Até às 18h00 do dia 21 de novembro, estão abertas as candidaturas da Rede de Bibliotecas Escolares para o ano de 2026. São várias as possibilidades de apoio, desde a requalificação de espaços e equipamentos, até à promoção da leitura, da literacia informacional e mediática e da inclusão. São oportunidades importantes, mas também exigentes, pois não dispensam clareza de visão, capacidade de planear e, sobretudo, envolvimento da escola.
Uma candidatura bem-sucedida vai muito para além do preenchimento de um formulário. Começa na visão estratégica da biblioteca escolar, uma visão que precisa de ser partilhada com a comunidade educativa e assumida pela direção da escola e lideranças intermédias, para quese torne um instrumento de mudança, um impulso para fazer melhor e ir mais longe e deixe de ser um mero pedido de apoio financeiro.
É com esse espírito que partilhamos, a seguir, algumas sugestões que podem ajudar as equipas das bibliotecas a prepararem as suas candidaturas e construírem um projeto ou programa que responda às necessidades da escola e contribua para o crescimento coletivo.
1. Ler com atenção o aviso de abertura
Pode parecer um conselho óbvio, mas é, de facto, o primeiro passo para uma boa candidatura. O aviso de abertura define o enquadramento, os prazos, os destinatários e os critérios de seriação. É também importante abrir o formulário de candidatura e, com base nos dois documentos, procurar as respostas às perguntas essenciais:
A escola é elegível?
Quais são as prioridades e os objetivos desta linha de financiamento?
Que despesas são (ou não são) elegíveis?
Que documentos devem ser preparados?
Ler o aviso com tempo e em equipa é um investimento essencial. Vale a pena reunir direção, professor bibliotecário e (se possível) um ou dois docentes com experiência em gestão de projetos ou de áreas específicas da candidatura.
Lembre-se: Cada aviso traduz as orientações estratégicas da RBE e indica a direção que se pretende imprimir ao trabalho das bibliotecas escolares.
2. Começar com um bom diagnóstico
Antes de propor ideias ou ações, é essencial compreender o ponto de partida, sendo uma excelente oportunidade para envolver a direção, os docentes e a comunidade na reflexão.
O diagnóstico é a base de uma boa candidatura: mostra que a biblioteca conhece o seu contexto, identifica necessidades reais e constrói a mudança a partir de dados concretos. Para estar bem feito, não se deve limitar a descrever problemas, mas a elencar causas e oportunidades.
Pode partir de várias fontes:
dados resultantes da implementação do Modelo de Avaliação da Biblioteca Escolar, os resultados de leitura dos alunos, os inquéritos à comunidade, o grau de utilização da biblioteca, observações recolhidas ao longo do tempo…
Algumas perguntas úteis:
Quais são as principais necessidades da biblioteca e da escola neste momento?
Que dados (quantitativos ou qualitativos) sustentam essa necessidade?
Que mudanças queremos promover e por que razão o projeto é necessário?
Que recursos e parcerias já existem e podem ser potenciados?
Lembre-se: Um diagnóstico sólido evita soluções apressadas e garante que a candidatura nasce de um pensamento estratégico e não apenas de uma boa ideia isolada.
3. Descrever claramente o projeto
Depois de identificar o ponto de partida, é tempo de descrever o que se pretende implementar. É fundamental ter uma noção precisa das ações a desenvolver, dos recursos necessários, das pessoas envolvidas, dos resultados esperados.
Numa descrição objetiva devem evitar-se listas ou frases demasiado genéricas que pouco acrescentam à compreensão do projeto/ programa.
Uma boa descrição responde de forma clara e objetiva a três perguntas:
O que queremos fazer? (ações e resultados esperados)
Por que razão é importante fazê-lo agora? (diagnóstico e contexto)
Que transformação pretendemos alcançar? (impacto a curto e médio prazo)
Não tenha receio de usar uma linguagem próxima e frases simples e claras: elas facilitam a leitura, revelam pensamento estruturado e demonstram segurança no que se propõe.
Lembre-se: Quem lê deve perceber em que consiste o projeto/ programa e reconhecer que ele é possível, relevante e construído por uma equipa que sabe o que pretende alcançar.
4. Definir objetivos concretos e alcançáveis
Os objetivos são o coração de qualquer candidatura. São eles que dão direção, coerência e sentido ao projeto e permitem, mais tarde, avaliar o que foi alcançado.
Por isso, é fundamental que os objetivos sejam claros, mensuráveis e realistas. Frases muito genéricas, como “melhorar os hábitos de leitura” ou “aproximar a biblioteca dos alunos”, soam bem, mas dizem pouco sobre o que realmente se pretende fazer. Quem aprecia a candidatura precisa de perceber o que vai mudar, em quem e quando.
Um bom objetivo descreve uma ação observável e um resultado verificável. É útil recorrer ao modelo SMART — específico, mensurável, alcançável, relevante e temporalmente definido.
Por exemplo:
“Aumentar em 20% o número de alunos que requisitam livros de forma autónoma até ao final do 2.º período.” “Criar e implementar, até junho de 2026, um conjunto de quatro oficinas de literacia informacional e mediática para turmas do 3.º ciclo.”
Estes exemplos mostram o que será feito, com quem, em quanto tempo e com que resultado esperado.
É necessário atentar no número de objetivos previstos na candidatura, garantindo coerência entre o que se observou, o que se quer mudar e o que se propõe fazer.
