O relatório do Conselho Nacional de Educação, Estado da Educação 2023 [1], tornado público este mês, considera que um dos problemas centrais do sistema educativo de Portugal é a reduzida oferta de PLNM (Português Língua Não Materna), “medida de inclusão essencial” (CNE, p. 20) perante as novas demografias e a diversidade social da escola.
A sua não frequência “põe em causa a igualdade de oportunidades no ensino e pode causar danos irreversíveis no percurso de aprendizagem” (CNE, p. 130). Sem compreenderem a língua, não aprendem o que está previsto no currículo das diversas disciplinas, não transitam e tendem a abandonar a escola, situação que prejudica a sua – e das suas famílias - integração social.
A média de retenção e desistência de alunos migrantes no ensino básico é 10,3%, (2 progenitores estrangeiros), enquanto de pais portugueses é de 3,2%, o que faz um total de +7,1%. No 3.º ciclo a média sobe para 16,4%, + 13,2% (CNE, p. 147).
“São particularmente inquietantes os resultados nas disciplinas de matemática e os desempenhos no domínio da língua escrita. O mesmo se pode dizer relativamente às competências digitais” - mais de metade revela dificuldades ou não conseguiu responder às tarefas (CNE, p. 21).
2. PLNM: abordagens, atividades e recursos - exemplos
PLNM é uma disciplina que pode ser oferecida do 1.º ao 12.º ano de escolaridade, em substituição de Português. A abertura de uma turma obriga a um mínimo de 10 alunos. No 1.º ciclo é lecionada muitas vezes como apoio. Seguindo o Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas tem 2 níveis de iniciação, A1 e A2 e um intermédio, B1, findo o qual o aluno integra a disciplina de Português do ano em que está matriculado.
Visa criar condições para o domínio da língua de escolarização e socialização e distingue-se do PLA (Português Língua de Acolhimento) para imigrantes adultos, que pode ser dirigido a familiares (CNE, p. 229).
O Relatório refere casos de alunos migrantes com sucesso, cujos professores de PLNM, para além de promoverem o desenvolvimento de competências linguísticas, funcionam como mediadores, pondo em prática diversas ações e medidas, em articulação com outros professores/disciplinas e serviços da escola e da comunidade.
“Ajudam-nos a resolver problemas do foro social ou sanitário, dão-lhes a conhecer a comunidade, os espaços, os hábitos nacionais, alertam-nos para algumas diferenças, fazem-nos participar em campeonatos desportivos, criam atividades que mostram e dão sentido às suas culturas” (CNE, p. 240).
Ao ser um “mediador de culturas, de línguas, de hábitos” (CNE, p. 237), o professor de PLNM ajuda a criar proximidade, relação e sentido de pertença a quem chega, fazendo-o sentir-se em casa.
Também refere exemplos de alunos migrantes que fazem parte de Associações de Estudantes ou que são delegados de turma e que têm voz localmente.
O Relatório apresenta outras sugestões, como por exemplo:
Criação de equipa de acolhimento que, durante o ano letivo, põe em prática um plano de acolhimento a alunos migrantes – o AE Adelaide Cabette elaborou um Guia de acolhimento em panjabi. Para esta equipa “podem mobilizar-se intérpretes e mediadores culturais (nacionais ou estrangeiros, voluntários, alunos ou outros encarregados de educação residentes em Portugal há mais tempo, até mesmo docentes estrangeiros” (CNE, p. 229) - pode acolher-se e incluir-se em qualquer lugar da escola e da comunidade e não apenas no gabinete do especialista;
Diversificação dos serviços da biblioteca e dos centros de recursos (CNE, p. 232);
Coadjuvação, durante as aulas, entre professores de PLNM e de outras disciplinas;
Tutorias e mentorias, inclusive entre alunos da mesma nacionalidade, mas que conhecem a língua portuguesa e trabalhos de projeto que promovem o relacionamento interpessoal e o sentido de pertença (CNE, p. 230);
Desburocratização através de “agilização de matrículas” e da disponibilização de “documentos, guias e folhetos em várias línguas” (CNE, p. 232);
Apoio individualizado extra-aula inclusive com a colaboração de encarregados de educação estrangeiros e ex-docentes (CNE, p. 234);
Celebração de datas comemorativas – “interagir com os colegas [partilha recíproca], ensinando-os a dizer “Bom dia! Boa tarde!” nas suas línguas, lendo poemas nas suas línguas, vestindo trajes tradicionais, dando a conhecer aspetos e significados das suas culturas, participando em campeonatos desportivos, partilhando lanches com outros sabores” (CNE, p. 234);
Articulação com as “equipas de apoio à integração de estrangeiros (de mediadores)” dos municípios (CNE, p. 233), geralmente disponíveis;
Participação dos alunos “com recurso a materiais simplificados e a contextualizações claras, no respeito pelo nível de língua” e “valorizando os traços da cultura dos países de origem” (CNE, p. 233).
