitores abordam textos mais complexos no digital.

A investigação mostra que:

🟥os leitores tendem a sobrestimar a sua compreensão do que leem online;

🟥a propensão para divagar é maior em ambiente digital;

🟥as estratégias aplicadas tendem a ser mais superficiais e orientadas para a rapidez.

Este padrão aproxima-se do fenómeno descrito como shallowing: uma leitura fragmentada, dispersa e pouco reflexiva.

Uma implicação geral para a escola

As especificidades da leitura digital que aprofundamos atrás mostram que esta não é simplesmente a “leitura de sempre” num novo suporte. É uma prática complexa que exige atenção contínua às características do meio, requer estratégias de leitura adaptadas, implica uma gestão mais exigente da atenção e da carga cognitiva.

A inclusão digital enquanto condição de equidade, é indispensável. Para que todos os alunos possam aprender a ler bem no mundo digital, é necessário garantir quatro dimensões de acesso:

1. Atitude e motivação: Deve haver uma atitude positiva em relação aos ambientes digitais e motivação para os usar.

2. Acesso físico: É necessário providenciar acesso a dispositivos digitais e a um serviço robusto de internet de banda larga.

3. Competências digitais: É preciso desenvolver competências tecnológicas (relacionadas com o meio) e competências de conteúdo (estratégias de leitura e pesquisa de informação). É de salientar que a exposição a dispositivos por si só não é suficiente; é indispensável o ensino explícito das competências digitais.

4. Acesso ao Uso: Há que garantir tempo e oportunidades suficientes para praticar o uso de ambientes digitais e da internet de forma significativa, colaborativa e acompanhada.

A escola e as bibliotecas escolares desempenham um papel fundamental na criação de condições para que todos os alunos desenvolvam hábitos de leitura críticos, atentos e conscientes, no atual ecossistema digital em permanente transformação. Preparar os alunos (todos os alunos) para lerem em ambientes digitais não é opcional é uma responsabilidade educativa central.

 

Referência

Bruggink, M., Swart, N., van der Lee, A., & Segers, E. (2025). Teaching reading comprehension in a digital world: Evidence-based contributions using PIRLS and digital texts. Springer Cham. https://doi.org/10.1007/978-3-031-75121-9

_____________________________________________________________________________________________________________________

Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0