Lembre-se: Objetivos vagos geram ações dispersas; objetivos bem definidos constroem caminho, dão sentido ao esforço e tornam o projeto credível, viável e consistente.
5. Escolher metodologias adequadas e coerentes
Definidos os objetivos, é preciso mostrar como é que o projeto será concretizado: que estratégias se vão usar, quem participa, com que frequência, e que tipo de experiências de aprendizagem serão criadas. Este planeamento deve traduzir-se em ações pedagógicas coerentes, participativas e significativas.
As candidaturas mais consistentes são aquelas que apresentam metodologias ativas, centradas nos alunos enquanto protagonistas do processo e não apenas como destinatários, pois, reconhecidamente, os alunos aprendem mais e melhor quando fazem, exploram, criam e partilham.
Por exemplo:
Leitura participada e colaborativa, em que os alunos discutem, reinterpretam e recriam os textos;
Aprendizagem baseada em projetos ou desafios, que ligam a leitura e a biblioteca ao currículo, à comunidade e à atualidade;
Exploração crítica e criativa dos media e das tecnologias, como produção de podcasts, curadoria digital de leituras, clubes de jornalismo, exposições multimédia;
As metodologias devem também:
Estar alinhadas com os objetivos definidos e com as competências do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória;
Favorecer a interdisciplinaridade, criando pontes entre áreas do conhecimento e permitindo que os professores encontrem sentido curricular nas propostas;
Valorizar o trabalho colaborativo, envolvendo docentes, técnicos, parceiros e famílias, sempre que faça sentido;
Incluir momentos de reflexão, nos quais alunos e professores possam pensar sobre o que aprenderam, o que correu bem e o que pode ser melhorado.
Lembre-se: A inovação não depende de grandes recursos, mas de intencionalidade pedagógica. O essencial é que as atividades a desenvolver coloquem os alunos no centro do processo.
6. Identificar claramente o público-alvo
Um projeto só faz sentido quando se sabe para quem é pensado. Definir com clareza o público-alvo é essencial para adequar as estratégias, os recursos e a linguagem das ações.
Comece por distinguir entre:
Público direto – os participantes principais das atividades (alunos de determinados ciclos, professores de um grupo disciplinar, famílias, assistentes operacionais, comunidade local, etc.);
Público indireto – quem será impactado de forma mais ampla (outras turmas, docentes, parceiros, comunidade educativa em geral).
Quantifique sempre que possível: número estimado de alunos, turmas envolvidas, docentes participantes, famílias abrangidas. Estes dados mostram a escala e a viabilidade do projeto.
Não se limite a identificar grupos; é importante pensar como envolver cada público de forma ativa: os alunos devem ser participantes e não apenas destinatários; os professores, parceiros na planificação; as famílias, aliadas na continuidade das aprendizagens; e a comunidade, parte interessada e coautora das iniciativas.
Lembre-se: Projetos/ programas bem-sucedidos são aqueles que criam pertença, de que todos se sentem parte e para os quais todos têm algo a contribuir.
7. Planear o tempo de forma realista
Um bom projeto/ programa vive muito da organização. Definidos os objetivos e as metodologias, é essencial garantir que tudo o que se propõe é exequível no tempo disponível.
Uma candidatura forte demonstra que há planeamento, que as ações estão bem distribuídas e que a equipa sabe quem tem de fazer, o que tem de fazer e quando tem de fazer.
A calendarização deve ser realista, equilibrada e coerente com o calendário escolar, contemplando um ritmo de trabalho sustentado, com tempos para preparar, agir, refletir e comunicar.
Devem ser evitadas expressões vagas como “ao longo do ano letivo”: uma calendarização genérica não permite perceber a sequência das ações nem a sua relação com os objetivos. Assim, sempre que possível, indique períodos ou momentos concretos.
Por exemplo:
“De outubro a dezembro: oficinas quinzenais de leitura crítica nas turmas do 8.º ano”; “Janeiro e fevereiro: recolha e análise de resultados intermédios.”
Evite sobrecargas: um projeto demasiado ambicioso, com muitas ações concentradas, tende a ser menos credível. Mais vale um plano bem distribuído, consistente e sustentado, que possa ser realizado com qualidade.
Lembre-se: Uma boa calendarização é um instrumento de gestão que ajuda a equipa a manter o foco, a avaliar o progresso e a comunicar o que se alcançou.
8. Orçamentar com rigor
Um orçamento bem elaborado é um dos sinais mais claros de que o projeto foi pensado com seriedade e realismo. O orçamento é a tradução financeira do plano de ação e mostra se o que se propõe é exequível, coerente e sustentável. Deve ter em conta o n.º máximo de rubricas a considerar previsto no formulário de candidatura e detalhar os itens a adquirir, clarificando como é que cada despesa contribui para as ações a concretizar.
Também é importante:
Verificar se as despesas propostas respeitam as condições do aviso (há rubricas elegíveis, em cada candidatura);
Garantir que o valor solicitado é proporcional à dimensão e à duração do projeto (um orçamento excessivo para poucas atividades levanta dúvidas sobre a exequibilidade);
Identificar, se aplicável, cofinanciamento da escola, da autarquia ou de parceiros externos (o que demonstra envolvimento e sustentabilidade).
O orçamento deve ser construído em articulação com a direção e os serviços administrativos, garantindo-se que está conforme as normas financeiras da escola, evitando erros formais e reforçando a integração do projeto na dinâmica global da instituição.
Lembre-se: Um orçamento equilibrado, claro e justificado reforça a qualidade da candidatura e valoriza a biblioteca escolar como um espaço de gestão responsável.
