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Blogue RBE

Seg | 15.09.25

Antologia Read On Portugal 2025: a voz dos alunos

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O projeto READ ON – Reading for Enjoyment, Achievement and Development of yOuNg people, cofinanciado pelo programa Europa Criativa, da União Europeia, nasceu para aproximar os jovens da leitura, propondo-lhes percursos criativos entre os 12 e os 19 anos. Em Portugal, o Agrupamento de Escolas Carlos Gargaté, de Almada, foi o parceiro oficial desta iniciativa europeia.

Terminado o ciclo internacional, a parceria entre a RBE e o Agrupamento de Escolas Carlos Gargaté prolonga o legado do projeto sob a designação READ ON Portugal, https://www.rbe.mec.pt/np4/READONPortugal.html  promovendo anualmente concursos de escrita criativa e banda desenhada a nível nacional, bem como a publicação de uma Antologia que reúne os contos criados pelos alunos do Ensino Secundário, em colaboração com escritores de língua portuguesa .

No ano letivo de 2024/2025, o tema lançado aos jovens autores foi “Cidadania e Interculturalidade”, desafiando-os a refletir sobre uma sociedade cada vez mais plural, onde culturas, tradições e valores coexistem e se cruzam.

Entre as interrogações propostas, que deram o mote ao trabalho a desenvolver, destacam-se:

  • Como podemos ser cidadãos num mundo que respeite o pluralismo e a diversidade cultural?

  • Que valores devemos promover para garantir a igualdade, o respeito e a inclusão, combatendo a discriminação, o racismo e a xenofobia?

  • Quais os desafios e oportunidades de viver numa sociedade globalizada?

Estas perguntas deram o mote a mais de 400 alunos de escolas do Ensino Secundário de todo o país organizados em 15 grupos, acompanhados por 15 escritores. O resultado foi a Antologia READ ON Portugal (espreite aqui).

Para se perceber o que esta Antologia contém, nada melhor do que partilhar um pequeno excerto:

Viemos de países diferentes, dizemos olá de maneiras diferentes. Mas hoje estamos todos no mesmo lugar, a tentar sobreviver ao primeiro dia de aulas. Quem é quem? Onde me sento? Quem fala comigo? Vai correr bem ou vai ser um desastre? Ninguém quer parecer perdido, mas a verdade é que todos procuramos encontrar o nosso lugar. * Привіт! Depois de umas férias bem passadas, finalmente chegou a altura de voltar às aulas. Este é o meu terceiro ano cá e, pela primeira vez, sinto que Portugal é uma segunda casa para mim. Levantei-me cheio de entusiasmo ao som do despertador, que tocava a minha playlist de eleição. Começar o dia a ouvir a bateria de Roger Taylor deixa-me sempre num bom mood. Tomei um duche rápido, vesti as minhas roupas habituais, que muitos ainda consideram extravagantes, e encarei o espelho com um sorriso. Talvez, se o meu «eu» antigo me visse agora, também o achasse estranho. Mas já aprendi que a moda é uma forma poderosa de mostrar quem somos”.

Por trás de cada texto, está um processo de partilha entre alunos e escritores. Foi isso que tornou o projeto especial para muitos:

Gostámos muito de estar envolvidos neste projeto, participando nas três sessões online com a escritora Inês Raposo. Criámos a história do nosso personagem — James Madison, um aluno que veio do Reino Unido para Portugal — dando a conhecer as suas primeiras impressões numa nova escola e o choque com uma cultura diferente.”

A experiência deu aos participantes uma nova perspetiva sobre escrever e ler:

A minha experiência na Antologia Read On abriu-me novas ideias sobre a escrita. Aprendi mais sobre o processo criativo dos escritores e percebi melhor o trabalho que está por trás de um texto.”

A proximidade com os escritores ajudou a desenvolver competências essenciais:

Trabalhar com a escritora foi uma experiência muito enriquecedora, pois aprendi lições importantes sobre como estruturar ideias, criar personagens e melhorar a linguagem.”

Neste projeto, muitos alunos experimentaram também a ilustração:

Poder ilustrar a minha história e a capa do livro deu um significado especial. Consegui mostrar, em imagem, as emoções e os lugares que imaginei.”

Escrever sobre interculturalidade exigiu pesquisa e reflexão:

Escrever sobre a multiculturalidade fez-me pensar e pesquisar mais sobre o tema. O desenho ajudou a complementar a história e a dar vida às ideias.”

Outro aspeto destacado foi o trabalho de grupo:

O trabalho colaborativo foi um espaço de partilha e ajudou-nos a perceber como as palavras podem transmitir emoções reais e diferentes realidades.”

Muitos jovens dizem que o projeto mudou a forma como veem a escrita e a leitura:

Este projeto incentiva-nos a escrever e a ler mais. É uma oportunidade de ver o nosso trabalho publicado, o que nos motiva a continuar.”

E o impacto pode durar para lá da escola:

Acredito que, depois de participar num projeto como este, muitos acabam por descobrir que gostam mesmo de escrever e continuam a criar histórias, sobre este ou outros temas.”

A Antologia Read On Portugal 2025 é o resultado destas histórias, vozes e percursos. É um ponto de encontro entre alunos, professores, escritores e bibliotecas, mostrando como a leitura e a escrita podem aproximar pessoas.

Brevemente, começa a nova edição da Antologia READ ON Portugal 2026, fica, desde já, feito o convite: junta-te a nós!

 

Nota: os testemunhos recolhidos pertencem aos alunos do 11º CT1 e LH1 do Agrupamento de Escolas Emídio Navarro, do concelho de Almada.

 

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Sex | 12.09.25

Planificar para fazer acontecer

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Planificar é fundamental. No início do ano letivo, a biblioteca escolar tem diante de si muitas ideias, vontades e projetos. É neste momento entusiasmante que parar um pouco para organizar o pensamento faz toda a diferença: perceber o que faz mais sentido, o que é prioritário, onde queremos chegar. Esse momento de planificação dá-nos clareza, ajuda a definir caminhos e garante que, ao longo do ano, sabemos para onde estamos a ir.

Por outro lado, é importante ter presente que este ponto de partida não é igual para todos nós: não será a mesma coisa ser um professor bibliotecário que dá continuidade ao trabalho de ano(s) anterior(es) ou alguém que chega agora a uma nova escola. As ações e decisões a tomar vão, naturalmente, variar consoante a experiência e o contexto de cada um.

Além disso, sobretudo se falarmos de um agrupamento de escolas com mais do que um professor bibliotecário, é necessário lembrar que este processo só é eficaz se for feito em equipa. É preciso sentar todos à mesma mesa, ouvir todas as vozes e pensar em conjunto. Cada biblioteca tem a sua identidade, os seus desafios e o seu contexto e é importante que isso seja valorizado e assumido no trabalho, mas, ao mesmo tempo, há pontos em comum que podem e devem ser reforçados e trabalhados de forma articulada.

É neste equilíbrio entre o que une e o que distingue as diferentes bibliotecas que o plano anual de atividades das bibliotecas do agrupamento ganha consistência e deixa de ser um mero documento para se tornar a bússola que nos acompanhará ao longo do ano e que vai evitar que nos percamos, dar-nos foco e até abrir espaço para experimentarmos coisas novas.

