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Blogue RBE

Qui | 13.03.25

‘Pebbling’ em bibliotecas escolares?

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Na semana passada perguntamos-lhe se Já ouviu falar de 'Pebbling'?, a dinâmica de interação social que envolve o ato de partilhar memes, reels, vídeos curtos do TikTok ou qualquer outro tipo de conteúdo digital como uma forma de criar conexão emocional e social, e demos a conhecer as suas características e potencial.

Hoje, sugerimos que as bibliotecas escolares podem tirar partido do fenómeno para atraírem alunos, promoverem a leitura e estimularem o pensamento crítico. Ao utilizarem memes, vídeos curtos e outros conteúdos digitais de forma estratégica, as bibliotecas podem tornar-se espaços dinâmicos e envolventes, especialmente para as gerações que já crescem imersas no mundo digital. Apresentamos-lhe abaixo algumas sugestões:

1. Campanhas de promoção de livros com memes

Criar e partilhar memes baseados em livros populares ou clássicos, usando humor para despertar o interesse dos alunos. Por exemplo:

  • Memes literários: Adaptar memes populares para destacar personagens ou enredos de livros recomendados pela biblioteca.

  • Memes “Antes e Depois”: Comparar a vida antes e depois de ler um determinado livro, criando um apelo curioso e divertido.


  • Colaboração com alunos: Incentivar os alunos a criarem os seus próprios memes sobre os livros que leram, promovendo a criatividade e o pensamento crítico.

2. Desafios e concursos no TikTok ou Instagram Reels

Organizar desafios de vídeos curtos, como:

  • Desafio de BookTok: Inspirado na tendência do TikTok, desafiar os alunos a partilharem as suas reações emocionais ao terminarem um livro, incentivando a leitura e o envolvimento digital.

  • Recriação de cenas literárias: Desafiar os alunos a recriarem cenas icónicas de livros em vídeos curtos, utilizando criatividade e humor.

  • Concursos de Book Memes: Concursos mensais para premiar os memes ou vídeos mais criativos relacionados com livros disponíveis na biblioteca.

3. Clube de memes literários

Criar um clube extracurricular onde os alunos possam:

  • Criar memes e conteúdos digitais: Usar humor e cultura pop para reinterpretar temas literários.

  • Discussões críticas: Debater as interpretações por trás dos memes criados, incentivando o pensamento crítico e a análise literária.

  • Divulgação na comunidade escolar: Partilhar os conteúdos criados nas redes sociais da escola para envolver a comunidade escolar e aumentar a visibilidade da biblioteca.

4. Recomendações de leitura com humor digital

  • Listas de livros em formato meme: Criar listas de recomendações de leitura utilizando imagens humorísticas e referências culturais que sejam familiares aos alunos.

  • Personagens vs. Realidade: Comparar personagens fictícios com situações reais que os alunos vivenciam, criando uma ligação emocional e humorística.

  • Vídeos curtos de resumo: Criar vídeos curtos e humorísticos que resumam o enredo de um livro, despertando a curiosidade para a leitura completa.

5. Literacia informacional e mediática e pensamento crítico

Utilizar o pebbling para ensinar literacia informacional e mediática de forma interativa:

  • Análise de memes: Analisar o contexto, a mensagem e as implicações culturais de memes populares, desenvolvendo o pensamento crítico e a interpretação de textos digitais.

  • Desinformação: Utilizar memes e vídeos como ponto de partida para discutir a desinformação e a verificação de factos na era digital.

  • Oficinas de criação digital: Workshops para ensinar os alunos a criar memes e vídeos curtos de forma ética e responsável, promovendo a cidadania digital.

6. Participação ativa e inclusão digital

  • Desafios de colaboração: Promover a colaboração entre alunos na criação de memes e vídeos sobre temas literários ou educativos.

  • Destaque cultural e diversidade: Utilizar conteúdos digitais para destacar autores de diferentes culturas, promovendo a diversidade literária.

  • Plataformas interativas: Criar um espaço digital colaborativo, como um grupo de Instagram ou TikTok, onde os alunos possam partilhar conteúdos relacionados com livros e literatura.

7. Gamificação e caça ao tesouro digital

  • Caça ao tesouro com memes: Esconder pistas digitais em memes espalhados pelas redes sociais da biblioteca, levando os alunos a explorarem diferentes secções da biblioteca.

  • Passaportes literários digitais: Utilizar vídeos curtos e memes como desafios para completar passaportes literários, incentivando a leitura de diferentes géneros e autores.