9. Prever a monitorização e a avaliação
Um projeto sólido não se mede apenas pelo entusiasmo com que começa, mas pela capacidade de acompanhar, avaliar e aprender ao longo do caminho. Por isso, a monitorização e a avaliação não devem ser pensadas no fim, devem estar previstas desde o início da candidatura, como parte integrante da planificação.
A monitorização permite perceber, em tempo real, se as ações estão a decorrer como previsto, se os objetivos continuam adequados e se é necessário ajustar estratégias.
A avaliação recolhe e analisa evidências para compreender o impacto e tirar conclusões sobre o que funcionou, o que pode ser melhorado e o que merece continuidade.
Ambas são instrumentos de crescimento: ajudam a biblioteca a aprender com a experiência e a melhorar as suas práticas.
Para isso, é importante definir desde logo:
Que indicadores serão monitorizados (número de alunos envolvidos, frequência de utilização da biblioteca, diversidade de atividades realizadas, produtos criados, participação de docentes, grau de satisfação dos participantes…)
Que instrumentos serão usados (grelhas de registo, questionários, listas de verificação, fotografias, portefólios digitais, diários de bordo, reuniões de reflexão…)
Quem será responsável por recolher e tratar a informação (o professor bibliotecário, docentes da equipa, docentes parceiros, alunos monitores…)
Com que frequência se farão momentos de análise (mensal, trimestral, ou em etapas-chave do projeto)
Lembre-se: Projetos/ programas que integram a monitorização desde o início revelam maturidade, responsabilidade e visão e transformam a candidatura num processo de aprendizagem organizacional.
11. Trabalhar em rede e construir parcerias
Nenhuma biblioteca é feliz trabalha sozinha. A força de um projeto/ programa nasce do modo como consegue envolver pessoas, equipas e instituições dentro e fora da escola.
As candidaturas RBE valorizam o trabalho colaborativo e o espírito de rede, porque é isso que garante continuidade, diversidade de perspetivas e maior impacto educativo. Por isso, ao preparar a candidatura, pense em quem pode ser parceiro e que valor acrescenta à iniciativa.
Dentro da escola:
Direção e Conselho Pedagógico.
Departamentos e outras estruturas de coordenação;
Docentes de diferentes áreas disciplinares;
Clubes, projetos e associações de alunos;
…
Fora da escola:
Biblioteca municipal e serviços culturais da autarquia;
Universidades, museus, associações culturais e científicas;
Projetos locais e redes de leitura;
Famílias e comunidade;
…
Para identificar parcerias, não basta lista-las, sendo fundamental explicar a sua natureza: o que cada entidade faz, que papel assume e que contributo traz. Parcerias sólidas mostram que a biblioteca sabe articular recursos, mobilizar saberes e construir pontes.
Lembre-se: Trabalhar em rede é, acima de tudo, pensar com os outros, fazer com os outros e aprender com os outros, uma forma de garantir que o projeto/ parceria está ligado à realidade da escola e tem sentido para a comunidade que o concretiza.
11. Comunicar e partilhar resultados
Um projeto bem-sucedido é aquele que gera mudança e a torna visível. A comunicação não é um apêndice do trabalho, é parte integrante do processo.
Desde o início, defina como vai partilhar o que se faz e o que se aprende:
Criação de um espaço digital próprio para o projeto;
Publicação de notícias no site da escola, da biblioteca ou na rede concelhia;
Participação em encontros, feiras ou mostras de boas práticas;
Criação de exposições, vídeos, podcasts ou brochuras;
Divulgação nas redes sociais institucionais;
Apresentações à comunidade educativa...
Estas formas de comunicação reforçam o sentimento de pertença e reconhecem o valor do trabalho desenvolvido. Também permitem que outras bibliotecas se inspirem, adaptem e repliquem ideias bem-sucedidas.
Lembre-se: Dar visibilidade ao projeto é uma forma de ampliar o seu impacto e de alimentar a cultura de partilha que caracteriza a Rede de Bibliotecas Escolares.
12. Garantir a sustentabilidade
Um dos maiores desafios é assegurar que o projeto não termina quando o financiamento termina. A sustentabilidade deve ser pensada desde a candidatura, nas suas várias dimensões:
Pedagógica: o que se aprendeu e se criou deve integrar-se nas práticas regulares da biblioteca e da escola (por exemplo, clubes, rotinas, recursos, metodologias).
Institucional: o projeto deve estar articulado com as prioridades do projeto educativo, garantindo continuidade no tempo.
Financeira: é importante identificar recursos que podem ser mantidos, reutilizados ou complementados com apoios da autarquia e de parceiros locais.
Humana: envolver professores, técnicos e alunos de forma alargada assegura que o conhecimento e o entusiasmo permanecem, mesmo que as equipas mudem.
Lembre-se: Pensar a sustentabilidade é pensar o futuro: como é que o projeto se transforma em prática, como é que se inscreve na cultura da escola e como continua a gerar valor.
A candidatura como exercício de crescimento
Preparar uma candidatura é um exercício de reflexão e de liderança pedagógica. É uma oportunidade para olhar com atenção para o trabalho desenvolvido, identificar o que pode ser melhorado e envolver toda a comunidade na construção de um projeto comum.