Tudo começa antes

Antes de elaborar o plano anual, há todo um trabalho silencioso, mas essencial. É preciso olhar para trás, avaliar o que resultou e ouvir a comunidade escolar. Recolher ideias e necessidades, alinhar intenções com o projeto educativo e não esquecer que é missão da biblioteca contribuir para o seu sucesso.

Muitas vezes, repetimos atividades que já fazem parte da rotina da escola e da biblioteca, porque estão enraizadas e são esperadas por todos. Mas convém perguntar: continuam a fazer sentido? Estão mesmo a contribuir para os objetivos que queremos alcançar? É nesse tempo de observação e de diálogo que encontramos pistas valiosas para decidirmos o que manter, o que ajustar e o que pode ser inovado.

Convém também recordar o Modelo de Avaliação da Biblioteca Escolar, da Rede de Bibliotecas Escolares. Conhecê-lo bem é meio caminho andado para tomar decisões mais certeiras. Os fatores críticos de sucesso funcionam como lista de verificação: que ações já temos em marcha? O que ainda precisa de ser reforçado? E que aspetos continuam por explorar?

Outro ponto essencial: o plano anual de atividades deve integrar as ações de melhoria que foram definidas na sequência da avaliação da biblioteca escolar realizada em 2024/2025. Só assim garantimos que não andamos em círculos e que o plano avança de forma sólida, alinhado com as prioridades da escola e com as orientações da Rede.

Ainda nesta fase preparatória, também é importante trazer para a conversa as prioridades definidas pela Rede de Bibliotecas Escolares para o ano letivo. Estas prioridades funcionam como linhas orientadoras que ajudam a enquadrar as escolhas e a dar sentido ao que planeamos. Ao tê-las presentes desde o início, garantimos que o trabalho da biblioteca não se faz isolado, mas em sintonia com uma visão mais ampla, partilhada a nível nacional.

Outro ponto a considerar são os resultados da avaliação externa do agrupamento ou da escola não agrupada. Compensa olhar para eles com atenção e perguntar: de que forma podemos contribuir para melhorar esses indicadores? Também no último ano tivemos a avaliação nacional da fluência leitora no final do 2.º ano de escolaridade. Conhecendo os resultados obtidos pelos alunos da escola, temos a oportunidade de nos envolvermos ativamente na implementação de um plano que ajude a corrigir fragilidades e apoiar o progresso dos alunos.

Ainda antes de passar à seleção de atividades, é útil revisitar os recursos de apoio da Rede de Bibliotecas Escolares: Aprender com a Biblioteca Escolar, o Manual Instruções para a Literacia Digital, as práticas já partilhadas por outras escolas… tudo isto pode ser fonte de inspiração e dar novas ideias para enriquecer o plano anual.

Antes de avançar, convém também rever as diferentes dinâmicas sugeridas pela Rede e pensar até que ponto fazem sentido para o nosso contexto. A oferta é vasta, por isso importa escolher com critério o que realmente acrescenta valor e vai ao encontro dos objetivos a que nos propomos atingir.

Um plano com corpo

Depois deste percurso de reflexão e preparação, chega a altura de transformar as nossas reflexões em decisões concretas. É o momento de selecionarmos e desenharmos as atividades que vão dar corpo ao plano anual, garantindo que cada proposta tem um propósito claro e está alinhada com os objetivos que respondem às prioridades da escola, da comunidade e da Rede de Bibliotecas Escolares.

O primeiro passo é definirmos objetivos bem definidos, mensuráveis e adequados ao público-alvo e ao contexto, de acordo com o que priorizámos na fase anterior. Esses objetivos devem orientar a seleção e o desenho do que vamos concretizar.

As atividades não devem surgir como uma mera listagem desarticulada. Devem ser pensadas de forma integrada, em ligação clara com os objetivos definidos e com os fatores críticos de sucesso. Isso significa que cada atividade precisa de ter uma razão de ser: contribuir para o que queremos alcançar, responder a necessidades identificadas e mostrar de forma evidente o seu impacto. Devem ser específicas, bem delimitadas e, sempre que possível, acompanhadas de uma breve descrição que explique o seu propósito, evitando generalidades como “Comemoração de efemérides” ou “Encontro com escritores”.

Devemos também pensar num programa de leitura que promova competências, gosto e hábitos, bem como um programa consistente de literacias da informação e dos media. Estas linhas estruturantes dão consistência ao plano e permitem que as atividades não se dispersem.

Sempre que possível, convém indicarmos o público concreto (anos, turmas), os responsáveis e a calendarização. Estes elementos tornam o plano mais operacional, concreto e fácil de acompanhar.

Antes de fechar

Até aqui falámos de refletir, preparar e concretizar. Mas, antes de darmos o plano por concluído, há três aspetos que não podemos deixar de acautelar.

Avaliação e acompanhamento: precisamos de pensar, desde o início, como vamos monitorizar o que está planeado. Quem acompanha? Como recolhemos evidências? Que indicadores vamos usar para perceber se estamos a avançar na direção certa?

Articulação: nenhuma biblioteca é feliz sozinha. Devemos estar ligados a todas as outras estruturas e projetos da escola, como direção, departamentos, clubes, associações de pais e parceiros locais. Só assim o nosso trabalho ganha força e relevância para toda a comunidade.

Flexibilidade: por mais que planeemos, o ano letivo traz sempre novidades, imprevistos e oportunidades. O plano anual deve ser sólido, mas também suficientemente aberto para podermos ajustar o rumo sempre que for necessário.

Ter estes três pontos presentes ajuda-nos a encarar o plano não como um documento fechado, mas como uma ferramenta dinâmica, que cresce connosco ao longo do ano.

Vitória, Vitória, acabou-se a história?

Terminado o exercício de planificação, não podemos arrumar o plano numa gaveta (submetê-lo na área de trabalho das bibliotecas escolares do portal RBE) e esquecermo-nos dele!

Ao longo do ano, é importante revisitá-lo, verificar se estamos a cumprir o que definimos e perceber se é preciso ajustar alguma coisa. O plano é um guia para o nosso trabalho diário e só faz sentido se for usado como tal. Devemos trazê-lo para as reuniões, cruzá-lo com as necessidades que vão surgindo e fazer dele uma referência constante. Só assim garantimos que a biblioteca escolar caminha de forma coerente e estratégica, sem perder de vista os objetivos a que nos propusemos.

E há ainda um último ponto: a comunicação e a partilha. Um bom plano só cumpre totalmente a sua missão se for conhecido e sentido por toda a comunidade. Devemos encontrar formas de o divulgar dentro da escola, envolver professores, alunos e pais, e dar visibilidade ao que vamos concretizando. Partilhar práticas e resultados com a Rede alargada é também uma forma de inspirar e de aprender com os outros.

E não esqueçamos: ao longo de todo este processo podemos e devemos contar com as sugestões do coordenador interconcelhio da Rede de Bibliotecas Escolares. Pedir a sua colaboração é sempre uma mais-valia, já que está disponível para acompanhar, orientar e apoiar as nossas decisões.

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Qui | 11.09.25

Utilizar cubos de perguntas para aumentar o envolvimento na leitura

por Jessica Covert*

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Esta atividade dá aos alunos a oportunidade de colaborarem, aumentando o envolvimento e aprofundando a compreensão dos textos da aula.