  • Competição de conhecimento literário: Criar quizzes interativos baseados em memes e vídeos curtos para testar o conhecimento literário de forma divertida.

Integrar o pebbling nas atividades da biblioteca pode não só aumentar o envolvimento dos alunos, como também modernizar a forma como a literatura e o conhecimento são apresentados. Utilizando humor, criatividade e cultura digital, as bibliotecas permanecem espaços de aprendizagem inovadores, relevantes e inclusivos.

Estas estratégias ajudam não só a promover a leitura, mas também a desenvolver competências essenciais como o pensamento crítico, a criatividade e a cidadania digital, preparando os alunos para o mundo atual.

Que tal? Demos-lhe alguma boa ideia? Qual lhe parece a sugestão mais interessante? Partilhe nos comentários! 😉

📷 https://www.canva.com/ 

 

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Ter | 11.03.25

Querida biblioteca: para que te quero?

por Adelaide Peres e Marta Brandão, professoras bibliotecárias do AE de Arouca

2025-03-11.pngEm Arouca, as montanhas sabem guardar histórias. Talvez por isso sejamos duas, eu e ela, a carregar este mapa de seis bibliotecas e dez escolas, com o peso leve das palavras e o fôlego necessário para responder a cada desafio. Eu, a mais velha, com rugas que o tempo desenhou entre livros e adolescentes. Ela, a mais nova, com um entusiasmo que me lembra um tempo em que eu também era assim. Há uma ironia bonita nisto: já foi minha aluna. Hoje, somos cúmplices.

É uma cumplicidade que cresce na admiração mútua, no amor pelos livros e na partilha de um propósito maior: criar leitores. Somos movidas pela vontade de transformar cada visita à biblioteca numa experiência, cada livro num companheiro fiel e cada aluno num explorador do saber.

Juntas, temos enfrentado os desafios impostos pelas exigências da Rede de Bibliotecas Escolares, pelas diretrizes da IFLA e pelas mutações de um mundo onde o digital avança sem pedir licença. Complementamo-nos no trabalho e no saber, na formação que nunca termina, nos projetos que criamos, recriamos e adaptamos para que as bibliotecas não sejam apenas espaços, mas sim territórios vivos de aprendizagem. Dividimos o trabalho e a responsabilidade, mas também as dúvidas.

Aqui, entre serras e aldeias, fazemos o possível para transformar teorias em realidades. Quando uma hesita, a outra avança. Quando uma para, a outra insiste. Há um equilíbrio invisível que nos segura: o que falta a uma, a outra oferece.

Gostamos de pensar que estamos a construir algo maior do que nós. As bibliotecas, estas seis pequenas ilhas no meio do território, grande e disperso, não são apenas prateleiras com livros. São portas abertas para crianças e adolescentes que, por vezes, chegam sem saber o que procurar e saem com histórias inteiras na cabeça.

Formamo-nos continuamente, não só em cursos ou formações, mas também na prática diária de aprender juntas. Há algo de permanente nesse movimento: eu ensino-lhe o que sei, ela desafia-me a ser melhor. E no fim, percebemos que ambas somos alunas e professoras, não só uma da outra, mas também de cada livro, de cada pessoa que entra por essas portas.

Somos bibliotecárias, mas também contadoras de histórias, orientadoras de olhares curiosos, defensoras de livros que às vezes parecem querer ser esquecidos.

Querida biblioteca, para que te quero?

Quero, queremos-te para continuar a encontrar respostas. E, talvez, para inventar novas perguntas e continuar a tecer, contigo, retalhos que ficam.

Porque, no fundo, a biblioteca não é apenas um lugar. É um encontro, um caminho e uma promessa.


Adelaide Peres e Marta Brandão
Professoras bibliotecárias
do Agrupamento de Escolas de Arouca

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  1. Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
  2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
  3. Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Seg | 10.03.25

3 formas de começar a desenvolver as competências de literacia das crianças em idade pré-escolar

por Jacquelyn Bobien-Blanton*

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As atividades adequadas ao desenvolvimento, centradas nas competências básicas de leitura, podem ajudar as crianças a divertirem-se ao mesmo tempo que aprendem.

Há muita conversa entre os educadores sobre a necessidade de melhorar os resultados da alfabetização das crianças. À medida que procuramos renovar a alfabetização nos primeiros anos, é importante considerar o período pré-escolar como um elemento da equação. O processo de desenvolvimento de competências de literacia fundamentais começa antes do jardim de infância. As crianças do jardim de infância têm um currículo constituído por todas as experiências que tiveram dos 0 aos 5 anos e esse currículo ditará se a leitura será ou não um desafio para elas.

