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Fonte: Foto de Markus Spiske no Pexels

A literatura tem vindo a ganhar forma eletrónica (hipertexto) e extravasado os limites das páginas impressas dos livros (migrou para o ecrã, motores de busca e páginas web). Literatura essa que incorpora diversas linguagens (audiovisual/multimédia), utiliza códigos semióticos distintos (hipermédia) e acontece num espaço de acesso livre e descentralizado (ciberespaço).
 
Estas transfigurações arrastam-nos, inevitavelmente, para novas modalidades de leitura (de uma leitura em silêncio, focada em páginas fixas, passamos para uma leitura digital, multimodal, centrada na exploração, na pesquisa e no cruzamento de links) e obrigam o leitor à construção do sentido do(s) texto(s), por entre percursos que se dão em múltiplas direções, por condensarem diferentes linguagens (gráficas, iconográficas, textos escritos, imagens, filmes, sons) e suportes (áudio, vídeo, etc...). 
 
É assim que, hoje, a amplitude da experiência de leitura se encontra condicionada quer pelas competências leitoras, quer pelas competências digitais do leitor, e, em virtude disso, o ato de ler se tornou mais complexo.
 
Uma forma de se perceber essa complexidade passa pela exploração deste tipo de objetos literários, uma vez que a análise das suas características, propósitos e peculiaridades, nos permite ampliar a reflexão sobre os processos de intermedialidade que eles envolvem, como, também, nos desafia, enquanto leitores, ao exercício de uma certa lógica labiríntica na exploração das narrativas.
 
Observem-se, por exemplo, as seguintes obras:
 
- All This Rotting de Alan Trotter,  Seed de Joanna Walsh; STRATA de Tommy Lee Edwards & I Speak Machine (publicadas pela Editions At Play); 
 
- A Árvore e o Poema hipermédia do autor Português Rui Torres;
 
- (Des)Conexão, Oráculo , Var Poesia (disponibilizadas no sítio online  WR3AD1NG D1GIT5 onde são apresentados diversos tipos de projetos  no âmbito da criação artística experimental e da curadoria).
 
Tal exploração proporciona uma experiência verdadeiramente inquietante, que causa estranheza, já que todas as convenções sobre o que é o livro ou a leitura são abaladas, fruto das imensas possibilidades de mobilidade intrínseca que este tipo de textos (híbridos, voláteis, não sequenciais, algorítmicos…) oferece aos leitores. 
 
Contudo, apesar da literacia literária do meio digital ainda estar em fase de construção, não havendo, por isso, um conjunto de convenções estáveis, é possível observar que o meio digital tem inventado novas formas e géneros literários. Uma consulta ao  arquivo digital da PO.EX., do Centro de Estudos de Texto Informático e Ciberliteratura, da Universidade Fernando Pessoa de Portugal, ajuda-nos a contextualizar teórica e conceptualmente estas novas tipologias textuais [Cf.: géneros – “Eletrografia e copy art; Ficção experimental ; Videopoesia; etc.”] , a sua organização [“Materialidades e Transtextualidades”] e respetiva classificação [taxonomia – “poesia visual, sonora, espacial, performativa, digital, concreta e vídeo”].
 
As plataformas mudaram e mudaram-nos. Hoje lê-se mais em ecrã e o tempo do hipermédia ou do multimédia, que é o da simultaneidade e da transformação, requer do leitor uma experiência interpretativa, na articulação de novas práticas de criação digital com as competências necessárias para as interpretar e compreender. Exige-se uma certa co-autoria ao leitor que, imerso num ambiente de leitura interrompida (saltos de texto, de imagens, sons, janelas que se sobrepõem...), vai construindo o seu itinerário de leitura/pesquisa, através de escolhas sucessivas, de constantes releituras (versões múltiplas de textos) e reescritas (diferentes modos de expressão).
 
Contudo, a literatura não é nem o suporte nem a matéria, mas configura-se pelo próprio ato de ler. Diferente da competência técnica (ser capaz de juntar palavras, navegar de link para link, ...) a leitura suporta a forma como o leitor está no mundo pelos espaços de compreensão que gera. A questão do entendimento da escrita e do discurso remete para a discussão do sentido do texto, da interpretação propriamente dita, e isso não mudou.
 
Ler é sempre um ato de recriação. Por seu lado, o indivíduo que interpreta o(s) texto(s) precisa de o(s) reconfigurar em diferentes modos de expressão, tornando-se, por isso, um co-autor. Também assim acontece com o texto impresso.
 
O desafio para o ensino, quando entramos na literatura eletrónica, prende-se sobretudo com a necessária discussão de algumas questões. Deveriam os professores:
 
● trazer este tipo de obras para a sala de aula e proporcionar experiências de leitura literária digital aos alunos?
● utilizar este tipo de textos, por forma a desenvolver conhecimentos dos alunos em termos de linguagem de programação, conceções estéticas e/ou epistemológicas e, principalmente, sobre novos géneros ou tipo de obras disponíveis na literatura eletrónica?
● promover experiências de leitura que coloquem os alunos numa situação mais imersiva e interativa, por forma a desenvolverem as suas competências imaginativas e críticas, em ambientes audiovisuais e digitais que lhes são tão familiares?
● desenhar e experimentar estratégias para lidar com a fruição da arte literária, em especial no contexto da produção dos novos objetos literários, concebidos para o ambiente digital?
 
Não havendo dúvida dos desafios, estas são algumas perguntas às quais podemos, mas não devemos fugir.
A título de exemplo, no sítio de apoio Aprender com a biblioteca escolar: atividades e recursos foi disponibilizada uma proposta de atividade que proporciona a experimentação deste tipo de literatura: Hiperdesafio!
 



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