Há muitas razões para querermos que os nossos alunos leiam: para adquirirem novos conhecimentos, melhorarem o vocabulário, reduzirem o stress, desenvolverem empatia, etc. No entanto, fazer com que os alunos se envolvam com as leituras que lhes são atribuídas pode ser um desafio. O que podemos fazer para ajudar os alunos a envolverem-se realmente com os textos? Utilizar cubos de perguntas, que incorporam todos os benefícios da aprendizagem colaborativa é uma estratégia eficaz.

Cubos de perguntas

Quando dependemos de fichas de trabalho, os alunos muitas vezes concentram-se mais em escreverem as respostas do que em envolverem-se verdadeiramente na leitura. Para alguns alunos, as fichas de trabalho podem parecer repetitivas e enfadonhas. Além disso, as respostas a muitas das nossas fichas de trabalho pré-elaboradas já estão online e são facilmente acessíveis aos alunos que querem uma boa nota, mas que talvez queiram evitar o trabalho exigente que é necessário para lidar com um texto complexo.

Tal como as fichas de trabalho, os cubos de perguntas utilizam conjuntos de perguntas pré-elaboradas, mas conduzem a um tipo de envolvimento muito diferente. A leitura parece ser uma atividade tão solitária que incorporar estratégias de aprendizagem colaborativa, como a utilização de cubos de perguntas, pode parecer contraintuitivo. No entanto, a investigação tem demonstrado repetidamente o valor das interações com outras pessoas no empenho dos alunos.

A aprendizagem colaborativa aumenta as competências sociais, promove a criatividade, desenvolve competências de pensamento de nível superior e, em geral, contribui para uma melhor experiência de aprendizagem, o que, por sua vez, conduz a uma aprendizagem profunda. Teóricos da educação como Lev Vygotsky, com o seu modelo de aprendizagem social, e Maria Montessori, com o seu foco na aprendizagem centrada na criança e na brincadeira colaborativa, compreenderam a importância da interação social na aprendizagem. Teóricos contemporâneos como John Hattie e Robert Marzano continuam a apoiar estas conclusões.

Sugestões de escrita para cubos de perguntas: Ao fazer cubos de perguntas, costumo usar perguntas que incluem uma combinação dos níveis da Taxonomia de Bloom. Por exemplo, num curso de inglês, essas perguntas poderiam pedir aos alunos que identificassem temas ao longo do texto, analisassem o seu desenvolvimento durante o curso do texto e tirassem conclusões, citando evidências relevantes para apoiar as respostas. Em cursos de ciências ou estudos sociais, essas perguntas podem pedir aos alunos que se lembrem de detalhes específicos, discutam o impacto global ou identifiquem implicações para pesquisas futuras.

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Modelo para cubos, com exemplos de perguntas.

Construção dos cubos: Prefiro fazer os meus cubos em cartolina, mas não é necessário; papel de impressora também funciona bem. Também me certifico de copiar cada conjunto de perguntas numa cor diferente de papel, codificando cada um por cor. Depois de copiar os cubos, recorto, dobro e colo cada um com fita adesiva. Embora os alunos possam construir os seus próprios cubos, descobri que mesmo alguns alunos do ensino secundário têm dificuldade com essa tarefa, o que pode ser problemático se não houver cópias de reserva. Distribuo um cubo aleatoriamente a cada aluno. Os alunos formam grupos, em que cada grupo tem um de cada conjunto de perguntas; dessa forma, cada grupo tem acesso a todas as perguntas.

Usar os cubos

Os alunos revezam-se a lançar os cubos para revelar as perguntas a que o grupo irá responder. Normalmente digo aos meus alunos que o aluno mais velho lança primeiro. Às vezes, mudo isso e designo o aluno mais novo, mais alto ou mais baixo. Depois de um aluno lançar o cubo, lê a pergunta e inicia a discussão. Durante essas discussões, todos os membros do grupo devem chegar a um acordo unânime antes de registar a resposta. Isso promove a colaboração e garante que cada um dos participantes se sente confortável com a resposta final.

As discussões devem ser longas o suficiente para permitirem a participação de todos, mas concisas o quanto baste para manterem a atividade em andamento de forma satisfatória. Além disso, o grupo deverá designar um secretário para anotar a resposta final acordada. Sou da velha guarda; peço sempre aos alunos que respondam às perguntas dos cubos em papel. Descobri que, quando permito que usem o Google Docs, eles simplesmente dividem o número de respostas necessárias entre si e digitam as respostas num único documento, sem chegarem a uma resposta coletiva para cada pergunta, o que contraria o objetivo da atividade. Também peço aos alunos que usem o modelo CER (Claim, Evidence, Reasoning — Afirmação, Evidência, Raciocínio) para responderem a cada pergunta.

Dependendo de muitos fatores, como o tempo disponível para a aula, a dificuldade do texto e a dinâmica da turma, decido a quantas perguntas os grupos têm de responder. Raramente são todas as perguntas dos cubos, por isso nem todos os grupos respondem a todas as questões. Assim, gosto de fazer um balanço com uma discussão em sala de aula sobre todas as perguntas. Isso cria uma espécie de atividade aleatória em que alguns grupos se tornam especialistas em algumas das perguntas e outros grupos dependem desses novos especialistas para encontrarem informações e perceções.

Também recebo comentários positivos dos alunos sobre esta atividade. Um aluno disse: «É uma maneira divertida de responder às perguntas», e outro afirmou: «É melhor do que quando se apresentam as perguntas no quadro». Também ouvi: «Gosto que nos deixe trabalhar com outras pessoas da turma».

A verdadeira questão, porém, é se os cubos de perguntas melhoram a compreensão do texto pelos meus alunos. Quando lhes perguntei sobre isso, alguns disseram: «Deu-me uma melhor compreensão das inferências que devo fazer” e “Ajudou-me a compreender a leitura porque a dividiu ainda mais e a tornou muito mais compreensível”. Outro aluno disse que os cubos «me fizeram pensar no texto e usar pistas contextuais para compreender um pouco melhor a história». No geral, a atividade cria mais envolvimento dos alunos e também os ajuda a saírem do texto com uma melhor compreensão do mesmo.

Os cubos de perguntas permitem que os alunos discutam o texto em grupos menores, dando a todos a oportunidade de partilharem as suas ideias, desenvolverem estratégias de colaboração e comunicação e praticarem as suas competências de análise. Além disso, os cubos de perguntas incentivam respostas dos alunos que aprofundam a compreensão do texto, garantem a equidade e a voz dos alunos e expandem a sua capacidade de assumirem riscos académicos, promovendo deste modo um envolvimento e uma aprendizagem mais profundos.

 

O texto deste artigo foi traduzido e publicado com a autorização da Edutopia:

Referência

Covert, J. (2024, 17 de outubro). Using Question Cubes to Boost Reading Engagement. Edutopia. https://www.edutopia.org/article/ela-engagement-strategies 

📷 Imagem produzida com recurso a ChatGPT

 

* Jessica Covert

Obteve o seu mestrado em Inglês pela Agnes Scott College, em Decatur, Geórgia. Pouco depois de iniciar a sua carreira de professora, obteve a certificação para lecionar a alunos superdotados e, mais tarde, tornou-se Professora Certificada pelo Conselho Nacional. Começou a lecionar Inglês para o sexto ano em 2005 e já lecionou para várias disciplinas, incluindo Introdução ao Sucesso Universitário e Comunicação Empresarial, a nível universitário. Desempenhou funções como líder de equipa (ensino básico) e chefe de departamento (ensino secundário). Atualmente, Jessica leciona Inglês III, Redação Criativa e Língua e Composição AP na Conner High School, em Hebron, Kentucky.