Como é que desenvolvemos competências de literacia fundamentais no pré-escolar? Recorremos à investigação. A investigação do neurocientista cognitivo Stanislas Dehaene apoia a integração de competências autênticas de linguagem e literacia nas experiências quotidianas das crianças antes do jardim de infância. No pré-escolar, as crianças aprendem muitas competências importantes que irão contribuir para o desenvolvimento das competências de literacia, mas nenhuma é tão importante como as três seguintes: consciência do impresso, consciência fonológica e fonética. Neste artigo, vou partilhar atividades implementadas na minha sala de aula quando eu era professora, bem como atividades que os meus professores implementaram ao longo dos anos.

1. Apoiar a consciência do impresso

O primeiro passo a dar na alfabetização pré-escolar é a compreensão do funcionamento da linguagem escrita. A consciência do impresso permite-nos reconhecer letras, palavras e frases no nosso ambiente. Também envolve o conceito de que a impressão nos diz alguma coisa e dá-nos conhecimento sobre os livros e a direção da leitura. Desenvolvemos a consciência do impresso ao explorarmos a sua presença no nosso ambiente (em sinais, rótulos e logótipos na vida quotidiana) e nos livros. Diariamente, lemos em voz alta e discutimos as partes do livro, o ilustrador, o autor e a página de rosto.

Aponte letras, palavras, frases e letras maiúsculas no início das frases e explique os sinais de pontuação no final. Use o seu dedo para seguir o fluxo das palavras e mostre como o seu dedo se move quando chega à última palavra e passa para a linha seguinte para ler. Mostre às crianças todos os locais onde vemos letras impressas e as várias razões pelas quais as usamos, tais como mapas, ementas, direções, circulares de lojas, correio, revistas, calendários, listas de compras e diferentes tipos de livros.

2. Desenvolver a consciência fonológica

A segunda parte importante da literacia a considerar para os alunos do pré-escolar é a consciência fonológica, ou seja, a capacidade de reconhecer e manipular os sons das palavras faladas. As atividades de apoio à consciência fonológica podem incluir jogos relacionados com a manipulação de sons, assim como ouvir, rimar, cantar e recitar canções de embalar. O objetivo é desenvolver competências de processamento auditivo, porque a consciência fonológica tem a ver com sons.

Para desenvolver competências auditivas, peça às crianças que fechem os olhos enquanto emite vários sons na sala (por exemplo, tocar uma campainha, andar, água a correr, sons de animais, veículos ou ferramentas). Crie jogos em que as crianças tenham de fazer corresponder os sons que ouvem. Com os meus alunos, fiz dois conjuntos de abanadores de som com pequenas garrafas de água. Coloquei vários objetos em cada uma delas, como moedas, feijões, arroz, terra, água, areia e algodão. Pode misturar as garrafas e deixar os seus alunos encontrarem os pares.

Identificar palavras que rimam é uma parte fundamental da consciência fonológica. Pode explicar às suas crianças do pré-escolar que as palavras que rimam têm o mesmo som no final. Para ajudar os alunos a desenvolverem esta competência, leia-lhes rimas infantis e peça-lhes para levantarem o polegar ou fazerem um movimento (como saltar, bater palmas, pisar, bater, etc.) quando ouvirem as palavras que rimam. Faça uma pausa antes de chegar à palavra que rima e peça às crianças que a digam. Ou então, peça aos seus alunos que forneçam uma nova palavra que rime (uma palavra real ou sem sentido).

Também pode tentar jogar ao “Eu vejo…”. Pode dizer: “Estou vejo uma coisa que rima com "par", e um aluno pode dizer “saltar”. Pode jogar Bingo utilizando palavras que rimam e incluir a imagem do objeto com a palavra por baixo (por exemplo, sol e caracol, pato e sapato, bola e mola, cão e pão).

Também pode desenvolver competências de aliteração ajudando as crianças a desenvolverem o ouvido para identificarem palavras que têm a mesma letra ou som no início em pares de palavras que estão próximas umas das outras. Por exemplo, diga pares de palavras e peça às crianças para saltarem, pularem ou baterem quando ouvirem um par aliterativo (por exemplo, “meia maluca”, “gato guloso” ou “tia taralhouca”). Recite com as crianças trava-línguas como “O rato roeu a rolha do garrafão do rei de Roma” ou “A vaca malhada foi molhada por outra vaca molhada e malhada.” Substituir novos sons iniciais em frases aliterativas familiares. Por exemplo, peça às crianças para dizerem: “Carlos Correia correu pela cidade” com o som “P” em vez do som “C”: “Parlos Porreia porreu pela pidade”.

