Em 2025 irá realizar-se a quinta edição do Concurso Nacional de Leitura em Voz Alta.
Esta iniciativa insere-se na Maratona de Leitura – 24h a Ler ,um Festival Literário que se realiza na Sertã, promovido pela Câmara Municipal da Sertã / Biblioteca Municipal Padre Manuel Antunes em parceria com a empresa Palser, sediada na Sertã, contando com o apoio da Rede de Bibliotecas Escolares.
Dirigido às bibliotecas escolares portuguesas, o concurso desafia alunos com idade igual ou superior a 12 anos, a fazerem um registo áudio, com uma duração até 120 segundos, da leitura em voz alta de um excerto de uma obra literária à sua escolha.
O prazo de envio das propostas é até ao dia 30 de abril de 2025, altura em que um júri de três elementos procederá à avaliação das mesmas, escalonando-as em duas categorias – a categoria A para alunos dos 12 aos 15 anos e a categoria B para alunos com idade igual ou superior a 16 anos.
Os prémios a atribuir destinam-se à biblioteca da escola/agrupamento de escolas que o aluno frequenta e são os seguintes, por categoria:
Segundo as normas do concurso, esta verba deverá ser utilizada na compra de livros para a respetiva biblioteca ou para ações que visem a promoção do livro e da leitura junto da comunidade escolar.
Os alunos que tenham participado nos trabalhos premiados recebem um voucher em livros no valor de 40 euros.
Além disso, todos os alunos cuja leitura tenha sido premiada ou tenha recebido Menção Honrosa têm a possibilidade de frequentar gratuitamente uma formação de leitura em voz alta, ministrada por Rodolfo Castro, que decorrerá integrada na 13ª Edição da Maratona de Leitura, em julho de 2025.
Os vencedores serão divulgados publicamente no site www.maratonadeleitura.pt no final do mês de junho de 2025.
por Cândida Pinto, Diretora do AE D. Maria ll, Vila Nova de Famalicão
O Agrupamento de Escolas D. Maria ll constitui-se como um espaço onde, mais de vinte anos após a adesão à Rede de Bibliotecas Escolares, se perpetua o colorido das motivações que, outrora, nos vincularam a este projeto.
Hoje, a nossa Biblioteca é uma fonte de informação e comunicação extraordinariamente valiosa.
Assim, esta Biblioteca desempenha um papel crucial na formação dos alunos proporcionando o acesso a recursos educativos que complementam o currículo escolar e promovem o gosto pela leitura. É um espaço de aprendizagem, descoberta, pesquisa, que incentiva o desenvolvimento do pensamento crítico. Muito para além de disponibilizar materiais didáticos, esta biblioteca escolar oferece o acesso às novas tecnologias , programas de literacia digital e atividades culturais que elevam e fomentam as competências essenciais.
É, igualmente, um espaço acolhedor que promove a inclusão, a equidade, a diversidade e a igualdade de oportunidades, garantindo que todos os alunos diversifiquem os seus horizontes.
Neste contexto, o papel desempenhado pelos professores bibliotecários bem como pelas assistentes operacionais, é determinante para que almejemos o caminho onde, com esforço, nasce a semente do conhecimento, do desafio e da alegria intemporal cuja tonalidade, jubilosamente, nunca encontraremos esbatida.
Investir nas bibliotecas escolares é investir no futuro, capacitando as novas gerações com as ferramentas necessárias para se tornarem cidadãos informados e participativos.
Hoje, as bibliotecas do Agrupamento D. Maria ll são o frenesim de toda a comunidade educativa: do saber e da comunicação, da ciência e da imagem, da ânsia do dizer e do fazer.
É, indubitavelmente, um gigantesco acervo de Saber, generosamente, partilhável.
Cândida Pinto, Diretora Agrupamento de Escolas D. Maria ll, Vila Nova de Famalicão
Eis como construir uma cultura de leitura para acolher os alunos que estão a aprender uma nova língua, especialmente os que vêm de países com fortes tradições de narração oral.