 

Nota: © Excecionalmente, por se tratar de uma tradução que careceu de autorização, este trabalho tem todos os direitos reservados.

 

 

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Qua | 10.09.25

Jornal Escolar celebra Camões…

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… e une toda a comunidade educativa

A Biblioteca Escolar da Escola Secundária João de Deus coordenou, ao longo deste ano letivo, a criação da 79ª edição do Jornal Escolar Preto no Branco, num projeto colaborativo que envolveu alunos e professores de vários ciclos e anos de ensino.

«500 anos com Camões» foi o tema aglutinador que guiou este trabalho colaborativo, proporcionando aos alunos uma oportunidade única para (re)descobrirem o autor de Os Lusíadas e para se apropriarem do seu legado de forma original e significativa. Através de abordagens diferenciadas, adaptadas aos diversos níveis de ensino, o jornal foi sendo construído ao longo dos trimestres, refletindo o olhar plural dos alunos sobre a figura de Camões e a sua relevância na atualidade.

Desde o 3.º ciclo ao ensino secundário, os alunos aderiram com entusiasmo, curiosidade e grande envolvimento, participando ativamente na elaboração de textos informativos, ilustrações, entrevistas, jogos linguísticos, reflexões filosóficas, artigos de opinião e até cartas. O jornal revela não só o conhecimento adquirido, mas também a criatividade e a sensibilidade dos nossos jovens, que encontraram em Camões um ponto de partida para múltiplas formas de expressão.

O trabalho contou com o contributo de professores de Português, História, Artes, Ciências, TIC, entre outros, demonstrando o potencial de articulação interdisciplinar e o papel dinamizador da Biblioteca Escolar na promoção de projetos integradores. A construção do jornal foi também uma oportunidade para desenvolver competências de literacia da informação e dos média, bem como para fomentar o gosto pela escrita, a valorização da língua portuguesa e o espírito crítico.

Este projeto revelou, mais uma vez, o papel central da Biblioteca Escolar enquanto motor de aprendizagens significativas, articulação curricular e uma cultura de escola viva, criativa e comprometida com o saber.

A versão digital do jornal está disponível no site do Agrupamento  e pode também ser lida em formato e-book, convidando toda a comunidade a (re)descobrir Camões pela voz dos seus mais jovens leitores.

 

Referências:

Foto da 1.ª página: "Imagem de retrato de Camões, desenho a pena e mancha a tinta-da-china, por Almada Negreiros em 1934, com a assinatura “almada 34”

Portugal, Torre do Tombo, Diário da Manhã e Época, Positivos, PT. 1194, doc. 002

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Ter | 09.09.25

Semana da Aprendizagem Digital 2025: Apresentação do tema

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Apresentação do tema da Semana da Aprendizagem Digital 2025 (2 a 5 de setembro)

Lançada em 2023, a Semana da Aprendizagem Digital é o principal evento anual da UNESCO sobre aprendizagem digital e a transformação da educação. “A inovação digital demonstrou poderes para complementar, enriquecer e transformar a educação e tem o potencial de acelerar o progresso em direção ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 para a educação e transformar os modos de fornecimento de acesso universal à aprendizagem” [2]. 

Este ano a Semana da Aprendizagem Digital tem por tema IA e o futuro da educação: Disrupções, dilemas e orientações

De acordo com a Nota Concetual, disponível na página do evento: 

🔸Disrupções porque, apesar de “ainda não existirem provas sólidas que sustentem” a ampla gama de pontos de vista sobre a importância da IA na educação, há quem defenda que a IA transforma “todo o sistema, reestruturando pedagogias, currículos, avaliação, gestão e governança” em educação. Paralelamente, também há quem questione este papel disruptivo, de rutura, afirmando estar desalinhado com a realidade. 

Neste contexto, a UNESCO propõe uma “reflexão crítica: Como é que a IA se cruza com a educação em diferentes contextos sociais, culturais e econômicos? Quem beneficia com a sua expansão, e quem é que é deixado para trás?” quando, de acordo com dados da conferência, 1,3 biliões de crianças, até aos 17 anos, não tem acesso à internet. 

Estas questões - e a questão da finalidade, IA na educação para quê? - colocam-se quando nem as próprias empresas fornecedoras de IA conseguem apresentar evidências de sucesso nos resultados de aprendizagem dos alunos, conforme afirmação de especialistas neste encontro.

🔸Dilemas, éticos e pedagógicos, porque “As ferramentas de IA são frequentemente apresentadas como soluções para lacunas de aprendizagem, oferecendo personalização e automatização."

Contudo, também "introduzem novas formas de desigualdade, vigilância digital e vieses sistémicos, levantando preocupações sobre o risco de dependência excessiva dessas ferramentas, o que poderia reduzir os aspetos humanos e relacionais essenciais do ensino”. 

Integrar a IA nas escolas pode “desviar a atenção e os recursos de necessidades educacionais mais prementes”, atrasando, ainda mais, os progressos dos alunos nas aprendizagens. 

Contudo, a introdução crescente de IA no trabalho, pressiona a educação para a convivência e entreajuda entre pessoas e máquinas, sendo imprescindível recuperar e fortalecer a agência humana – segundo a UNESCO, o uso de IA deve ser sempre centrado no humano e deve traduzir-se em práticas educativas digitais inclusivas, justas e sustentáveis

🔸Orientações porque “Reimaginar o futuro da educação com IA exige recalibrar orientações decisivas em política, pedagogia, infraestrutura e governança para garantir que a IA promova equidade de aprendizagem, incorpore a ética no desenho e privilegie a agência humana. À medida que os sistemas de IA se tornam mais avançados, autónomos e extrativos, moldar a sua trajetória é, não só uma necessidade, mas uma responsabilidade social coletiva”.

Devemos adaptar a IA à educação que necessitamos e desejamos e não o inverso. 

A educação é um bem e um esforço publico e global, que exige que “líderes, estudantes e professores capacitados em IA, sejam capazes não apenas de utilizá-la com responsabilidade, mas também de participar da criação de normas, políticas e programas de pesquisa que venham reger seu uso ético dentro e fora da educação”.

A Semana da Aprendizagem Digital 2025 foi palco de encontros entre ministros da educação, estudantes, professores, académicos, sociedade civil e empresas de mais de 60 países, conectando um leque diversificado de vozes, setores e perspetivas.  

Realizando-se presencialmente na sede da UNESCO, em Paris, e com sessões plenárias online, algumas das quais ainda podemos assistir, o evento assume-se como “uma plataforma para reimaginação coletiva” sobre “as interseções entre tecnologia e o futuro da educação”, na sequência do relatório da UNESCO de 2021, Reimaginar juntos o nosso futuro: Um novo contrato social para a educação.

Referências

  1. Fonte da imagem: UNESCO. (2025, September 2-5). Digital Learning Week 2025. https://www.unesco.org/en/weeks/digital-learning
  2. UNESCO. (2025). Digital learning and transformation of education. https://www.unesco.org/en/digital-education?hub=83250

Este artigo terá continuação.