3. Incentivar a fonética

No nível pré-escolar, a fonética consiste simplesmente em ajudar as crianças a reconhecerem as relações som-símbolo, fazendo corresponder os nomes das letras (grafemas) aos sons das letras correspondentes (fonemas). Os meus professores e eu envolvemos as crianças em jogos em que fazem corresponder letras maiúsculas a maiúsculas, minúsculas a minúsculas ou maiúsculas a minúsculas. Faça recortes de letras utilizando diferentes tipos de materiais, como lixa, feltro ou cartolina, e deixe as crianças explorarem as letras enquanto aponta os diferentes tipos de linhas que formam as letras (ou seja, retas, horizontais, verticais, diagonais, curvas).

Os jogos em que as crianças identificam os nomes das letras e os sons correspondentes também podem ser divertidos. Utilize teclados antigos e chame as letras para que as crianças as encontrem e as carreguem no teclado e depois façam o som correspondente. Pode também recolher tampas de garrafas de água ou utilizar cartões e escrever uma letra em cada topo de A a Z (maiúsculas e minúsculas). Utilize os materiais para fazer jogos com as crianças, como pôr as letras por ordem, perguntar que letra vem antes ou depois de determinada letra. Para um envolvimento ainda mais pessoal, pode permitir que as crianças escrevam os seus nomes e façam corresponder as letras maiúsculas e minúsculas.

Um último jogo a experimentar é “passar a letra”. Dê a cada criança uma folha de cartolina com uma letra. Incentive as crianças a continuarem a passar as letras de mão em mão até o professor dizer para pararem. Peça às crianças que encontrem o amigo que tem a letra que vem antes ou depois da letra que têm na mão e que façam o som correspondente à letra. À medida que as crianças se familiarizam com as letras e os sons, podem começar a criar famílias de palavras. Mantenha a base da família unida e mude apenas a letra inicial, por exemplo, usando “_ato” para que as crianças possam criar “gato”, “pato” ou “mato”. Certifique-se apenas de que nomeiam a letra e fazem o som para criarem a palavra.

Estes tipos de jogos são divertidos, interativos, adequados ao desenvolvimento e práticos. Exigem que sejamos intencionais na construção de competências fundamentais de literacia na educação pré-escolar.

 

O texto deste artigo foi traduzido e publicado com a autorização da Edutopia:

Bobien-Blanton, J. (2025, 18 de fevereiro). Developing Early Literacy Skills in Preschool. Edutopiahttps://www.edutopia.org/article/developing-early-literacy-skills-preschool.

📷 Imagem criada com https://www.rawpixel.com/ 


* Jacquelyn Bobien-Blanton

A Dra. Jacquelyn Bobien-Blanton, uma distinta educadora com quase três décadas de experiência, desempenha atualmente as funções de diretora executiva da aprendizagem precoce nas Escolas Públicas de Orange Township, em Nova Jérsia. É responsável pela experiência educativa dos alunos mais jovens do distrito, incluindo o desenvolvimento das suas competências de literacia precoce. A Dra. Blanton tem um doutoramento da Walden University e é certificada em várias áreas da educação, incluindo do pré-escolar ao terceiro ano, ensino básico e administração da educação (supervisora e diretora).
Sítio Web: http://www.drjackieblanton.com 

Nota: © Excecionalmente, por se tratar de uma tradução que careceu de autorização, este trabalho tem todos os direitos reservados.

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Sab | 08.03.25

Hoje é Dia Internacional da Mulher! Direitos iguais. Oportunidades iguais. Poder igual.

por Júlia Martins*

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Em março de 2024, o Tempo para Ler comemorou o Dia Internacional da Mulher com muitos livros sobre mulheres e deu destaque ao livro Todos Devemos Ser Feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie. Regressamos, hoje, para voltar a celebrar o Dia Internacional da Mulher com livros sobre mulheres e apelamos a que os professores bibliotecários divulguem e deem a ler para que este dia, que só foi oficializado em 1975, em assembleia da Organização das Nações Unidas, não seja esquecido.