Uma candidatura bem pensada traduz uma visão de escola: uma escola que lê, que aprende, que se questiona e que se abre ao mundo. Ao elaborar um projeto/ programa, o professor bibliotecário lidera um processo de mudança, mobiliza equipas, articula parcerias e dá forma concreta à missão da biblioteca: apoiar as aprendizagens, promover literacias e contribuir para o desenvolvimento integral dos alunos. Quando é construída com visão, rigor e espírito colaborativo, torna-se uma alavanca de desenvolvimento, para a biblioteca, para os seus utilizadores e para a comunidade educativa que nela se revê.
Mesmo quando o financiamento não é atribuído, o caminho percorrido é valioso. A reflexão feita, o diagnóstico elaborado, as ideias amadurecidas e os laços criados permanecem como base para novos passos. Cada candidatura deixa aprendizagens que fortalecem a equipa e consolidam a identidade da biblioteca enquanto espaço de inovação, de pensamento e de cidadania.
Lembre-se: Uma candidatura não é um fim em si mesma - é um meio para pensar melhor, agir com mais clareza e criar impacto duradouro.
O contributo inestimável da assistente operacional, Guiomar Rodrigues, na biblioteca da Escola Básica de Santa Clara
Uma biblioteca é uma casa que, como qualquer outra casa, é composta de objetos e de gente. As casas são mobiladas, decoradas, apetrechadas para as tornar mais acolhedoras e funcionais. Assim é esta biblioteca, uma casa que foi sendo cuidada para imprimir uma atmosfera moderna e luminosa. Os livros, claro, esses não podem faltar numa casa, porque já dizia Cícero “Uma casa sem livros é uma casa sem alma”. Compram-se as novidades literárias, arrumam-se os livros lidos e manuseados, uma e outra vez, limpa-se o pó para evitar que o bicho de prata faça do livro a sua casa.
E esta casa passa a ser, para muitos, um aeroporto onde cada viajante tomará uma porta de embarque diferente. Assim afirmou Valter Hugo Mãe «As bibliotecas deviam ser declaradas da família dos aeroportos porque são lugares de partir e de chegar.» E quando se chega dessa viagem, não seremos os mesmos. Também não se sai igual da biblioteca: a nossa alma engrandece e abre-se ao mundo.
Numa casa também se cuida de quem as habita e de quem as visita. Com um bom anfitrião, as visitas nem batem à porta, entram de rompante, como quem chegou ao Paraíso. Já Jorge Luís Borges dizia “ Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de biblioteca”. Por isso, regressam uma e outra vez.
O trabalho quase imperceptível de quem cuida da biblioteca e dos seus leitores, dia-a-dia, que a faz funcionar, não só como um mero serviço, mas como uma casa que acolhe, que cuida da partida da viagem de cada leitor, que espera pela chegada de cada viagem com expetativa e que aguarda que seja relatada, para deleite do anfitrião. E é ver as mentes a brilhar, e é ver as mentes a sonhar…
A assistente operacional Guiomar Rodrigues exerceu funções durante 25 anos na biblioteca da Escola Básica de Santa Clara e fê-lo no quadro desse espírito, numa entrega pessoal, consentâneo a quem ama os livros e a quem conhece a alma do LEITOR.
Porque a dona Guiomar (assim é tratada por todos na escola) vai deixar de exercer funções na biblioteca, quis prestar-lhe esta modesta homenagem.
Muito obrigada, dona Guiomar, por ter feito desta casa uma casa de leitores e não apenas de livros!
Olga Borges Rocha Professora Bibliotecária Agrupamento de Escolas Severim de Faria, Évora
O projeto “Amigos da Biblioteca/ Atelier Inclusivo de Leitura e Expressão Plástica”, das biblioteca escolar do AE Tondela Tomaz Ribeiro, que resulta da parceria interna entre a Biblioteca Escolar, o Departamento. de Educação Especial e demais alunos e professores do clube dos “Amigos da Biblioteca”, tem vindo a contribuir para a construção de uma Escola Inclusiva, em conformidade com os pressupostos enunciado na Declaração de Salamanca (Unesco,1994):
“O princípio fundamental das escolas inclusivas consiste em todos os alunos aprenderem juntos, sempre que possível, independentemente das dificuldades e das diferenças que apresentem. Estas escolas devem reconhecer e satisfazer as necessidades diversas dos seus alunos, adaptando-se aos vários estilos e ritmos de aprendizagem, de modo a garantir um bom nível de educação para todos (…).”
A nossa Biblioteca Escolar, como estrutura formativa ao serviço das aprendizagens e da construção do conhecimento, em consonância com os objetivos educativos e curriculares da escola, tem vindo a desempenhar paulatinamente um papel fulcral na promoção da leitura e das literacias, para TODOS, valorizando a diversidade e a diferença, abrindo-se a ações que promovem o bem-estar emocional.
Se o trabalho das bibliotecas deste AE, em ligação com outros parceiros, internos e externos, e num trabalho de articulação com as lideranças intermédias, favorece uma ação consistente para a promoção do sucesso, reconhecemos que este projeto colaborativo dos “Amigos da biblioteca/ Atelier Inclusivo de Leitura e Expressão Plástica” cria um ambiente de acolhimento para todos os alunos. Com particular atenção aos alunos abrangidos pelas medidas adicionais previstas no artigo 10.º do DL 54/2018, promove a interação e aprendizagem cooperativa entre alunos com perfis de aprendizagem diferenciados, mas também num processo que acompanha o acolhimento das múltiplas nacionalidades que recebemos na nossa casa.