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Seg | 08.09.25

Renovar compromissos para enfrentar novos desafios

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Manifesto da IFLA-UNESCO 2025 para as Bibliotecas Escolares

A Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (International Federation of Library Associations and Institutions – IFLA) tem-se afirmado, desde a sua fundação em 1927, como a mais influente organização mundial no domínio das bibliotecas, da ciência da informação e dos serviços de documentação. Ao longo das últimas décadas, a sua ação, em estreita articulação com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), tem-se traduzido na formulação de manifestos e declarações que constituem marcos de referência incontornáveis. 

A publicação, em junho de 2025, do novo Manifesto para as Bibliotecas Escolares representa um momento de particular relevância, quer pela atualização que introduz face ao texto de 1999, quer pelo enquadramento que oferece num tempo em que as transformações digitais, as tecnologias emergentes e as mudanças sociais e culturais colocam novos desafios à educação. Este documento apresenta-se, pois, como um guia de ação, reiterando princípios e compromissos com a equidade, a liberdade intelectual e o acesso universal à informação, ao mesmo tempo que reconhece a centralidade da biblioteca escolar como espaço de inovação pedagógica e de formação de cidadãos globais.

Um novo Manifesto para novos tempos

O Manifesto da IFLA-UNESCO de 2025 inscreve-se numa tradição que remonta a 1999, quando foi publicado o primeiro texto orientador, aprovado pela UNESCO e amplamente divulgado pela Rede de Bibliotecas Escolares (RBE). Ambos os documentos partilham princípios estruturantes, porém o mais recente evidencia mudanças que refletem os desafios de uma sociedade profundamente transformada em pouco mais de duas décadas.

Em 1999, sublinhava-se a importância de fomentar a literacia da informação e o gosto pela leitura numa sociedade em transição para o digital. Passadas mais de duas décadas, o Manifesto de 2025 descreve um ecossistema informacional em permanente mutação, no qual a biblioteca escolar deve garantir acesso físico e virtual, curadoria em múltiplos formatos e mediação crítica face às tecnologias emergentes, incluindo a inteligência artificial (IA). Por isso, o novo texto vai além da ênfase inicial, ao colocar a biblioteca no centro do desenvolvimento de literacias múltiplas (informacional, digital, mediática e em IA), fundamentais para a formação de cidadãos críticos, criativos e responsáveis.

O papel do professor bibliotecário também é redefinido. Em 1999, destacava-se a sua responsabilidade pela gestão da biblioteca e apoio pedagógico; em 2025,  afirma-se como líder educativo e especialista em informação, com intervenção no codesenho de experiências de aprendizagem, no desenvolvimento profissional docente e na articulação com redes locais e internacionais.

Ademais, a centralidade da biblioteca na estratégia da escola surge agora mais vincada: se em 1999 se destacava o seu papel de apoio ao currículo, o Manifesto de 2025 evidencia a sua função transversal, que deve ser explicitada nos documentos institucionais e assumida pela gestão escolar. Outro avanço significativo é a integração da biblioteca na estratégia da escola.

O princípio da igualdade de acesso, já presente em 1999, é agora considerado do ponto de vista da equidade: não basta oferecer serviços iguais a todos, é necessário adotar medidas específicas para responder às necessidades de diferentes públicos, garantindo inclusão plena.

Também no plano político e financeiro se regista um reforço: de um apelo à existência de meios adequados em 1999, passa-se, em 2025, à exigência de apoio legislativo, político e financeiro sustentado, que assegure recursos, tecnologias, profissionais qualificados e formação contínua, reconhecendo a biblioteca escolar como pilar das estratégias educativas e culturais.

Finalmente, a leitura, núcleo identitário das bibliotecas, é reinterpretada. O manifesto anterior valorizava a criação do hábito e do prazer de ler; o de 2025 propõe práticas diversificadas  (leitura recreativa, em voz alta, partilhada, voluntária), colocando a experiência leitora ao serviço da imaginação, do conhecimento e da cidadania.

Em síntese, a mais recente versão do Manifesto amplia e atualiza o legado de 1999, respondendo às exigências de um presente em que a biblioteca escolar é, simultaneamente, espaço de tradição e de inovação, de preservação da memória e de abertura ao futuro.

Do global ao local: o Manifesto e a Rede de Bibliotecas Escolares

Em Portugal, a publicação do Manifesto de 2025 encontra terreno fértil. A Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) é membro oficial da IFLA desde 2022, reforçando a sua inserção nas dinâmicas internacionais e beneficiando da proximidade aos debates globais sobre o futuro das bibliotecas. Este vínculo confere à RBE uma dupla valência: a afirmação de uma rede nacional consolidada, com quase três décadas de experiência, e a integração numa comunidade internacional que partilha valores e estratégias comuns. 

De facto, muitos dos princípios reafirmados no novo Manifesto já estão presentes nos documentos orientadores da RBE: a aposta na literacia da leitura, da informação e dos media; a valorização do professor bibliotecário como mediador cultural e pedagógico; a integração da biblioteca na estratégia educativa das escolas; e a defesa do direito de todos os alunos a serviços de qualidade em condições de equidade. 

Ao garantirem acesso equitativo à informação, à cultura e às tecnologias, as bibliotecas escolares afirmam-se como instrumentos decisivos para a concretização do ODS 4, promovendo uma educação inclusiva, de qualidade e orientada para a aprendizagem ao longo da vida.

Este alinhamento traduz-se em práticas concretas: incorporação de tecnologias digitais nas práticas pedagógica, trabalho em rede com bibliotecas públicas e municipais, promoção da leitura em múltiplas modalidades e atenção à diversidade cultural e social. 

Assim, o Manifesto não só oferece enquadramento global como reforça, também, a legitimidade das políticas seguidas em Portugal no que às bibliotecas escolares diz respeito, sublinhando a importância de sustentar o seu trabalhocom financiamento adequado, formação contínua e reconhecimento institucional.

Um Manifesto que convoca

Em suma, o Manifesto da IFLA-UNESCO de 2025 sublinha que a biblioteca escolar não é somente um espaço físico com recursos, mas uma visão de futuro alicerçada no acesso equitativo à informação, na promoção da leitura e no desenvolvimento das literacias como direitos fundamentais de todas as crianças e jovens.

Em Portugal, a RBE tem concretizado esta visão em práticas consistentes. O novo Manifesto surge, assim, como atualização e reforço desses princípios, projetando novos horizontes e responsabilidades. Mais do que um texto normativo, o documento da UNESCO constitui uma convocação para consolidar compromissos e para uma integração plena da biblioteca escolar na estratégia educativa das instituições.

Enquanto guia de ação, o Manifesto interpela decisores políticos, direções escolares e profissionais da educação a criarem condições que assegurem à biblioteca escolar o seu papel estruturante na qualidade educativa. Portanto, a relevância da biblioteca estende-se para além do campo biblioteconómico, sendo fundamental no modelo de sociedade que se pretende construir: mais crítica, mais informada e mais democrática.

Em síntese, o Manifesto de 2025 deve ser entendido como texto fundador e mobilizador, capaz de orientar políticas e inspirar práticas, projetando a biblioteca escolar como lugar insubstituível de literacia, cidadania e futuro.