3. O desafio da língua: números
Apresentando como fonte o INE (Instituto Nacional de Estatística), em 2023 ingressaram nas escolas públicas 118 594 crianças e jovens, 11,1% do total de alunos matriculados (CNE, p. 226).
Segundo o Relatório, no ano letivo 2022/2023 estiveram inscritos nas escolas portuguesas mais 32,7% de crianças e jovens estrangeiros do que no ano anterior.
As nacionalidades mais representadas são a brasileira (65 862), a angolana (12 180) e a ucraniana (5 691) (CNE, p. 226). Do total de alunos brasileiros somente 140 frequentou PLNM (p. 228).
Relativamente a PLNM, o CNE reconhece que “falta informação sistematizada, baseada em indicadores estabilizados, que permita acompanhar taxas de cobertura e de frequência da disciplina” (CNE, p. 20). Sem conhecer os dados de cada escola/ agrupamento será difícil planear e concretizar medidas eficazes.
“No ano letivo 2022/2023 inscreveram-se em PLNM 13 923 alunos” (CNE, p. 228), menos de 12% do total de alunos migrantes. Alunos de nacionalidade ucraniana (1 909 alunos) e indiana (1 117 alunos) são os que mais frequentaram PLNM, a seguir aos portugueses (CNE, p. 229).
A dimensão do desafio da língua extravasa a questão dos migrantes quando se observa que, apesar de PLNM ser uma disciplina criada para alunos recém-chegados a Portugal, 3 095 dos alunos que a frequentaram têm nacionalidade portuguesa (CNE, p. 229), mas o seu contexto familiar é provavelmente estrangeiro.
4. Outras medidas
Estado da Educação 2023 destaca medidas inovadoras que ajudam a concretizar ações contextualizadas necessárias a alunos migrantes. Exemplos:
Plano 21|23 Escola+ que reforçou a autonomia das escolas ao nível da gestão;
Programa TEIP (Territórios Educativos de Intervenção Prioritária), cuja revisão (Resolução do Conselho de Ministros n.º 90/2021, 2021, 1.7.1.) permite "a inclusão das escolas que tenham uma elevada percentagem de alunos migrantes e com grande diversidade de línguas maternas” (CNE, p. 233), que podem passar a ter mais docentes, técnicos e especialistas;
Plano Aprender Mais Agora (Resolução do Conselho de Ministros n.º 140/2024, 2024) que tem 3 eixos, sendo o segundo “inclusão e sucesso de alunos migrantes”. O Governo compromete-se, entre outras medidas, a contratar mais mediadores linguísticos e culturais, a simplificar equivalências no ensino básico e a ensinar Português aos pais dos alunos migrantes;
Equipa Multidisciplinar de Apoio à Educação Inclusiva (EMAEI) nas escolas.
Em consonância com o Aprender Mais Agora 2024, o Relatório do CNE propõe a revisão da disciplina PLNM, não tanto tendo por foco a atualização dos instrumentos para diagnóstico e orientação dos alunos e a criação de um nível zero, como propõe aquele plano de recuperação de aprendizagem, mas visando a revisão dos conteúdos e competências a desenvolver em PLNM, tendo sobretudo em conta o seu tempo de aquisição e “a passagem do B2 a nível de proficiência linguística integrado no PLNM. Só depois os alunos passariam para a frequência do Português” (CNE, p. 239).
5. Alunos migrantes favorecem todos
Em 5 anos letivos, 2018 – 2024, passou-se a ter + 160% de alunos migrantes e este número tem tendência ascendente (Aprender Mais Agora).