Contando já com 12 anos de existência, na Escola Secundária de Tondela, ao longo dos anos têm reforçado dinâmicas e desenvolvido atividades diferenciadas, de forma flexível, acompanhando as alterações legislativas, as orientações curriculares e organizacionais internas e os recursos disponíveis na escola/ biblioteca escolar. Não pretendendo dar conta de tudo o que se fez e faz sendo estestes alunos verdadeiros coautores, destacamos, pelo grande envolvimento e grau de satisfação dos intervenientes, as seguintes:
🟥 As leituras “diferentes” e aconchegantes, que levam muitas vezes a dramatizações e construção de adereços, verdadeiros objetos contadores de histórias, para animar a leitura da “Hora do Conto”, para os alunos dos Jardins de Infância, quando os mesmos vêm visitar a Biblioteca da “escola dos grandes” – a Escola Secundária de Tondela.
🟥 A produção de produtos expositivos (temáticos) e consequente realização das exposições, na Biblioteca no no átrio de acesso, com aplicação de técnicas diversas no âmbito da área das expressões. São utilizados materiais diversificados, levando muito em consideração o aproveitamento e reutilização de materiais residuais.
🟥 Participação em projetos transversais, sob organização da Biblioteca, com diferentes níveis de articulação, envolvendo parceiros internos e externos. destacamos pela transversalidade as seguintes ações: inerentes ao processo dos Miúdos a Votos; Laços de Leitura, Música e Ternura (diálogo e partilha intergeracional entre os alunos e utentes dos lares de idosos do concelho); Workshops de cinema, na Biblioteca, com o Cine Clube de Viseu; …
🟥 Programa de mentorias: alunos mentores acompanham e apoiam os seus mentorandos, com periodicidade semanal, na realização das atividades, na Biblioteca ou no Centro de Apoio à Aprendizagem, conjuntamente planeadas pelos alunos, após formação inicial conduzida pela professora bibliotecária e professoras de educação especial.
Concluímos salientando a colaboração preciosa que estes nossos alunos dão nas tarefas inerentes ao dia-a-dia da organização da Biblioteca Escolar, como por exemplo: atendimento aos utilizadores, colocação dos livros devolvidos, após empréstimo, no sítio correto da estante – o que implica conhecimento da CDU, do sistema ColorAdd e de regras elementares de catalogação ( os alunos mentorandos são orientados pelos alunos mentores, o que muito nos orgulha).
O projeto “Amigos da Biblioteca/ Atelier Inclusivo de Leitura e Expressão Plástica” foi distinguido com o SELO ESCOLA AMIGA DA CRIANÇA, nos anos letivos de 2022/23 e 2023/24.
Acesso ao álbum do projeto “alelier exclusivo” aqui.
O grupo colaborativo: Elisa Figueiredo (professora Bibliotecária), Paula Machado e Sofia Morgado (ED.E)
Castelo de Vide conta, desde esta semana, com uma nova Biblioteca Escolar na Escola Básica n.º 1, um espaço que nasce no seguimento da integração da escola na Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), resultante da candidatura aprovada em 2025.
A cerimónia de inauguração reuniu alunos, docentes, direção do agrupamento, autarquia, comunidade educativa e representante da RBE, num momento simbólico de celebração da leitura e do trabalho colaborativo que tem vindo a ser desenvolvido em torno do livro e das literacias.
Um novo espaço para aprender e crescer
A nova biblioteca foi totalmente equipada e reorganizada no âmbito do projeto apresentado à RBE, contemplando zonas de leitura, pesquisa e trabalho colaborativo, com mobiliário adaptado aos mais novos, fundo documental atualizado e recursos digitais que permitem explorar múltiplas formas de leitura.
A biblioteca da EB1 de Castelo de Vide representa uma porta aberta à imaginação, ao conhecimento e à cidadania ativa, promovendo práticas de leitura diversificadas, o desenvolvimento das literacias da informação e o gosto pela descoberta.
O projeto contou com o apoio da Câmara Municipal de Castelo de Vide, da Direção do Agrupamento de Escolas e da coordenadora interconcelhia da RBE, evidenciando o valor do trabalho em rede e a importância de investir em espaços educativos de qualidade que aproximem as crianças dos livros e da cultura.
A biblioteca da EB1 de Castelo de Vide integra agora plenamente a Rede de Bibliotecas Escolares, reforçando a coesão territorial e o compromisso do concelho com a leitura, as literacias e a aprendizagem ao longo da vida. Com esta inauguração, Castelo de Vide junta-se às comunidades educativas que reconhecem na biblioteca escolar um motor de inovação pedagógica e de inclusão social.
Entre histórias, encontros e novos projetos, este espaço convida a ler, criar e partilhar, porque cada leitor que nasce numa biblioteca é um cidadão que cresce com o mundo.
No dia 27 de outubro de 2025, o concelho de Elvas viveu um momento marcante no seu percurso de valorização da leitura e das literacias, com a inauguração de três novos Pontos Biblioteca, situados na EB1 da Raposeira, EB1 de Santa Eulália e EB1 da Calçadinha.
Estes espaços resultam de uma candidatura apresentada à Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), no âmbito do programa de apoio à criação de Pontos Biblioteca, que visa alargar o acesso à leitura, à informação e à cultura em contextos educativos diversificados, promovendo a igualdade de oportunidades e a coesão territorial.
Os Pontos Biblioteca constituem extensões da Biblioteca Escolar nos estabelecimentos de ensino onde, por razões de dimensão ou de recursos, não existe uma biblioteca centralizada. Em Elvas, o projeto concretiza o compromisso de levar a leitura mais perto das crianças, criando espaços acolhedores, versáteis e integradores, que incentivam o prazer de ler, a curiosidade e a partilha.