Os meus alunos vêm de todo o mundo. Muitos são de países da América Latina, onde a narração oral de histórias está profundamente enraizada na sua cultura. Nessas regiões, as tradições de narração de histórias são transmitidas através de gerações de uma forma que enfatiza o falar e o ouvir, muitas vezes com um foco na ligação pessoal e na comunidade.
No entanto, os meus alunos confessam frequentemente que a leitura por prazer não está tão presente nas suas culturas como noutras partes do mundo. Senti isto em primeira mão na minha própria família. O meu marido, que é peruano, adora contar histórias fantásticas e cheias de imaginação aos nossos filhos, mas não sente a mesma atração natural pelos livros que eu. Eu cresci numa família polaco-americana onde devorávamos livros como se fossem pierogis. O meu marido prefere partilhar as suas histórias da mesma forma que aprendeu enquanto crescia – por meio da tradição oral. Esta dinâmica não é invulgar nas famílias de muitos dos meus alunos, o que tornou a tarefa de fomentar o gosto pela leitura de livros um pouco mais desafiante na minha sala de aula. Este ano, é uma sorte ter a oportunidade de colaborar com um colega novo, fantástico, que tem várias soluções criativas para ajudar os meus alunos a estabelecerem ligações com os livros de uma forma que se enquadra no seu contexto cultural.
Fazer do tempo de leitura uma atividade de grupo
Uma das estratégias com maior impacto que transformou a atitude dos meus alunos em relação à leitura foi torná-la uma atividade partilhada. Em vez de atribuir tarefas de leitura individuais, comecei a enquadrar o tempo de leitura como algo que fazemos em conjunto, como uma turma. Durante o nosso tempo de leitura, coloco as carteiras ou cadeiras em círculo e juntamo-nos para partilhar uma história. Em grupo, exploramos o texto em conjunto e eu tomo a iniciativa de ler em voz alta. Uma vez que ensino principalmente alunos recém-chegados com um inglês muito limitado, recorremos frequentemente a livros simples, mas cativantes, como os escritos por Mo Willems. Estes livros recorrem ao humor, a ilustrações claras e à repetição para os tornar acessíveis aos alunos, ao mesmo tempo que proporcionam oportunidades para um debate significativo.
Depois de ler uma história aos alunos, altero as coisas, dando-lhes a oportunidade de assumirem a liderança.
Peço-lhes que leiam uns para os outros ou para toda a turma. O que mais me surpreendeu foi o facto de eles terem aceitado este papel com entusiasmo. Não só estão dispostos a ler, como estão entusiasmados por o fazer, e vão mais longe, utilizando vozes expressivas, dramatizando e até reinterpretando as personagens de forma a refletirem as suas próprias experiências culturais. Esta experiência partilhada tornou a leitura menos intimidantee mais agradável para os alunos, transformando-a de uma tarefa solitária numa atividade social e de colaboração.
Envolver os alunos na narração oral de histórias
Para além de ler livros em conjunto, também introduzi um círculo de narração de histórias na rotina da nossa sala de aula. Esta tem sido uma ferramenta incrivelmente eficaz para envolver os meus alunos, uma vez que honra as tradições de narração oral que são centrais em muitas das suas culturas. Durante os círculos de narração de histórias, os alunos são encorajados a partilhar histórias pessoais da sua vida ou da história da sua família. Estas histórias podem ser engraçadas, sérias ou qualquer outra coisa do género, e o formato é muito descontraído.
O que é eficaz nestes círculos é que validam os antecedentes culturais dos meus alunos, ao mesmo tempo que estabelecem uma ligação direta entre a narração oral de histórias e os textos escritos que lemos na aula. Um dos meus superpoderes como professora é contar histórias, por isso esta é uma das minhas atividades favoritas na sala de aula. As histórias são transversais às culturas e fazem sobressair a humanidade e a ligação que todos partilhamos.