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“Quando a senhora secretária me convidou para aqui vir, disse-me que esta Sociedade se preocupa com os empregos para as mulheres e sugeriu que dissesse algumas palavras sobre as minhas próprias experiências profissionais. É verdade que sou uma mulher; e é verdade que estou empregada; mas que experiências profissionais tive eu? É difícil dizer. A minha profissão é a literatura; e nessa profissão há menos experiências para as mulheres do que noutra qualquer, excepto o palco — menos, quero eu dizer, que sejam peculiares às mulheres, porque a estrada foi aberta há muitos anos — por Fanny Burney, por Aphra Behn, por Harriet Martineau, por Jane Austen, por George Eliot. Antes de mim houve muitas mulheres famosas e muitas outras desconhecidas e esquecidas que aplanaram o caminho e me marcaram o passo. Assim, quando comecei a escrever, havia muito poucos obstáculos materiais no meu caminho. Escrever era uma ocupação respeitável e inofensiva. A paz familiar não foi quebrada pelo rabiscar de uma caneta no papel. Não foram pedidos esforços à bolsa familiar. (…) O facto de o papel ser tão barato é, obviamente, a razão por que as mulheres alcançaram êxito como escritoras antes de o terem alcançado noutras profissões."

Profissões para Mulheres, in Ensaios Escolhidos (2014), de Virgínia Woolf. Lisboa: Editora Relógio D’ Água

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“Esta obra revolucionária e fundadora do feminismo é um clássico essencial sobre o papel social das mulheres. Em 1792, inspirada pela conquista dos direitos do Homem na França revolucionária, Mary Wollstonecraft proclamava alto e bom som que cabia ao «sexo fraco» tomar as rédeas do seu destino e quebrar as cadeias da submissão e ignorância que o prendiam. Trava-se, nestas páginas, um corajoso combate com uma moral conservadora que condenava metade da humanidade ao papel decorativo de companheira dócil do homem. Em cada linha desta resposta a Émile, de Jean-Jacques Rousseau, perpassam o acesso à educação e ao trabalho, como condição da emancipação feminina, e a ideia de que, sem liberdade, não há deveres sociais a cumprir. Uma Vindicação dos Direitos da Mulher conserva toda a sua actualidade e continuará a influenciar gerações de leitores.” [sinopse da responsabilidade da editora]

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«Sendo as autoras aqui representadas nascidas entre 1831 e 1982, ou seja, separadas entre si por mais de um século e meio, e, como tal, apresentando-nos narrativas que se inserem em diversos estilos e sujeitas a diversos dogmas sócio-histórico-culturais, seria expectável que encontrássemos uma variedade temática que representasse a distância temporal entre estas. Surpreendentemente, podemos identificar dois temas constantes em todos os textos, de forma implícita ou explícita: um deles refere-se à incapacidade masculina de corresponder ao amor feminino. O segundo, de certa forma relacionado com o primeiro, aborda a violência e a subjectivação do espaço feminino, seja este físico ou cultural.» Da introdução de Deolinda M. Adão

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“26 de novembro de 1950
Fiz mal em comprar este caderno, muito mal. Mas agora é tarde para me lamentar, o estrago já está feito. Não sei sequer o que me levou a comprá-lo, foi um mero acaso. Nunca pensei em ter um diário, até porque um diário deve permanecer secreto e, por isso, seria preciso escondê-lo de Michele e dos miúdos. Não me agrada esconder coisas; de resto, em nossa casa há tão pouco espaço, que seria impossível fazê-lo. Foi assim: há quinze dias, era domingo, saí de casa bastante cedo de manhã. Ia comprar cigarros para Michele; queria que, quando ele acordasse, os encontrasse na mesinha de cabeceira: aos domingos, dorme sempre até tarde. Estava um dia bonito, quente, não obstante o outono avançado. Sentia uma alegria infantil ao caminhar pelas ruas, do lado do sol, a ver as árvores ainda verdes e as pessoas contentes como parecem sempre estar nos dias festivos. Por isso, decidi dar um breve passeio, ir até à tabacaria na praça. Ao longo do caminho, vi que muitos paravam na banca da florista, e parei também, comprei um ramo de calêndulas. «Há que ter flores na mesa, ao domingo», disse-me a florista, «os homens reparam nisso.» Eu sorri, anuindo. (…) “ 
Alba de Céspedes (2024). O Caderno Proibido. Lisboa: Alfaguara. 