A chegada, em grande escala, de migrantes às escolas nacionais gera contextos multiculturais, aos quais não são estranhas “situações de isolamento, formam-se grupos por nacionalidade, nalguns casos gerando rivalidades e, por vezes, situações de bullying, de xenofobia, de discriminação” (CNE, p. 231), problemas não exclusivos destes alunos, mas que podem aumentar em contextos de vulnerabilidade.
Alunos migrantes são o grupo mais representado no escalão A da ASE (Ação Social Escolar) e as “elevadas taxas de retenção e desistência das crianças e jovens cujos progenitores são estrangeiros alertam para a necessidade de ativação efetiva de medidas de inclusão e discriminação positiva” (CNE, p. 21).
Para que haja inclusão efetiva, vivida no dia a dia, “É tarefa de todos encontrar as oportunidades que cada aluno traz consigo; encontrar a colaboração dos que chegam; aproveitar e tornar mais úteis os alunos que já se instalaram há mais tempo, apoiar e integrar os alunos e famílias mais fragilizados no domínio da língua e cultura portuguesas. Em suma, de uma escola multicultural, colaborativamente, deve chegar-se à interculturalidade” (CNE, p. 234).
Para que isso aconteça, é importante compreender que este caminho é uma oportunidade de inovação e transformação positiva de toda a escola e comunidade, “que enriquece todos, portugueses e estrangeiros. A valorização da cultura e da língua do outro permite encontrar semelhanças e diferenças, abrindo as perspetivas sobre si próprio, os outros e o mundo circundante. A diversidade importa porque desafia, ensina e faz crescer” (CNE, p. 226).
Obs. Este artigo tem continuação
Há 6 anos a Rede de Bibliotecas Escolares realizou a ação de formação Aprender Português Língua Não Materna com a Biblioteca Escolar, na sequência da qual as bibliotecas escolares aprofundaram e multiplicaram a sua ação no âmbito de PLNM. O próximo artigo destacará esta ação no âmbito de PLNM, apresentando exemplos de bibliotecas escolares.
por Ricardo Miguel Silva, Diretor do A.E. A Lã e a Neve, Covilhã
As bibliotecas escolares desempenham um papel essencial na melhoria da prática educativa, revelando-se fundamentais para a promoção da leitura e formação de novos leitores, para a integração transdisciplinar em projetos pedagógicos, para a capacitação para competências do século XXI e para a criação de ambientes escolares mais inclusivos e atrativos.
As bibliotecas escolares assumem-se como centros de aprendizagem essenciais para a formação integral dos alunos, constituindo os professores bibliotecários e as suas equipas agentes de transformação que permitem que esses espaços, enriquecidos por fundos documentais atualizados em suportes diversificados, com propostas de dinâmicas variadas e motivantes, cumpram um papel educativo de extrema relevância.
As bibliotecas escolares e os professores bibliotecários, apoiados pela RBE e pelos coordenadores interconcelhios são, cada vez mais, imprescindíveis na dinâmica escolar, contribuindo para a promoção de uma educação mais completa e diversificada. Seguindo o propósito para o qual surgiram em contexto escolar, as bibliotecas escolares vão muito além da simples disponibilização de livros, abrangendo várias áreas de desenvolvimento pedagógico e enriquecimento curricular.
Atualmente, são centros fundamentais de aprendizagem onde se pode simplesmente encontrar um livro, mas onde também se desenvolvem competências de pesquisa, de reflexão crítica e de autonomia. São espaços onde se articula o conhecimento e a aprendizagem, onde se fomenta o gosto pela leitura e pela investigação e se potencia uma aprendizagem ativa, proporcionando aos alunos ferramentas para o desenvolvimento do seu pensamento crítico.
Sendo a leitura um dos pilares para a construção do conhecimento e para o desenvolvimento pessoal dos alunos, a biblioteca escolar é um local privilegiado para a promoção da leitura e para a criação de hábitos de leitura permanentes, essenciais para o desenvolvimento da capacidade de compreender e interpretar as coisas e o mundo. A promoção da leitura tem de ser uma prática continuada e é fundamental que a Escola proporcione aos alunos os recursos e o apoio necessários para esse desígnio.
Os professores bibliotecários desempenham um papel fundamental na integração da biblioteca no currículo escolar e em projetos pedagógicos que envolvem diferentes disciplinas. Como refere João Costa, antigo Ministro da Educação, "o professor bibliotecário tem um papel crucial na articulação das bibliotecas com os projetos educativos da escola, promovendo a interdisciplinaridade e criando contextos de aprendizagem mais ricos".