Cada Ponto de Biblioteca foi cuidadosamente preparado com mobiliário, equipamentos e acervos atualizados e está integrado na rede concelhia de bibliotecas, assegurando uma articulação efetiva com a Biblioteca Municipal e com as equipas de professores bibliotecários do concelho.
A cerimónia de inauguração contou com a presença de representantes da Câmara Municipal de Elvas, da Rede de Bibliotecas Escolares, das direções dos agrupamentos de escolas, das equipas das bibliotecas escolare de docentes, alunos e encarregados de educação. O ambiente vivido refletiu o entusiasmo de quem acredita que as bibliotecas escolares são motores de transformação educativa e social.
Estes três novos Pontos Biblioteca reforçam a rede educativa e cultural do concelho, aproximando as escolas da leitura e da cidadania, e concretizando na prática a visão da RBE: tornar a biblioteca escolar um espaço de aprendizagem ativa, criatividade e inclusão.
Com estes novos espaços, Elvas dá mais um passo no caminho da democratização do acesso ao livro, à informação e ao conhecimento, abrindo novas possibilidades para projetos de leitura, clubes de leitores, oficinas de escrita e iniciativas de literacia digital.
Num tempo em que as fronteiras da leitura se alargam, os Pontos Biblioteca da Raposeira, de Santa Eulália e da Calçadinha afirmam-se como lugares de encontro e de futuro, onde cada criança pode descobrir o poder das palavras e o prazer de aprender.
Experienciamos na atualidade uma crise da argumentação e da racionalidade discursiva.
O discurso é usado de forma violenta e radical, recorre à desinformação (tantas vezes repetida que se confunde com a realidade), manipulação e ódio contra grupos vulneráveis, como os migrantes e as mulheres.
Não levanta questões ou dúvidas, as opiniões que afirma são superiores e não está disponível para escutar, discutir e aprender com o outro.
Mudar de opinião significa trair o grupo a que pertence nas redes sociais, cuja solução final será o cancelamento público.
Cumpre-se o provérbio “eu tenho a minha ideia e tu a tua" ou o preceito bíblico "Quem não é comigo é contra mim”. Encerra-se o diálogo, a argumentação e degrada-se a vida pública e a democracia.
Cumpre-se a sentença de G. Orwel em 1984
“O poder de manter duas crenças contraditórias [Doublethink] na mente ao mesmo tempo, de contar mentiras deliberadas e ao mesmo tempo acreditar genuinamente nelas, e esquecer qualquer facto que se tenha tornado inconveniente”.
🟥Storytelling
Neste regime hostil ao exercício do livre pensamento e da palavra, há velhas e poderosas formas de comunicar e de lutar, expressar resistência.
Como por exemplo, contar histórias, expressar-se através da música ou da dança, revelando uma linguagem universal, celebrada numa comunidade de pessoas com diferentes vozes e culturas, que ajuda a reconstruir o diálogo, a confiança e a esperança na democracia e na paz, valores últimos da biblioteca escolar.
Em vez de factos e estatísticas, apresentem-se histórias e cultura.
Para José Saramago a literatura e a cultura não mudam o mundo, mas podem mudar a mentalidade das pessoas que mudarão o mundo.
🟥Literacias
A experiência que hoje temos do storytelling e da cultura (e da internet) é cada vez menos humanizada.
Tecnologias de IA (Inteligência Artificial) medeiam o acesso, curadoria, criação, partilha, publicação e reconhecimento de histórias e cultura.
Ao fazê-lo, não são neutras. São moldadas por interesses comerciais das grandes empresas tecnológicas que enriquecem com desinformação, raiva e discurso de ódio, que capta mais a atenção e gera mais envolvimento [circulam 6 vezes mais depressa do que os pontos de vista que expressam factos e moderação] e cliques, aumentando o lucro dos seus proprietários. É esta a estrutura do capitalismo digital.
O algoritmo destas empresas está moldado para priorizar o 1% dos criadores mais influentes, reforçando a desigualdade cultural e social.
Paradoxalmente, os algoritmos reduzem, em vez de expandir, a exposição cultural coletiva. A mediação por IA a que temos acesso não é representativa da diversidade cultural global, excluindo ou não dando a justa visibilidade a muitas pessoas, histórias, idiomas, culturas e sistemas de conhecimento. Nelas vigora o regime da monocultura.
Outras das vertentes da desumanização do storytelling e da cultura que experienciamos são o extrativismo cultural, que se apropria do capital criativo sem consentimento nem compensação justa aos criadores e a erosão da criatividade e das competências cognitivas humanas, à medida que cresce a dependência excessiva de IA.
Ao contrário de H. Arendt, a biblioteca escolar não quer concluir que a tecnologia há muito abandonou o ser humano. Quer voltar a ter fé no humano e na tecnologia, priorizando a agência criativa humana fomentando a literacia digital, da informação e media e o pensamento crítico que os professores bibliotecários incansavelmente trabalham com os seus alunos. Só na base deste serviço público – e da regulação do setor digital por parte dos governos – é possível que a tecnologia sirva a humanidade.
Nota Este foi o texto de abertura da Rede de Bibliotecas Escolares na XIV Jornadas da Rede de Bibliotecas da Maia, a 24 de outubro no Fórum da Maia.