Referências

  1. Federação Internacional de Associações de Bibliotecários e de Bibliotecas. (1999). Manifesto da biblioteca escolar (Tradução do Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares). Ministério da Educação. https://www.rbe.mec.pt/np4/%7B$clientServletPath%7D/?newsId=3278&fileName=Manifesto para_a_Biblioteca_Escolar.pdf
  2. Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias & UNESCO (2025, 4 de junho). Manifesto da biblioteca escolar da IFLA-UNESCO 2025 [PDF]. International Federation of Library Associations and Institutions. https://repository.ifla.org/items/c9f90a1b-dcb7-4c16-a11c-30b53b7b333d (Tradução do Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares, Ministério da Educação, Ciência e Inovação).
  3. Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias & UNESCO (2025).  Manifesto da biblioteca escolar da IFLA-UNESCO 2025 [PDF]. International Federation of Library Associations and Institutions. https://www.rbe.mec.pt/np4/%7B$clientServletPath%7D/?newsId=3278&fileName=IFLA_School_Library_Manifesto_2025_poste1.pdf (Tradução do Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares, Ministério da Educação, Ciência e Inovação).
  4. Fundação Biblioteca Nacional. (2024, 1 de outubro). IFLA - PAC (Centros de Preservação e Conservação). Diretório de Preservação - Internacional. https://www.gov.br/bn/pt-br/atuacao/processamento-e-preservacao/diretorio-de-preservacao-pasta/internacional/ifla-pac-lac
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Sex | 05.09.25

Leitura a par: quando um Voluntário e um livro fazem a diferença

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A leitura a par é o centro da ação dos Voluntários de Leitura. Para além de uma técnica, é um espaço de encontro entre o aluno, o livro e o voluntário, com efeitos reais na fluência, compreensão e gosto pela leitura. Este texto destaca o valor desta prática e sugere caminhos para o seu reforço nas bibliotecas escolares.

A leitura a par é, cada vez mais, o coração do projeto Voluntários de Leitura. Longe de fórmulas rígidas ou métodos formais, trata-se de uma prática simples, próxima e poderosa: um voluntário partilha a leitura com uma criança, ao seu ritmo, com atenção e escuta. E é nesse espaço seguro, feito de palavras e presença, que muitas vezes se abrem portas para o gosto de ler, para a confiança e para o progresso.

Os dados recolhidos na edição 2024/2025 do projeto mostram que a leitura a par tem um impacto concreto nas competências dos alunos. Melhora a fluência, ajuda na compreensão, fortalece a confiança na leitura em voz alta e, sobretudo, aproxima os alunos dos livros. Voluntários, professores e bibliotecários concordam: é neste formato individual ou em pequenos grupos que se constrói uma relação mais significativa com a leitura.

Para que este momento seja realmente transformador, não é preciso seguir regras complicadas. O essencial é a consistência, a empatia e uma boa escolha de textos. Histórias curtas, envolventes, com linguagem acessível e imagens apelativas fazem toda a diferença. E também a forma como se lê: devagar, com expressividade, com tempo para conversar, para repetir, para imaginar.

Para que esta experiência resulte, há práticas que têm mostrado ser especialmente eficazes no contexto da leitura a par.

Durante as sessões:

  • Permitir ao aluno a escolha do livro ou a releitura de histórias anteriores;
  • Adaptar o ritmo da sessão ao aluno, aceitando silêncios e hesitações como parte do processo;
  • Optar por livros curtos e explorar imagens, personagens e perguntas simples;
  • Promover a releitura expressiva com entoação e ritmo adequados.

Atitudes e relações:

  • Criar um ambiente empático, com escuta ativa e valorização dos progressos;
  • Ser consistente na presença e pontualidade;
  • Se o aluno estiver distraído ou irrequieto: Parar | Retomar a atenção | Reiniciar;
  • Encerrar a sessão, se necessário, com um jogo verbal ou conversa leve, mantendo o vínculo.

Registo e partilha:

  • Fazer anotações breves sobre cada sessão (o que funcionou, o que ajustar);
  • Participar, sempre que possível, em momentos de partilha com outros voluntários.

O papel do professor bibliotecário é determinante neste processo, não para estar sempre presente, mas para garantir condições, orientar o início e acompanhar de forma leve, com sugestões, apoio logístico e articulação com os docentes. Quando o programa é integrado no plano de ação da biblioteca, ganha visibilidade e torna-se mais fácil de manter ao longo do ano.

Esse papel pode assumir formas muito simples, mas com grande impacto, sobretudo quando pensado de forma articulada com o que se passa na escola.

Integração no plano de ação da biblioteca:

  • Incluir a leitura a par como atividade sistemática, com horários definidos e registos de progresso;
  • Criar oportunidades de partilha e avaliação em momentos chave do ano letivo.

Planeamento e articulação:

  • Definir, com os docentes, critérios claros de seleção dos alunos;
  • Reunir com voluntários e professores titulares no início do ano para alinhar objetivos e rotinas.

Organização do espaço:

  • Escolher um local calmo e acolhedor, com o mínimo de interrupções e distrações;
  • Garantir conforto, boa iluminação e algum grau de privacidade;

Apoio continuado aos voluntários:

  • Apoiar na escolha de livros adequados;
  • Sugerir estratégias simples de mediação;
  • Estar disponível para escuta e acompanhamento informal ao longo do ano.

A leitura a par não exige grandes recursos, mas exige intenção. É um investimento nas relações e na formação leitora das crianças. Uma prática discreta, mas com efeitos profundos.

Ler a par é fazer da leitura um lugar partilhado.

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Qui | 04.09.25

Doze casas para Camões

Blogue (5).pngA figura de Luís de Camões permanece viva na memória literária e cultural portuguesa. Quando o génio da palavra se encontra com a imaginação dos jovens leitores e criadores, o clássico renasce e ganha novas formas, sons e sentidos.

Foi precisamente isso que aconteceu no projeto A Casa de Camões, desenvolvido pela Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas Piedade Matoso, de Aljezur, em articulação com os departamentos de Português, História, Educação Visual e Expressões.

Trata-se de um percurso artístico e digital, no qual Camões habita uma casa com doze divisões poéticas, onde vivem famílias criadas a partir da leitura, da sensibilidade e da escrita dos alunos. Um projeto que cruza literatura, música, ilustração, tecnologias digitais e participação ativa, refletindo a missão da biblioteca escolar como lugar de cultura, aprendizagem e expressão.

Doze casas, doze formas de ser poesia

Nesta casa camoniana imaginada e construída em colaboração criativa, cada “família” representa uma identidade poética e simbólica:

Família Doçura –  versos com ternura; Família Régua & Esquadro – a matemática do soneto; Família Riso Forte – humor com rima e crítica; Família Patavina – vozes animais com alma poética; Família Lupa – citação e sabedoria; Família da Sombra – o que se sente sem se dizer; Família Folha Solta –  resistência que se escreve; Família Abraço Livre – o amor em todas as formas; Família Brincadeira – jogos de palavras com coração; Família Essência – o minimalismo poético; Família Verde Luz – natureza, luz e amizade; Família Selvagem – liberdade criativa sem amarras.

A cada uma está associado um poemário, um videodisco e um áudio-disco, formando um universo multissensorial, literário e emocionalmente expressivo, disponível para descoberta.

