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Blogue RBE

Sex | 18.02.22

A informação objetiva é uma impossibilidade

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“Da informação objetiva pode dizer-se o mesmo que da quadratura do círculo (redução a um quadrado de área equivalente): que é uma impossibilidade”, afirma José Saramago num seminário organizado pela Universidade Menéndez Pelayo e a EFE, agência de notícias internacional [1].

Fazem sentido as expressões “uma imagem vale mil palavras” ou “factos são factos”?

Imagens podem ser modificadas, na sua criação e partilha: “a luz, o ângulo de focagem ou a lente utilizada, podem subjetivar o que nos está a ser mostrado”, pelo que “necessitam muitas vezes de um texto que as explique” e contextualize.

Cada facto/ efeito é consequência de factos anteriores e causa de acontecimentos futuros, pertencendo a uma rede de causas e efeitos que seria importante identificar e compreender, mas que ultrapassa os limites da razão humana, ainda que ampliada auxiliada com tecnologia digital.

A linguagem é um instrumento de expressão e comunicação subjetivo. Está condicionada por ideologia (política, religiosa…), classe social, interesses corporativos ligados à profissão ou grupo a que pertence, costumes, cultura, sentimentos e contexto histórico.

“Considero o ponto de vista como uma questão fundamental em tudo quanto se refere à informação”, pois “Ao mudar o ponto donde se vê, mudará igualmente aquilo que é visto.” Segundo Saramago, ponto de vista de cada um é marcado pela visão do mundo e linguagem partilhada pela comunidade, pois “não podemos pensar [ou percecionar/ imaginar] fora do pensado”.

Consequentemente, “Toda a informação é subjetiva e não pode evitar sê-lo”, na origem, transmissão, receção.

Neste seminário Saramago questiona o caráter aparente e ilusório das “retas objetividades” da informação, tal como da sua neutralidade - é um ideal “impossível de alcançar”, bem como da liberdade ou independência do jornalismo - as relações de cumplicidade (“cordão umbilical ”) que o jornalismo estabelece com os partidos políticos e governo e os grandes grupos económicos e banca, justificam “a velha frase que diz que os jornais servem para vender clientes [os leitores] aos anunciantes” que financiam os jornais a troco de publicidade: “a simples ameaça de retirada da publicidade é suficiente para que nenhum jornal ouse denunciar abusos notórios”.

Destaca a possibilidade da imprensa e televisão manipularem a opinião dos leitores com base em duas tendências em crescente expansão:

- A dos fazedores de opinião (opinion makers), novos oráculos - politólogos, comentadores, influenciadores… - que retiram ao leitor/ consumidor de informação liberdade para construir ideias e sentimentos a partir da realidade. Os seus pontos de vista resultam, à partida, “da ação de penetração que os denominados criadores de opinião vieram operando no seu espírito”, confundindo-se facto com opinião;

- As “mil possibilidades [de repetição e ampliação de notícias através] da técnica, vimo-lo com zoom, sem zoom, em plongée, em contre-plongée, de um ângulo, do ângulo oposto, em travelling, de frente, de perfil. E também, interminável, ao ralenti…” transformam a sensibilidade do leitor, distanciando-o da realidade e tornando-o indiferente e passivo, cego, perante os problemas da sociedade. Diante do espetáculo/ superficialidade do mundo que a televisão transmite, inclusive nos telejornais, o espetador adota a atitude de cinéfilo, alienando-se do essencial das pessoas e realidade.

A internet amplia: o distanciamento do cibernauta perante os outros seres humanos; a desumanização, tornando a informação absurda, destituída de propósito; a ignorância porque o acesso ao labirinto de informação depende exclusivamente da habilidade técnica ou funcional de pesquisa, através de múltiplas plataformas/ ferramentas digitais. A informação não transforma o ser humano, tornando-o mais sábio, próximo ou solidário em relação aos outros seres humanos e planeta – “Vemos concretizar-se o cenário de pesadelo anunciado pela ficção-científica: alguém encerrado no seu apartamento, isolado de todos e de tudo, na mais angustiosa solidão, mas ligado por internet e em comunicação com todo o planeta.”

Como é que a biblioteca escolar consciencializa crianças e jovens e a comunidade sobre os limites do jornalismo e da informação?

As notícias dos media (imprensa, televisão, internet) são construções subjetivas de palavras, representações e não factos/ realidade?

Empresas e partidos políticos controlam a informação?

No contexto da biblioteca, a literatura e crónicas (subgénero), por exemplo de Saramago, é fonte de discussão e consciencialização sobre o trabalho dos jornalistas na atualidade?

 

Referências

1. Saramago, J. Universidade Menéndez Pelayo & EFE (Org.). (2004). A quadratura do círculo. Santander (Espanha): Jornalismo & Jornalistas [Revista], in: Clube dos Jornalistas (2010, 30 jun.) Saramago, o jornalismo e a quadratura do círculo. Portugal: CJ. https://www.clubedejornalistas.pt/?p=2860

2. Fonte da imagem: Wikipedia. (2022). Quadratura do círculo. https://pt.wikipedia.org/wiki/Quadratura_do_c%C3%ADrculo

 

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