O círculo de narração de histórias não só envolve os alunos que talvez não se considerem leitores, como também os ajuda a apropriarem-se das histórias que lemos e partilhamos. Começam a compreender que as histórias, sejam elas orais ou escritas, lhes pertencem e podem refletir as suas próprias vidas e experiências. Isto tem sido especialmente importante para criar um sentido de comunidade na sala de aula. Os alunos começam a perceber que ler não é apenas descodificar palavras numa página, mas também partilhar ideias, experiências e emoções. Tem sido espantoso ver os alunos a ligarem as suas próprias histórias às personagens e situações dos livros que lemos ̶ e, por sua vez, a criarem uma ligação mais profunda à própria leitura.
Não se trata apenas de livros
Desde que introduzi estas mudanças na minha sala de aula, notei uma mudança significativa na atitude dos meus alunos em relação à leitura. Os alunos que antes resistiam a pegar num livro, agora vêem-no como uma oportunidade de se relacionarem ̶ com os colegas, com as famílias e com as suas próprias experiências. O que antes era visto como uma tarefa assustadora tornou-se algo pelo qual eles anseiam. Rimo-nos juntos, orgulhamo-nos de ler em voz alta e envolvemo-nos em discussões significativas sobre as histórias que lemos. Esta mudança é algo que eu não tinha previsto, mas tem sido bem-vinda e marcante.
Como educadora, acho que é fácil pensar que a chave do sucesso é sempre encontrar o livro ou a estratégia “certa”, mas o que aprendi este ano é que não se trata apenas dos livros em si ̶ trata-se de criar um sentido de comunidade e de relevância cultural em torno da leitura.
Ir ao encontro dos meus alunos, tanto a nível cultural como linguístico, e fazer da leitura uma experiência partilhada abre a porta ao gosto pela leitura para toda a vida, que é autêntico e significativo. É também ótimo para nos lembrar que quando os alunos são ouvidos e se sentem valorizados, é mais provável que se empenhem, não só nos livros, mas na aprendizagem como um todo. Sempre que pudermos transformar o trabalho na sala de aula num trabalho com um propósito e significado, estamos a ganhar. Fazer com que a leitura seja sentida como algo pessoal, importante e que capacita é dar aos nossos alunos um presente que eles podem levar consigo para toda a vida.
O texto deste artigo foi traduzido e publicado com a autorização da Edutopia:
Sarah Wysocki é uma educadora de longa data, defensora das crianças, autora e mãe que vive em Annandale, Virgínia. É uma aprendiz ao longo da vida com um bacharelato em psicologia da saúde, um mestrado em ensino e um certificado de pós-graduação em TESOL. A Sarah está empenhada em apoiar o crescimento e o desenvolvimento de toda a criança, com um interesse especial no bem-estar social e emocional. Quando não está ocupada a despertar o amor pela aprendizagem nos seus alunos, pode ser encontrada a fazer voluntariado no seu bairro ou nos campos de pickleball, a desenvolver a amizade e a comunidade.
Como vimos em publicação anterior, 2025 foi declarado o Ano Europeu da Educação para a Cidadania Digital com o objetivo de capacitar os jovens para utilizarem a tecnologia de forma crítica, responsável e inclusiva.
Este esforço visa combater problemas como a desinformação, o ciberbullying e o discurso de ódio, ao mesmo tempo que promove direitos digitais, ética online e bem-estar digital. O objetivo é preparar os cidadãos para participarem ativamente e de forma segura numa sociedade altamente digitalizada, incentivando a aprendizagem contínua e a cooperação positiva.
A iniciativa reúne os setores público, privado e civil para definir metas e práticas comuns que garantam a resiliência da cidadania digital no futuro.