As bibliotecas escolares são ainda essenciais na promoção das competências digitais e de cidadania, fundamentais para alunos do século XXI. Revelam-se espaços para o desenvolvimento de competências digitais, de colaboração e comunicação e as suas equipas de professores desempenham um papel fundamental na formação de cidadãos bem informados, capazes de analisar informações de forma crítica e responsável, particularmente em tempos de um mundo tão digital.
Finalmente, e não menos importante, destaque-se o papel que as bibliotecas escolares assumem enquanto ambiente escolar inclusivo, proporcionando a todos os alunos, independentemente das suas características e necessidades, a possibilidade de acederem a conteúdos diversificados e adaptados. Nuno Crato, outro Ex-Ministro da Educação, defensor de uma Educação Inclusiva, afirma que a biblioteca escolar "…é um recurso que deve ser acessível a todos, sem exceção, criando um ambiente que favorece a inclusão e a participação ativa dos alunos em projetos educativos". A biblioteca escolar deve, pois, ser um local onde todos os alunos se sintam bem-vindos e possam desenvolver as suas competências sem limitações.
As bibliotecas escolares estão hoje no centro da dinâmica de qualquer agrupamento de escolas e, em particular, do AE A Lã e a Neve. No nosso caso, a sua ação não se confina aos espaços físicos agora renovados, colocando-se permanentemente ao serviço de toda a Comunidade Escolar nos inúmeros locais, momentos, dinâmicas e públicos específicos, do Pré-Escolar à totalidade do Ensino Básico sem esquecer os Encarregados de Educação, professores e outros elementos da comunidade.
Ela constitui uma oportunidade permanente para alunos, educadoras e professores para diversificação e enriquecimento das práticas educativas. Destaque-se ainda o seu envolvimento direto em projetos que consideramos estratégicos para a melhoria do serviço educativo prestado e, consequentemente, para a melhoria das aprendizagens e capacitação dos nossos alunos. A título de exemplo, destacam-se inúmeros projetos, alguns dos quais premiados nacionalmente, que a nossa biblioteca desenvolve ou em que é parte integrante. Do Plano de Ação para a Leitura ao Plano de Ação de Desenvolvimento Digital ou em Projetos como os Pequenos Grandes Escritores, Conversas com Livros, Correntes de Contos, Ler é saber. Saber é poder!, Literacia da Informação, Erasmus +, eTwinning, Todos Contam - Literacia Financeira, … , a biblioteca escolar é sem duvida um verdadeiro Mundo de oportunidades.
Ricardo Miguel Silva Diretor do A.E. A Lã e a Neve - Covilhã
No passado dia 4 de fevereiro, a mulher, poeta e guardiã da liberdade no feminino, partiu, deixando o mundo mais empobrecido.
Nascida em Lisboa (1937), Maria Teresa Horta frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Cedo se destaca pela sua militância cívica, em defesa da emancipação feminina e da liberdade, algo que lhe valeu, aos olhos do antigo regime, perseguição, agressão física, censura, processos judiciais e ameaça de prisão (por concretizar devido ao 25 de abril).
A poeta estreou-se nas lides literárias em 1960 com uma obra intitulada “Espelho inicial”. Escolheu o jornalismo como via profissional e associou-se ao grupo de ilustres poetas “Poesia 61”, um retorno à tradição vanguardista que, em termos emblemáticos, “Orpheu” tinha representado. (2)
Para além da poesia, a autora escreveu romances e contos, mostrando a sua versatilidade e o domínio de diferentes géneros literários e, sobretudo, a sua singularidade criativa no panorama português.
Maria Teresa Horta foi pioneira no exercício de funções dirigentes no cineclubismo em Portugal e é considerada um dos expoentes do feminismo da lusofonia, apesar da própria afirmar: Eu sou precisamente o contrário do que as pessoas imaginam das mulheres feministas. (8)
Em 1971, em coautoria com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, inicia a escrita de “Novas cartas portuguesas”, obra a três mãos publicada em 1972, a partir das cartas de amor de Mariana Alcoforado (séc. XVII). Desde logo, a obra foi banida pela censura e as autoras acusadas e levadas a julgamento. A nível internacional, este caso inspirou protestos em todo o mundo. (5)
As “Novas cartas portuguesas” constituíram um marco na vida e obra das “três Marias”, que juraram nunca revelar qual o contributo individual.