Criar, ler, cantar, votar: um percurso pedagógico com propósito

A Casa de Camões foi um processo educativo colaborativo. Envolveu 208 alunos dos 2.º e 3.º ciclos e do pré-escolar, em articulação curricular. Destacam-se:

  • Sessões de leitura orientada da obra camoniana em diferentes níveis de ensino;
  • 80 retratos criativos de Camões, desenhados pelos alunos do 7.º, 8.º e 9.º anos, no âmbito da disciplina de Educação Visual;
  • Escrita de letras originais, baseadas na obra de Camões e organizadas por “famílias poéticas”;
  • Produção de um vídeo promocional, com guião e narração a cargo dos alunos do 9.º ano;
  • Gravação de um LP com 12 músicas originais, compostas e produzidas com o apoio do professor bibliotecário, e a serem regravadas com as vozes dos alunos;
  • Exposição interativa (em formato físico e digital), com convites à escrita e e interpretação visual;
  • Votação democrática, onde a comunidade escolar elegeu os retratos mais inspiradores.

Criatividade com ferramentas: um laboratório digital e artístico

O projeto mobilizou um ecossistema de criação pedagógica e tecnológica, com destaque para: Design e imagem: Canva, Procreate, DALL·E e banco de imagens da RBE; sica: Guitarra, piano, MIDI e IA (AIVA); edição em Audacity; Voz: microfone RØDE NT1 e interface Focusrite Scarlett; Referência pedagógica: recursos da página “Camões – Recursos para Celebrar” da RBE;Inspiração em práticas de escrita criativa, jogos poéticos e releituras simbólicas.

Camões como ponto de encontro entre gerações e linguagens

A Casa de Camões é um manifesto criativo e educativo, onde os alunos não apenas leem, mas dialogam com Camões, recriando-o com a sua voz, arte e emoção.

O projeto A Casa de Camões” é um exemplo de como a biblioteca escolar pode ser catalisadora de experiências significativas de leitura, criação e cidadania cultural, capaz de transformar a leitura num ato coletivo de criação, identidade e liberdade.

Aceda ao recurso interativo: A Casa de Camões – Genially

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Qua | 03.09.25

Porque lemos? 

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Porque lemos: setenta escritores sobre a não ficção, editado por Josephine Greywoode [1], é uma antologia de 70 ensaios breves de autores contemporâneos que oferecem uma perspetiva singular, rica e complexa sobre o ato de ler, explorando as razões pelas quais lemos, de que modo lemos, o valor da não ficção e a fluidez da sua fronteira com a ficção.

Este é o terceiro de uma série de 3 artigos sobre o livro e destaca os ensaios de Niall Ferguson, Gerd Gigerenzer e Rana Mitter. 

Niall Ferguson, historiador, professor na Universidade de Harvard e comentador político, partindo da analogia  com o filme Matrix - no qual a realidade percebida pelos humanos é simulada por computador (Matrix) - considera que “é a literatura que é a simulação. Lemos tanto ficção como não-ficção para experimentar imaginativamente vidas diferentes da nossa. Esta experiência interior - a nossa participação na simulação - melhora as nossas vidas, que de outra forma seriam monótonas e repetitivas”.

Formas modernas de entretenimento, como o cinema, a televisão, os videojogos e o metaverso da realidade virtual e aumentada são “formas de entretenimento que exigem menos esforço imaginativo” e cognitivo e, por isso, 

“são inferiores à leitura. […] Claro que se gasta menos energia a ser transportado numa liteira do que a andar ou correr, mas há uma razão — para além do aumento de peso — pela qual incentivamos as nossas crianças a usarem as suas próprias pernas. A literatura é, então, a simulação: a verdadeira e insuperável ‘experiência imersiva’” que “proporciona um aumento da realidade”. 

Destaca “outra razão para ler, que é a forma como a simulação permanece na memória, moldando e enriquecendo todos os nossos encontros futuros com a realidade”, influenciando a forma como o leitor compreende e interage com o mundo, tendo efeitos duradouros. 

Conclui, “é quase certo que não vivemos numa simulação informática. Mas podemos, se assim quisermos, viver numa simulação literária. Eu escolhi fazê-lo há muito tempo. E espero, sinceramente, morrer a ler”.

 

O ensaio de Gerd Gigerenzer, psicólogo e professor universitário alemão, é uma valorização da leitura em voz alta, que sempre existiu, durante milénios “ler significava ler para outra pessoa”. Compara-a à experiência atual dos audiolivros, mas com outra(s) pessoa(s). 

São muitas as virtudes da leitura em voz alta:

 

  • Fomenta a aprendizagem da linguagem;

 

  • Reforça os laços sociais entre quem escuta e quem lê;

 

 

  • Ajuda a compreender e a fixar na memória. 

“As pessoas parecem intuitivamente ter consciência deste efeito positivo. Por exemplo, quando é difícil compreender uma receita ou instrução, espontaneamente começam a lê-la em voz alta para facilitar a compreensão”. 

Este psicólogo que valoriza o uso de heurísticas (regras simples) como ferramentas cognitivas inteligentes que podem ajudar a tomar boas decisões, considera que em situações de risco (dentro do avião, numa mesa de operações…) ter uma checklist que possa ser lida em voz alta ajuda a manter o controlo e a segurança. 

A leitura silenciosa e privada está associada a "técnicas de leitura rápida que incorporam o valor do 'quanto mais rápido, melhor', o que é estranho à leitura em voz alta, mas passar por vinte a trinta palavras por segundo não permite realmente a mesma compreensão que ao ler a um ritmo normal". A lentidão da leitura em voz alta aprofunda as capacidades de entendimento e memorização do texto lido

Gigerenzer destaca ainda a confiança como “uma componente essencial da leitura”.  Na era digital e da desinformação é importante determinar se podemos confiar no autor/fonte e isso exige educação/formação e desenvolvimento de competências. Neste âmbito, identifica um problema geral: os autores não “fazerem o esforço de ler as fontes originais”, baseando-se no que os outros escreveram ou em boatos, o que gera perda de rigor. “Passar de boca em boca não é o mesmo que ler em voz alta, apesar de parecer suscitar níveis de confiança semelhantes sobre a fonte”.  

Gigerenzer estabelece uma ligação direta entre os níveis de leitura e de democracia: 

"Ler de forma ampla e contínua é um bom antídoto contra ser induzido em erro por uma única fonte incorreta e é a condição sine qua non para uma democracia funcional. Cultiva cidadãos com espírito crítico, capazes de argumentar e de enfrentar as autoridades. Nesse sentido, a leitura extensiva é uma obrigação — até mesmo um dever moral."

No mundo interdependente atual, a leitura ampla e variada expande o repertório do indivíduo (linguístico, cognitivo, experiencial…) e é um imperativo ético, uma responsabilidade moral que cabe a cada um exercer para que: 

  • Circulem livremente múltiplas perspetivas, argumentos e autores;
  • Se analisem criticamente fontes e autoridades, evitando censura, manipulação e desinformação;
  • Cresça a participação e o compromisso com a vida pública.

Rana Mitter, de ascendência indiana, é um dos grandes especialistas britânicos de História e Política da República Popular da China. 

Reconhece que o digital facilita o acesso, mas também a censura de informação. 