Num mundo em que as histórias se multiplicam e os estímulos visuais e digitais invadem cada vez mais os espaços da infância, as bibliotecas escolares e os docentes do pré-escolar e do 1.º ciclo enfrentam um desafio renovado: não basta ter livros, importa escolher bem. A missão de «formar leitores» exige que os livros que deambulam pelos corredores da escola ou são levados para a sala de aula sejam janelas para a imaginação, estímulos para o pensamento e convites ao diálogo e à descoberta.
Mas como reconhecer, entre inúmeros títulos, aqueles que verdadeiramente valorizam o tempo de leitura das crianças? Como garantir que o acervo disponível reforça a literacia, a sensibilidade estética, o pensamento crítico e a cidadania? A resposta encontra-se no olhar consciente dos mediadores da leitura (em especial dos professores bibliotecários) que, convertendo-se em facilitadores junto dos colegas docentes, podem amplificar o impacto da biblioteca escolar como espaço de cultura e aprendizagem.
Na sequência do texto Como identificar bons livros para crianças? vimos agora propor sete ideias práticas e participativas, para apoiar docentes e professores bibliotecários (ou até, talvez, famílias) a explorarem, individual ou coletivamente, aquilo que distingue um “bom livro para crianças”. Não se trata de seguir fórmulas rígidas, mas de fomentar uma cultura de análise, escuta e sabor da leitura, de modo a que cada livro recomendado, explorado ou disponibilizado se torne uma oportunidade de crescimento real para os alunos.
Deixamos sete ideias que os professores bibliotecários podem experimentar para explorarem, com os colegas do pré-escolar e do 1.º ciclo, o que distingue um bom livro para crianças, literária, estética e pedagogicamente.
1. Feira às cegas
Organize uma pequena “feira do livro” com os livros embrulhados em papel pardo e apenas três pistas visíveis: uma frase, uma emoção e um adjetivo.
Os docentes escolhem “às cegas” e, depois de explorarem os livros, discutem o que os cativou — a linguagem, as ilustrações, o humor, a profundidade. A reflexão partilhada leva à descoberta de critérios de qualidade literária, de forma espontânea e envolvente.
2. A voz dos livros
Peça a cada grupo que leia, em voz alta, um excerto curto de diferentes obras (algumas mais literárias, outras mais comerciais).
Ao ouvir-se a musicalidade, o ritmo e o peso das palavras, percebe-se o que faz um texto ganhar vida na leitura e o que o empobrece. A boa literatura infantil lê-se bem porque foi escrita para ser ouvida.
3. A mala trocada
Apresente duas malas de livros: uma com títulos de qualidade, outra com livros datados ou estereotipados.
Sem saber qual é qual, os docentes exploram e escolhem a mala que levariam para uma sala de aula. A discussão posterior, com a revelação das curadorias, ajuda a clarificar o que diferencia o que “vale a pena ler” do que “parece educativo, mas não é literatura”.
4. O livro e a tela
Mostre pares de imagens: uma ilustração de álbum infantil e uma obra de arte.
Peça aos colegas que identifiquem semelhanças cor, composição, expressividade. Esta comparação abre o olhar para a dimensão artística da ilustração e para o álbum como objeto estético, não apenas pedagógico.
5. Os livros sobreviventes
Crie um jogo inspirado nos programas de eliminação: vários livros “competem” e, em cada ronda, um é eliminado com justificação.
O grupo chega a um “pódio literário” e constrói, a partir das justificações, uma grelha coletiva de critérios de qualidade. É uma forma divertida de pensar criticamente sobre o que faz um livro perdurar.
6. Quando eu era leitor(a) pequeno(a)…
Convide os docentes a recordarem um livro marcante da infância.
Ao compararem essas memórias com livros atuais, reconhecem o que mudou, nos temas, nas linguagens, na representação das crianças, e ganham consciência de como a literatura infantil evoluiu para respeitar a inteligência e a sensibilidade dos leitores mais novos.
7. Júri do prémio imaginário
Proponha que a equipa docente seja o júri de um prémio fictício: o “Prémio Bibliotecas Escolares do Coração das Crianças”.
Cada grupo avalia livros segundo critérios como originalidade, coerência narrativa, riqueza visual, emoção, humor e respeito pelo leitor. No final, elegem um vencedor e, mais importante, aprendem a justificar as suas escolhas com argumentos literários.
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Estas dinâmicas, simples e participativas, ajudam os professores a verem, ouvirem e sentirem os livros de outra forma.
Podemos falar sobre critérios e analisar listas de verificação sobre o assunto, mas com estas sugestões pretende-se que sejam os próprios docentes a construir a lista de verificação a partir da sua experiência.
Para que, nas salas de aula e nas bibliotecas, circulem livros que deixam marca e formam leitores para a vida.
por Paula Carriço (Professora Bibliotecária, AE Mouzinho da Silveira, Moita)
Há mais de 25 anos, a minha jornada como professora bibliotecária começou de forma um pouco... peculiar. Na altura, as estantes da biblioteca estavam trancadas, o acesso ao espaço era restrito, e os utilizadores, mais do que visitantes, eram quase considerados intrusos. A ideia de um "espaço vivo" parecia uma utopia distante, como se a biblioteca fosse um santuário, e nós, os bibliotecários, os guardiões das relíquias do conhecimento. Com o passar do tempo e uma boa dose de persistência (e paciência), fui quebrando as barreiras. Abri as estantes. Abri as portas. Abri a mente. Aos poucos, a biblioteca deixou de ser um local fechado, quase misterioso, para se tornar um verdadeiro ponto de encontro. Não foi fácil, claro! Por detrás de cada mudança houve reuniões, sensibilizações, conversas, mas também muitos risos e momentos de (feliz) caos. Afinal, transformar uma BE não é só mudar móveis, é mudar mentalidades. O que me motiva todos os dias é poder dar continuidade a este trabalho, é criar projetos, trabalhar novas ideias, construir novas pontes. As estantes, que antes estavam trancadas, agora estão abertas, não só fisicamente, mas também emocionalmente.