Sem surpresa, Maria Teresa Horta figura na lista das 100 mulheres mais influentes e inspiradoras do mundo, elaborada pela estação pública britânica BBC, que inclui artistas, ativistas, advogadas ou cientistas – “BBC 100 Women”. É descrita como uma das feministas mais proeminentes de Portugal e autora de muitos livros premiados, com destaque para o livro “Novas Cartas Portuguesas”, no qual era denunciada a opressão sobre as mulheres, no contexto da ditadura, da violência, da guerra colonial, da emigração e da pobreza que dominava Portugal à época. (5)
Nomes como Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Doris Lessing, Iris Murdoch e Delphine Seyrig fizeram eco do acontecimento, criticando o obscurantismo do governo do Estado Novo.
Esta obra ficou durante décadas esquecida e, para surpresa da autora, a reedição em 2010 surge com uma projeção mediática que lhe causou perplexidade.
Acerca de Maria Teresa Horta, importará, mais do que os factos mundanos, mergulhar na obra multifacetada, para melhor compreender a pessoa por detrás da escrita e do ativismo.
Na biografia “A desobediente”, de Patrícia Reis (Contraponto Editores, 2024), ressalta a ideia fundamental da vida e da obra de Maria Teresa Horta, como alguém que tudo faz apaixonadamente. (10)
No dia do seu desaparecimento, o jornal Expresso destaca uma frase da autora, na republicação do podcast de 2019, “A beleza das pequenas coisas”: Sou uma pessoa extremamente triste, mas não sou frágil. Sempre lutei pela liberdade, desde os 15 anos. (4)
Algumas obras inspiraram outras formas de expressão, adquirindo uma dimensão artística e comunicativa trans linguística. Como exemplos, “Mulheres de Abril”, obra levada a cena; “Verão Coincidente”, adaptado ao cinema, numa curta-metragem de António de Macedo; “Les sourcières - Feiticeiras”, com música de António Chagas Rosa; “A Dama e o Unicórnio”, com música de António de Sousa Dias.
A escritora Maria Teresa Horta foi justamente premiada ao longo da sua carreira literária. Mais recentemente, foi-lhe atribuída a Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura, em 2020, e a condecoração, em 2022, com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade. (3)
Nome maior da literatura portuguesa, a autora deu início a uma viragem na escrita no feminino. Considerar Maria Teresa Horta apenas uma poeta do erotismo é, no mínimo, redutor e superficial, pois toda a obra reflete um eterno inconformismo, uma natureza subversiva e uma genialidade notável.
Morrer de Amor Morrer de amor ao pé da tua boca
Desfalecer à pele do sorriso
Sufocar de prazer com o teu corpo
Trocar tudo por ti se for preciso
Maria Teresa Horta, in “Destino” (1)
O dia chegou em que o mar há de buscar, cúmplice, os olhos de água de Maria Teresa Horta e ambos cessarão a sua troca de segredos, transparentes e líquidos, corpos de matérias diversas, suspensos no tempo, aguardando o reencontro…
A transição digital tem sido um dos principais desafios e oportunidades para organizações em todo o mundo. No centro deste processo está um recurso fundamental: os dados. Contudo, a mera acumulação de grandes volumes de informação não é suficiente para garantir o sucesso das iniciativas digitais. É aqui que entra a governança de dados.
A governança de dados refere-se ao conjunto de processos, políticas, normas e responsabilidades que asseguram a gestão eficaz dos dados dentro de uma organização. O seu objetivo é garantir que os dados são precisos, consistentes, seguros e usados de forma adequada. Inclui a definição de quem lhes pode aceder, como devem ser armazenados, partilhados e protegidos, bem como as regras para assegurar a sua qualidade e integridade ao longo do tempo. Desta forma, a governança de dados contribui para que as organizações possam confiar nas informações que utilizam para tomar decisões estratégicas, ao mesmo tempo que protegem os direitos e a privacidade das pessoas cujos dados são geridos. Esta proteção é fundamental para garantir o uso ético da informação, prevenindo abusos e promovendo a segurança dos dados pessoais.