"A censura tem sido usada por todos os regimes chineses, mas na última década ou duas, muitos livros que registaram aspetos problemáticos do passado surgiram e depois desapareceram das prateleiras na China." 

Aspetos problemáticos ou sensíveis são as táticas coercivas, por vezes ilegais, de vigilância e intimidação dos líderes de oposição, levadas a cabo pelo Partido Comunista Chinês.

Defendendo o direito à liberdade de informação e expressão, Mitter considera que “Lemos porque queremos adquirir conhecimento e formar julgamentos enquanto o material está disponível”. 

Pode gostar de ler 

 

Porque lemos?

 

 

 

Porque lemos?

 

 

Referência

Greywoode, Josephine (Ed.). (2002). Why We Read: Seventy Writers on Non-Fiction. Penguin Books Ltd. https://cdn.penguin.co.uk/dam-assets/books/9781802060959/9781802060959-sample.pdf












Segundo Peter Hennessy, historiador e académico inglês, “Curiosidade, literacia e memória é o que distingue a nossa espécie das outras. Ler é a atividade suprema que as alimenta – o maior acumulador de capital humano.” A leitura liga-nos a um mundo partilhado. 

 

Interesse/Curiosidade, iluminação (estímulo mental), inspiração, imaginação, educação, avaliação e relaxamento são as principais razões que Ian Kershaw identifica para ler. 

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Ter | 02.09.25

A promessa quebrada de um bibliotecário convicto (num tom heroico e irónico)

por João Alves dos Reis, professor bibliotecário do AE de Argoncilhe, Santa Maria da Feira

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 Tenho anos suficientes para me recordar da Feira Popular de Lisboa. Ah, a Feira Popular… um universo de luzes e carrosséis, cheiros a farturas e algodão doce e aquela promessa infantil, selada com um nó na garganta e olhos arregalados, depois da primeira e aterradora viagem na montanha russa: "Nunca mais!". Prometi-me, como só uma criança ingénua e traumatizada o faz, que jamais me submeteria a semelhante tortura. E durante anos cumpri essa promessa. Mal sabia eu, naquele longínquo início dos anos 80, enquanto membro orgulhoso de um Rancho Infantil (onde a adrenalina se limitava a acertar o passo e a aguentar o calor de agosto, com calças de burel), que o destino me reservava uma versão muito própria e diária daquele brinquedo diabólico, onde a promessa solene seria irremediavelmente quebrada.

Quatro décadas depois, a Feira Popular já não existe, mas a montanha russa... ah, essa instalou-se permanentemente na minha vida quando decidi tornar-me professor bibliotecário.

Quem me dera que os solavancos daquela primeira montanha russa se comparassem à suave ondulação de alguns dias na biblioteca! Há dias de calmaria. É verdade. O carrinho da nossa "vida profissional" sobe lentamente pela rampa, dando-nos a perspetiva do panorama. Conseguimos catalogar uns quantos livros sem sobressaltos, até folheamos um ou outro, absorvendo um pouco do conhecimento silencioso que nos rodeia. E, claro, relemos. Ah, a arte da releitura dos documentos basilares! Na calmaria, há tempo para ler uns, reler outros — especialmente os tais Referenciais, que nos orientam a ação, esse Santo Graal em formato PDF, que contém tudo e mais alguma coisa, desde o que fazer com alunos de 1.º ano até à reinterpretação da epistemologia da leitura em contexto escolar. Quando dou por mim, já estou de novo a marcar prazos, a redefinir objetivos e a reestruturar grelhas — essas nossas planícies existenciais.

Mas, invariavelmente, a calmaria precede a tempestade. De repente, o carrinho atinge o topo e paira, por breves instantes, antes da queda vertiginosa. É o "projeto para ontem", a plataforma digital que era para "anteontem", as atividades que se multiplicam como coelhos, os projetos "inovadores" que surgem do (quase) nada e as ações e concursos para preencher cada milissegundo dos dias seguintes. A respiração acelera, o coração palpita e a sensação é a de cair num abismo de prazos impossíveis e tarefas sobrepostas. Registar documentos transforma-se numa maratona contra o tempo. No meio deste turbilhão, agarramo-nos à nossa missão de promover a leitura como um náufrago a uma tábua. Sim, aquela leitura que os algoritmos dizem estar em declínio, mas que, por um milagre pedagógico qualquer, ainda conseguimos fazer renascer com uma boa história, um clube, um jogo, uma dramatização improvisada com fantoches de papel e um pedaço de esperança. E, depois, lá vem o auxílio ao currículo. Porque um professor bibliotecário que se preze conhece de cor os objetivos de aprendizagem de Ciências Naturais, sabe fazer ligação com o perfil dos alunos e ainda consegue introduzir um poema de Eugénio de Andrade numa atividade sobre reciclagem e ODS. Multitarefa? Não. Multipresença.

Devagar, voltamos a subir. Há uma brisa leve. Vê-se lá do alto o recreio, os alunos a correrem, os professores a partilharem sorrisos apressados, os assistentes a resolverem o caos com uma eficiência sobre-humana. E nós, lá em cima, admiramos a feira: há ideias boas a acontecer, projetos a dar frutos, concursos que surpreendem pela criatividade dos alunos. Há o prazer, por vezes fugaz, de um projeto bem-sucedido, de uma vitória premiada com… mais trabalho, o breve instante de descontração num café apressado.

E, por um momento, somos passageiros atentos, gratos, até felizes.

Mas a lei da montanha russa é implacável. A descida (re)começa. A primeira curva é já de cortar a respiração. Com ela regressa a adrenalina, o stress, aquela sensação de que estamos sempre um passo atrás. Os e-mails acumulam-se, os pedidos multiplicam-se, o tempo desaparece.

E lá vamos nós, em queda livre, com o coração acelerado, a respiração descontrolada, os cabelos ao vento (os poucos que restam), num vortex de decisões, reuniões e imprevisibilidades. No fundo da descida, entre o caos e o cansaço, há sempre uma criança que pede um livro com dragões e feiticeiros, mas que seja também sobre amizade — e é aí que tudo faz sentido.

E assim, caro leitor, o professor bibliotecário segue o seu circuito diário, entre subidas lentas e descidas estonteantes, agarrado à esperança de que, algures no meio desta montanha russa, haja um breve instante de planície, onde se possa respirar fundo e desfrutar da paisagem… antes da próxima curva acentuada e da inevitável queda livre.

Sorrio. Talvez a montanha russa não seja tão má quanto me lembrava. No amanhã da vida, começa outra volta neste carrossel vertiginoso, mas hoje, como no final daquela primeira viagem, no início dos anos 80, sinto aquela mistura estranha de alívio e vontade de repetir a experiência.

Afinal, nas montanhas russas da vida, não é o medo da queda que importa, mas a vista do alto e a história que contamos quando chegamos ao fim da linha.

Afinal, a vida, tal como a Feira Popular, é feita de emoções fortes. E nós, professores bibliotecários, somos os destemidos passageiros desta aventura literária e pedagógica. O PB não vive numa biblioteca. Vive numa montanha russa. E aprendeu, com alguma ironia, várias voltas no estômago e uma taquicardia profissional crónica, a achar nisso tudo uma forma peculiar de prazer.

João Alves dos Reis,
Professor bibliotecário,
AE de Argoncilhe, Santa Maria da Feira

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  1. Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
  2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
  3. Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.

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