A biblioteca escolar passou a ser um espaço acessível, inclusivo e, mais importante, um lugar onde a imaginação não tem limites. O que mais me orgulha, além das estantes abertas, é o espírito de comunidade que criámos. Não há mais "portas fechadas", só a vontade de partilhar, aprender e crescer juntos. E, claro, nada substitui o cheirinho de livro novo ou a sensação de folhear páginas. Por mais que a tecnologia nos ofereça uma janela para o mundo, a biblioteca continua a ser o palco onde as histórias começam. Este ano, um dos projetos que mais me encheu de orgulho foi o "Mouzinho Aberto ao Mundo", proposta da Biblioteca Escolar e uma verdadeira celebração das múltiplas nacionalidades presentes no nosso agrupamento. O objetivo era, mais do que conhecer as várias culturas, criar um espaço de diálogo e partilha. O projeto envolveu várias disciplinas e todos os ciclos de ensino, uma verdadeira colaboração entre professores e alunos de diferentes idades e backgrounds. O resultado foi surpreendente. As turmas criaram casais de bonecos feitos em papel, utilizando a técnica dos rolinhos, representando cada um dos países existentes na nossa comunidade escolar. Foi emocionante ver cada turma não só a explorar as características culturais, mas a fazer a ponte entre a arte, a história e a identidade. Além disso, produzimos um vídeo que integrou todos os contributos das disciplinas envolvidas, um retrato visual e sonoro do que foi a diversidade cultural na nossa escola. A biblioteca, como centro de recursos e ideias, foi o lugar ideal para dar vida a este projeto.
Se há algo que aprendi nesta jornada de mais de 25 anos, é que a educação, como a biblioteca, deve ser um espaço aberto e em constante evolução. Às vezes, a chave para a transformação está apenas em deixar a porta aberta. Ou, neste caso, as estantes. Ou, ainda, abrir as portas para o mundo, como fizemos com o projeto "Mouzinho Aberto ao Mundo".
Paula Carriço Professora Bibliotecária, AE Mouzinho da Silveira, Moita
Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.
O Com Efeito, jornal do Agrupamento de Escolas Dr. Mário Sacramento, Aveiro, e o boletim “CREscendo” da Biblioteca da Escola Secundária de Sampaio venceram o Concurso Nacional de Jornais Escolares 2024/25, a iniciativa que distingue o jornalismo escolar e o trabalho de alunos e professores. Para o júri, composto por Andreia Sanches (redatora principal do PÚBLICO), Helena Soares (designer e professora), Isabel Leite (Edulog – Fundação Belmiro de Azevedo), Luísa Gonçalves (coordenadora do PÚBLICO na Escola) e Teresa Calçada (ex-comissária do Plano Nacional de Leitura), estas publicações merecem destaque na categoria A (Melhor Jornal de Agrupamento) e B (Melhor Jornal de Escola), respetivamente. São exemplos de como um jornal escolar pode ser um espaço para a voz dos alunos, num verdadeiro exercício de cidadania e liberdade, porquanto divulgam notícias da escola e da comunidade, difundem os seus temas de interesse e preocupações e expressam as suas preferências musicais, literárias, culturais.
Esta edição contou com três novos prémios: Melhor Trabalho Dinamizado pela Biblioteca Escolar, Melhor Trabalho de Promoção da Leitura e Melhor Trabalho sobre o Poder Local Democrático. O ÀS AVESSAS, jornal Escolar da Escola Secundária de Caneças (Melhor Trabalho Dinamizado pela Biblioteca Escolar), salienta-se pela apresentação de dossiers temáticos e de artigos que transmitem a reflexão dos jovens sobre assuntos da atualidade. Para além das atividades da escola, espelham-se nele um conjunto de iniciativas desenvolvidas na/com a biblioteca escolar.
No Agrupamento de Escolas D. Dinis, em Santo Tirso, a biblioteca dinamiza um dossier digital de imprensa no qual surge integrado o boletim INFORMA, cujos artigos “Sarau Queirosiano”, “Livros que inspiram uma jornada literária”, “Sarau: Consílio dos Deuses no Olimpo” e “Dia ao Contrário” mereceram a atribuição de Melhor Trabalho de Promoção da Leitura.
Em 2024-2025, 181 bibliotecas escolares envolveram 19430 alunos em atividades no âmbito do Jornal escolar. As bibliotecas escolares assumem-se, assim, como espaços de literacia mediática e cidadania, onde o jornalismo escolar floresce e inspira comunidades educativas mais críticas e participativas. O júri, na voz da sua presidente, salientou a relevância do trabalho colaborativo com a biblioteca escolar, destacando que “essa importância é visível na maioria das publicações”.
No sentido de continuar a incentivar uma prática de jornalismo escolar cada vez mais intencional e de desenvolver as competências de literacia mediática, a Rede de Bibliotecas Escolares e o Público na Escola unem-se no Projeto Da tua biblioteca ao Público, contribuindo para o fomento da liberdade de expressão, do pensamento crítico, das competências de leitura e de escrita e, em última instância, da vida democrática e cívica nas escolas.