A importância da governança de dados na era digital
A transformação digital implica uma reconfiguração profunda da forma como as organizações operam, oferecendo serviços mais eficientes, personalizados e baseados em evidências. Para que isso aconteça, é imprescindível dispor de dados confiáveis, acessíveis e devidamente geridos. A governança de dados garante que essas condições sejam cumpridas, promovendo a integridade, a consistência e a segurança da informação. Um dos principais desafios da transição digital é a fragmentação dos dados entre diferentes sistemas e departamentos. Sem uma política clara de governança, os dados podem tornar-se redundantes, inconsistentes ou obsoletos, comprometendo a qualidade das análises e das decisões baseadas em dados. Assim, a governança de dados atua como um elo de ligação entre a estratégia digital e a execução operacional.
Elementos-chave da governança de dados
A implementação de uma governança de dados eficaz assenta em três pilares fundamentais: pessoas, processos e tecnologia.
Em primeiro lugar, é necessário estabelecer uma cultura organizacional que valorize os dados como um ativo estratégico. Isso implica definir papéis e responsabilidades claras para a gestão da informação, como os data stewards [1], que são responsáveis pela qualidade e consistência dos dados.
Os processos de governança incluem a definição de políticas para o ciclo de vida dos dados, desde a sua criação até ao seu arquivamento ou eliminação. Isto envolve regras para a entrada de dados, controlo de qualidade, segurança da informação e conformidade com regulamentos, como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD).
Por fim, a tecnologia desempenha um papel facilitador, fornecendo ferramentas que permitem a integração, a análise e a proteção dos dados de forma eficiente. Plataformas de gestão de dados, data lakes, sistemas de business intelligence e soluções de segurança da informação são exemplos de tecnologias que suportam uma boa governança.
A governança de dados e a proteção das pessoas
Para além dos benefícios operacionais e estratégicos, a governança de dados desempenha um papel fundamental na proteção das pessoas. Através da implementação de políticas rigorosas de gestão da informação, a governança de dados assegura que os dados pessoais são tratados de forma ética e responsável, respeitando os direitos à privacidade e à proteção da informação.
A conformidade com regulamentos como o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) é um exemplo claro de como a governança de dados contribui para salvaguardar os dados sensíveis dos indivíduos, prevenindo abusos e acessos não autorizados. Além disso, promove a transparência no uso dos dados, permitindo que as pessoas compreendam o modo como as suas informações são recolhidas, armazenadas e utilizadas.
A adoção de uma governança de dados eficaz traz benefícios tangíveis para as organizações em processo de transição digital. Em primeiro lugar, melhora a qualidade da tomada de decisão, permitindo análises mais precisas e baseadas em dados confiáveis. Além disso, aumenta a eficiência operacional, reduzindo o tempo gasto na procura e validação de informação.
Outro benefício importante é a redução de riscos, especialmente relacionados com a segurança da informação e a conformidade regulatória. A governança de dados ajuda a mitigar ameaças, garantindo que as organizações cumprem as obrigações legais e protegem dados sensíveis contra acessos não autorizados.
[1] Data stewards referem-se a profissionais responsáveis pela gestão da qualidade e consistência dos dados dentro de uma organização. Eles asseguram que os dados estejam corretos, bem documentados, acessíveis e seguros, seguindo as políticas de governança de dados da organização.
por Clarinda Santos, professora bibliotecária, ES de São Pedro da Cova, Gondomar
O silêncio da biblioteca ilumina-se com a chegada de um novo dia, os livros descansam nas estantes ou espalhados nas mesas de aparato para novidades, onde repousam também o jogo de xadrez do Harry Potter e o arranjo floral. Lá fora, as cristas das serras de Santa Justa, Pias e Castiçal recortam o céu em suaves ondas, os raios de sol declinam a densa vegetação das encostas e uns caminhos retorcidos assinalam a presença humana naqueles santuários naturais. Daqui a pouco chegarão os jovens em trânsito de aulas, porque a biblioteca escolar não pode ser tão sagrada como as outras, os deuses da biblioteca não riscam nada se não descerem dos pedestais e se misturarem com o povo, quem sabe levando na mão um telemóvel topo de gama para impressionar.