“Roma, década de 1950: Valeria Cossati vai comprar cigarros para o marido, ignorando que sairá da tabacaria com um caderno que há de mudar a sua vida. Ao transformar esse caderno num diário secreto onde regista pensamentos e desejos do dia-a-dia, Valeria transforma-o num instrumento de emancipação: liberta-se das convenções sociais, do sentido de dever para com o marido e os filhos, dos limites autoimpostos que regem o seu pequeno mundo. A partir daqui tudo é questionado. Valeria compreende que está em translação e decide conquistar o lugar que escolheu para si.

Clássico redescoberto, testemunho histórico de uma época, retrato primoroso da turbulência doméstica, O Caderno Proibido condensa a sede de liberdade de toda uma geração e das outras que se lhe seguiriam. Precursora da linhagem literária mais disruptiva da modernidade - de Virginia Woolf a Natalia Ginzburg, de Marguerite Duras a Vivian Gornick -, Alba de Céspedes celebra aqui o poder da escrita e a audácia indómita de uma mulher numa sociedade em ebulição.” [sinopse da responsabilidade da editora]

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img5 (2).jpg“No ano da comemoração dos 50 anos do 25 de Abril, somos convidados a conhecer as histórias de 25 Mulheres, contadas pela sua voz. Esta viagem à sociedade portuguesa do início dos anos 70, espelha as contradições da condição feminina, com as quais ainda nos debatemos hoje, meio século depois. O que mudou? Como mudou? Como nos víamos na altura? Como nos vemos agora?
Isolar 25 histórias é tarefa ingrata, mas fica a esperança de que as selecionadas possam representar, de forma digna, a gloriosa diversidade da existência no feminino. Acima de tudo, fica o desejo de que este livro favoreça a curiosidade e o diálogo, quer pelo aprofundamento das raízes históricas dos relatos aqui narrados, quer pela indagação do significado contemporâneo do ser mulher. Tal como o caminho para a liberdade, este é um livro em permanente construção. “  [ sinopse da responsabilidade da editora]

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“ Nunca me foi estranho o mundo das máquinas. Sempre convivi com máquinas. É-me tudo estranho. Este é o mundo das mulheres e dos homens. Faz-me confusão é que haja mulheres que achem que as máquinas são o mundo dos homens. Ser mulher e pensar em máquinas nunca me fez confusão nenhuma. Não foi por ter começado a trabalhar desde pequena numa fábrica. Não, não foi por isso. Plasticamente, as máquinas fascinam-me, mas não é fascinação no sentido da exaltação do objecto. Inquieta-me. Inquieta-me a vida do homem através da máquina. Antigamente, o homem funcionava com a máquina. Agora já é a máquina que auxilia a máquina, o homem só está ali a carregar nos botões. Inquieta-me também pela poluição, pela transfiguração, pelo movimento. O barulho, os ruídos. Toda a maquinaria, são objectos perigosíssimos. Sinistros. Os satélites, os aviões. Pode-se estar sossegada nesta paisagem urbana? Não estou aqui para pintar Portugal alegre. O aspecto residual é muito importante. “

Aldina Costa – Artista Plástica, Máquina e maquinações. in Artistas Artesãs Pioneiras – Conversas singulares entre mulheres extraordinárias (2024). Lisboa: Ed. Edições Caixa Alta


Outras sugestões de leituras sobre mulheres: 

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📷 https://www.canva.com/

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* Júlia Martins

Acredita no poder da leitura. Dar a ler é um desafio que gosta de abraçar. É leitora e frequenta, de forma assídua, Clubes de Leitura. Saiba mais

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Qui | 06.03.25

Já ouviu falar de 'Pebbling'?

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Pebbling é um fenómeno de interação social que envolve o ato de partilhar memes, reels, vídeos curtos do TikTok ou qualquer outro tipo de conteúdo digital como uma forma de criar conexão emocional e social. O termo inspira-se no comportamento dos pinguins Gentoo, que presenteiam potenciais parceiros com pedras polidas como gesto de interesse e carinho. Da mesma forma, as pessoas escolhem cuidadosamente conteúdos digitais engraçados, emocionantes ou significativos para partilhar com aqueles de quem gostam, estabelecendo uma ligação subtil mas eficaz.

O pebbling é uma prática cada vez mais alargada, especialmente entre os mais jovens. Estudos recentes e análises culturais indicam que o envio de memes e vídeos curtos se tornou uma forma dominante de comunicação, sobretudo em plataformas como Instagram, TikTok, WhatsApp e Messenger. Em particular, entre a Geração Z e os Millennials, o pebbling é uma forma popular de manter o contacto de forma leve e divertida.