Alguns alunos ocuparão a zona dos jornais e revistas sem prestarem grande atenção ao entorno, antes concentrando-se na conversa sussurrada ou nos mêmes do TikTok. Um ou outro percorrerá as estantes por curiosidade, outros deter-se-ão sobre uma capa atrativa, um título chamejante. Um e outro requisitará ou renovará um livro obrigatoriamente escolhido para o projeto de leitura. Há muito que os telemóveis invadiram a biblioteca e a biblioteca não os pode ignorar, ainda que se debata diariamente sobre a maneira mais eficaz de usar esta ferramenta na mão dos seus utilizadores e servir-se dela para promover e difundir as vantagens de viajar no lugar do morto, que é como quem diz os benefícios que advêm da observação da paisagem, da fruição do tempo da viagem, da sonoridade do silêncio, do inesperado momento cómico ou assombroso, da saudade antecipada disso tudo e da memória recortada que ressurgirá sabe-se lá porquê, sabe-se lá quando.
Com o uso do telemóvel, o lugar do condutor ficou sobrevalorizado e, sem dúvida, mais apetecido. Para além de não exigir carta de condução, permite viajar para qualquer o lado, à velocidade limite ou maior ainda, tudo na palma da mão, tão depressa e tão diversificado, tão deslumbrante e tão descartável.
E é nesse contexto que os deuses da biblioteca devem atuar, lembrando ao condutor que são companheiros de viagem e estão mesmo ao seu ao lado para lhe mostrar os fascínios da paisagem, conhecida ou ignota, e lhe lembrar a necessidade da pausa e do silêncio. Não o temido silêncio do esquecimento e da ignorância, aquele que faz da biblioteca um lugar morto, mas o silêncio da descoberta e do encantamento a que todos têm direito.
Clarinda Santos, professora bibliotecária, Escola Secundária de São Pedro da Cova - Gondomar
📷 leekris de Getty Images Pro, vi@ https://www.canva.com/
Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.
A socialização da leitura desempenha um papel crucial na formação de hábitos leitores, especialmente na infância e adolescência, através da partilha de experiências e recomendações entre pares.
A leitura é muitas vezes encarada como uma atividade individual; no entanto, também possui um grande potencial de socialização, quando ultrapassa os limites do individual e se transforma numa experiência coletiva.
Entre os 3 e 10 anos, as crianças estão a adquirir competências de leitura e interpretação, e o contacto frequente com histórias de todos os tipos, quer em casa quer na escola, é determinante para criar o gosto e um hábito positivo. Nesta fase, situações de partilha e recomendações entre amigos também podem ajudar a tornar a leitura uma experiência social agradável.
No entanto, é na pré-adolescência e adolescência, no 3.º ciclo e ensino secundário, que a influência dos pares se torna mais marcante, sendo frequente os jovens ajustarem os seus interesses e comportamentos com base no que é valorizado dentro do seu grupo de amigos. Se os jovens estiverem inseridos em grupos onde a leitura é apreciada, é mais provável que desenvolvam interesse por livros. Nesta fase, as interações, partilhas e recomendações interpares têm um papel decisivo no incentivo à curiosidade e ao gosto pela leitura, muito mais relevante do que o desempenhado por adultos mais velhos.
Assim, se queremos incrementar nos nossos alunos o gosto e o hábito da leitura, é fundamental nestes níveis de ensino encontrar momentos e ações que proporcionem oportunidades múltiplas e diferenciadas de socialização da leitura.
Ao ser partilhada em grupos ou comunidades, a leitura transforma-se num forte instrumento de troca de ideias, construção de vínculos e ampliação do repertório cultural. Nas interações que estabelecem, os alunos partilham as suas interpretações, descobertas e emoções, enriquecendo mutuamente a sua compreensão das obras. Como um mesmo texto pode despertar reações e interpretações distintas, o diálogo sobre essas diferenças amplia substancialmente a cosmovisão de todos os participantes, permitindo-lhes aceder a diferentes perspetivas.
A leitura partilhada também permite criar espaços de convívio, onde os alunos se sentem à vontade para exprimirem as suas ideias e sentimentos. Nesses momentos de partilha, em que são incentivados a falar e ouvir e as suas opiniões são valorizadas, os alunos encontram um ambiente acolhedor, que fortalece os laços entre colegas e estimula a colaboração e a empatia, ajudando a criar um sentido de pertença.
No entanto, é nas recomendações de leitura interpares que a socialização da leitura assume contornos muito relevantes , uma vez que a motivação para a leitura é significativamente aumentada quando um livro é recomendado por um par, estimulando o interesse pelos livros e promovendo a construção de uma cultura leitora.