A popularidade do pebbling pode ser explicada pelo modo como preenche a necessidade de comunicação rápida e emocional num mundo digitalizado, onde as conversas longas são frequentemente substituídas por interações curtas e frequentes. Contudo, o fenómeno não se limita aos jovens – adultos de várias idades também aderiram à prática, utilizando-a tanto em contextos pessoais como profissionais, como forma de partilhar humor, cultura pop ou até informação útil.

Embora a designação pebbling seja recente, a prática de enviar conteúdos engraçados, emocionantes ou culturais para expressar sentimentos ou manter o contacto já existe há anos. Desde os primeiros memes da internet no início dos anos 2000 até à partilha de vídeos no YouTube e GIFs em mensagens de texto, as pessoas sempre utilizaram o humor e a cultura digital para comunicar.

O que mudou foi a forma como o pebbling se tornou uma norma social e um comportamento consciente. Hoje, as pessoas usam deliberadamente memes e vídeos para transmitir emoções, criar laços sociais ou até flertar, reconhecendo o poder emocional destes pequenos gestos digitais. Esta intencionalidade é o que diferencia o pebbling de práticas anteriores de partilha digital.

Alguns exemplos de utilização

  1. No contexto romântico, o pebbling é uma maneira discreta de namorar. Em vez de enviar mensagens diretas, as pessoas escolhem partilhar memes românticos ou engraçados para sugerir interesse de forma leve. Por vezes, enviam TikToks com mensagens subentendidas sobre crushes ou situações de namoro, criando um clima de proximidade emocional. A escolha de músicas românticas em vídeos curtos é também uma forma popular de expressar sentimentos de forma indireta.

  2. O pebbling é uma forma prática de manter amizades, especialmente quando há distância geográfica. Partilhar memes que contêm piadas privadas ajuda a relembrar experiências partilhadas, fortalecendo o vínculo de forma subtil e divertida. Reels sobre situações do dia a dia, como desventuras escolares ou rotinas diárias, ajudam a criar uma sensação de conexão e identificação mútua. O envio de GIFs e stickers engraçados permite expressar emoções e reações de forma espontânea e criativa, mantendo a comunicação ativa.

  3. Para além das amizades, o pebbling é utilizado para manter laços familiares, especialmente quando as famílias estão separadas por longas distâncias. A partilha de vídeos nostálgicos que recordam momentos de infância ou eventos familiares cria um sentido de proximidade e afetividade. Memes humorísticos sobre dinâmicas familiares ajudam a lidar com situações do dia a dia com leveza e humor. Vídeos motivacionais ou inspiradores são frequentemente enviados para mostrar apoio emocional de forma subtil, mantendo o contacto sem necessidade de longas conversas.

  4. Embora o pebbling seja mais comum em contextos pessoais, é também utilizado de forma estratégica em ambientes profissionais. Partilhar artigos, vídeos educativos ou memes informativos é uma forma subtil de demonstrar interesse e atualização sobre a área de trabalho. Memes sobre a vida de escritório ou situações do ambiente laboral ajudam a criar empatia e um sentimento de camaradagem entre colegas. Além disso, o envio de conteúdos interessantes pode iniciar conversas informais de forma leve e espontânea, fortalecendo relações profissionais.

  5. O pebbling é também uma forma de demonstrar apoio emocional. Memes motivacionais ou mensagens de autoajuda ajudam a confortar amigos que estão a passar por momentos difíceis, proporcionando um sentimento de apoio e compreensão. Vídeos humorísticos são enviados para animar alguém num dia menos bom, criando um momento de descontração e alívio emocional. A partilha de vídeos nostálgicos que relembram bons momentos passados em conjunto ajuda a criar um sentido de conforto e proximidade emocional.

  6. Em relações à distância, sejam elas amorosas, de amizade ou familiares, o pebbling ajuda a manter o contacto frequente de forma leve e descontraída. Enviar memes diariamente permite manter a comunicação ativa sem a pressão de longas conversas. Partilhar vídeos que lembram o estilo de vida, os gostos ou as preferências do outro cria uma ligação emocional e um sentido de presença constante. Além disso, o uso contínuo de memes e vídeos curtos permite manter conversas em fluxo contínuo, criando um sentido de proximidade e ligação emocional.
  7. O pebbling é frequentemente utilizado para comentar eventos atuais ou tendências culturais. Partilhar memes ou vídeos curtos com reações a acontecimentos globais, como estreias de filmes, acontecimentos políticos ou eventos desportivos, cria um sentido de comunidade e pertença a uma cultura global. Participar em desafios virais ou tendências populares também é uma forma de se relacionar com grupos sociais e comunidades digitais. O uso de memes humorísticos para comentar eventos sociais ou culturais permite abordar temas complexos de forma leve e acessível.

  8. O pebbling é uma forma poderosa de expressar identidade e estilo de humor pessoal. Ao partilhar memes que refletem experiências pessoais ou características de personalidade, as pessoas expressam emoções e pensamentos de forma criativa. O humor autodepreciativo é particularmente popular, pois permite criar laços emocionais através da identificação e empatia. A partilha de conteúdos que refletem identidade cultural, social ou política é uma forma de afirmar pertença a determinados grupos ou movimentos, criando um sentido de comunidade e solidariedade digital.

Riscos Associados ao Pebbling

Embora o pebbling seja uma forma eficaz de comunicação e criação de laços, existem alguns riscos que devem ser considerados:

  1. Superficialidade nas relações: A partilha constante de conteúdos digitais pode criar uma falsa sensação de proximidade, sem permitir a construção de laços emocionais profundos. Dependendo exclusivamente de memes e vídeos para comunicação, há o risco de as conversas se tornarem superficiais, limitando o desenvolvimento de relações mais significativas.

  2. Mal-entendidos e ofensas involuntárias: O humor e a interpretação de memes são altamente subjetivos e culturais. O que é engraçado para uma pessoa pode ser ofensivo para outra. Isto aumenta o risco de mal-entendidos, especialmente em grupos culturais diversos, onde o contexto pode não ser partilhado.

  3. Sobrecarga de informação e stress digital: A constante troca de conteúdo digital pode tornar-se avassaladora, contribuindo para o fenómeno do “infoxication” – excesso de informação que gera ansiedade e fadiga mental. Receber múltiplos memes e vídeos diariamente pode aumentar a pressão social para responder ou reagir, afetando o bem-estar digital.

  4. Privacidade e segurança digital: A partilha de conteúdo pode, inadvertidamente, expor informações pessoais ou permitir a recolha de dados por terceiros. Além disso, a propagação de desinformação é um risco constante quando se partilham conteúdos sem verificar a sua veracidade.

Potencialidade educativa do Pebbling

Apesar dos riscos, o pebbling também possui um enorme potencial educativo quando utilizado de forma consciente e estratégica:

  1. Professores e educadores podem utilizar memes e vídeos curtos para captar a atenção dos alunos, tornando as aulas mais dinâmicas e relevantes. Esta abordagem é especialmente eficaz em temas complexos, onde o humor ou a cultura pop ajudam a simplificar conceitos difíceis.

  2. Analisar e discutir memes pode incentivar o pensamento crítico e a análise cultural. Ao questionar o contexto, a intenção e as implicações de determinado conteúdo, os alunos desenvolvem competências de literacia mediática e capacidade de interpretação crítica.

  3. O pebbling permite que alunos de diferentes contextos culturais e sociais se expressem de forma acessível e criativa. Isto promove a inclusão digital e encoraja a participação ativa em ambientes de aprendizagem colaborativa.

  4. Ao explorarem a criação e partilha de conteúdos digitais, os alunos desenvolvem competências essenciais para o mundo moderno, incluindo comunicação digital, criatividade e habilidades de edição de vídeo.

Em conclusão

O pebbling reflete a evolução da comunicação na era digital, mostrando como pequenos gestos digitais podem ter um impacto significativo nas relações humanas e na educação. Embora a prática esteja amplamente disseminada e ofereça novas formas de criar laços emocionais, é essencial equilibrar o seu uso com interações mais profundas e conscientes para evitar riscos como a superficialidade das relações e a sobrecarga digital.

Ao ser utilizado de forma consciente e estratégica, o pebbling pode não só fortalecer laços sociais como também enriquecer a educação, promovendo o pensamento crítico, a literacia digital e a criatividade. Afinal, assim como os pinguins escolhem cuidadosamente as suas pedras, também nós podemos escolher como e quando partilhar as nossas “pedrinhas digitais” para criar ligações significativas.

E para as bibliotecas escolares? Será que esta tendência entre os jovens pode ser utilizada estrategicamente no âmbito dos nossos objetivos pedagógicos? 😉

Voltaremos a este assunto, mas pode começar já a partilhar as suas sugestões! 

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