Recomendações de livros feitas por amigos ou colegas podem despertar o interesse por géneros e autores que talvez não fossem explorados individualmente. Além disso, a existência de uma rede de apoio e incentivo dentro do círculo de colegas e amigos pode ajudar a superar desafios como a falta de motivação inicial ou a dificuldade de compreensão de textos mais complexos.
As recomendações vindas de pares são frequentemente vistas como mais fiáveis devido à proximidade e ao relacionamento pessoal entre os alunos. Quando um amigo ou colega sugere um livro, existe um grau de confiança elevado e a convicção de que a recomendação foi feita com sinceridade e se baseia numa experiência pessoal positiva. Isto cria uma forte motivação no destinatário da recomendação, sendo mais provável que siga a sugestão. A credibilidade é amplificada quando o colega que recomenda é vista como um líder, uma figura de autoridade ou um leitor experiente dentro do grupo de pares.
Cada leitor possui uma perspetiva única baseada nas suas experiências de vida, conhecimentos e interesses. A recomendação interpares permite que os alunos sejam expostos a uma ampla gama de opiniões e interpretações, enriquecendo a compreensão e apreciação da literatura dentro do grupo. Este intercâmbio de perspetivas pode levar a uma leitura mais crítica e reflexiva, onde os jovens consideram múltiplos pontos de vista e desenvolvem uma visão mais equilibrada e informada sobre os temas abordados nos livros.
Muitas vezes, os alunos tendem a manter-se dentro dos géneros com que já estão familiarizados. No entanto, quando um amigo recomenda um livro fora da zona de conforto habitual, surge uma oportunidade para expandirem os seus horizontes e descobrirem novos interesses literários. Esta diversidade de experiências de leitura contribui para o enriquecimento pessoal e cultural, levando a explorar novos temas e emoções.
A partilha de recomendações literárias fortalece também os laços dentro de um grupo, fomentando um sentido de pertença e camaradagem. Existe um desejo natural de partilhar e discutir a experiência de leitura com a pessoa que fez a recomendação, criando uma sensação de conexão e diálogo contínuo. Este tipo de motivação extrínseca pode ser um impulso relevante para iniciar ou continuar um hábito de leitura, especialmente em leitores mais relutantes. O envolvimento com o material de leitura torna-se mais profundo quando há uma expetativa de partilha e debate sobre o conteúdo lido.
Algumas estratégias para aumentar a socialização da leitura
Criar clubes de leitura – Organizar encontros regulares onde os participantes possam escolher um livro para ler e discutir. Estes clubes ajudam a criar um compromisso com a leitura e possibilitam debates que tornam a experiência mais rica e envolvente.
Incentivar desafios de leitura – Propor desafios como "ler um livro por mês" ou "explorar um género diferente a cada trimestre" pode tornar a leitura mais motivadora. O uso de recompensas simbólicas, como certificados ou reconhecimentos dentro do grupo, pode aumentar a participação.
Promover debates e rodas de conversa – Estimular encontros para discussão de livros permite que os participantes expressem opiniões, partilhem interpretações e desenvolvam o pensamento crítico. Professores e mediadores podem incentivar a discussão através de questões desafiantes sobre os temas abordados nas leituras.
Integrar a leitura com outras atividades – Relacionar livros com outras formas de entretenimento, como filmes, peças de teatro ou podcasts sobre o mesmo tema, pode aumentar o interesse dos leitores. A relação com outros media ajuda a contextualizar a obra e torná-la mais apelativa.
Utilizar redes sociais e tecnologia – Criar grupos online em plataformas como WhatsApp, TikTok ou Goodreads permite que os jovens partilhem recomendações e opiniões sobre livros. O uso de blogs ou vlogs sobre literatura também pode servir como um incentivo adicional para envolver mais pessoas na leitura.
Em resumo Os pares exercem uma influência significativa na formação de hábitos de leitura, ajudando a transformar a experiência literária num processo social dinâmico e envolvente. Ao criarmos ambientes onde a leitura é valorizada e partilhada, incentivamos os nossos alunos a desenvolverem um gosto duradouro pelos livros.
Investir na socialização da leitura é uma estratégia importante para promover o gosto e os hábitos de leitura.