Por inerência dos objetivos das bibliotecas em geral e enquanto parceiras de todas as aprendizagens a desenvolver no espaço escolar, as bibliotecas escolares desempenham, naturalmente, um papel relevante no Ano Europeu 2025: Educação para a Cidadania Digital, contribuindo para a promoção de competências digitais essenciais, o pensamento crítico e o uso ético da tecnologia. De entre as múltiplas dimensões que os contributos das bibliotecas escolares para a Educação para a Cidadania Digital podem assumir, sugerimos os seguintes:
1.Promover a Literacia Mediática e da Informação
Atividades sobre literacia informacional: Ensinar os alunos a localizar, ao espaço escolar, avaliar e utilizar fontes de informação de forma crítica, ajudando-os a reconhecer desinformação e evitar manipulações.
Dinâmicas sobre literacia mediática: Promover o debate de temas como a desinformação e o papel das redes sociais, por exemplo.
2.Criar espaços de aprendizagem digital
Laboratórios de inovação digital: Disponibilizar ferramentas e software que permitam aos alunos explorar a criatividade digital (edição de vídeo, design gráfico, programação… ).
Plataformas colaborativas: Promover atividades que incentivem a cooperação em projetos digitais, tanto em linha quanto presencialmente.
3.Incentivar a participação cívica digital
Debates e fóruns: Abordar questões como direitos digitais, ética e privacidade online, e o impacto das tecnologias disruptivas.
Campanhas de sensibilização: promover a criação de iniciativas para alertar sobre ciberbullying, discurso de ódio e uso indevido de dados.
Sistemas de gestão participativa: Utilizar ferramentas digitais para que os alunos possam contribuir para a tomada de decisões na escola.
4.Garantir a inclusão digital
Acesso a tecnologia: Garantir que todos os alunos tenham acesso a dispositivos e à internet para participar em atividades digitais.
Apoio a grupos sub-representados: Desenvolver programas que incluam crianças de comunidades marginalizadas ou com necessidades especiais, promovendo uma maior inclusão nos ambientes digitais.
5.Fomentar o bem-estar digital
Atividades sobre saúde digital: Focar na gestão do tempo de ecrã, postura, ergonomia e combate à dependência digital.
Programas de apoio socioemocional: Incentivar a empatia e proporcionar o desenvolvimento de estratégias para lidar com conflitos e interações negativas online.
6.Promover competências de segurança e privacidade
Educação em cibersegurança: Ensinar práticas seguras como criar senhas fortes, proteger dados pessoais e reconhecer ameaças online.
Gestão de identidade digital: Ajudar os alunos a construirem uma presença online positiva e consciente.
7.Sensibilizar para o consumo consciente
Dinâmicas sobre consumismo digital: Ajudar os jovens a compreenderem o funcionamento dos algoritmos das plataformas digitais, a publicidade online e os impactos do comércio eletrónico.
Educação financeira digital: Orientar sobre práticas seguras de compra e os riscos associados a fraudes e ciladas.
8.Envolver a comunidade escolar
Pais e educadores: Promover sessões de formação que capacitem toda a comunidade escolar para apoiar os jovens na construção de uma cidadania digital consciente.
Eventos anuais: Realizar workshops e palestras que abordem os avanços e desafios da educação digital.
A adesão ao Ano Europeu da Educação para a Cidadania Digital reforça o papel das bibliotecas escolares como centros de aprendizagem inovadores, que contribuem para formar jovens cidadãos responsáveis e preparados para enfrentarem os desafios e aproveitarem as oportunidades de uma sociedade digital em constante evolução.
O trabalho nesta área insere-se numa das linhas de ação previstas no Quadro Estratégico da RBE, designadamente a linha 3 do eixo Saberes:
Assegurar abordagens integradas das literacias da informação, dos media e digital, perseguindo o desenvolvimento do pensamento crítico, das capacidades de resolução de problemas e de comunicação e do uso ético, eficaz e criativo da informação, media e tecnologia.
Esta é uma questão considerada de tal forma determinante, que a RBE definiu que ajudar as escolas a desenharem e implementaremprogramasde literacia informacional e mediática é, hoje, umimperativopara as bibliotecas. Por essa razão, uma das prioridades para 2024-2025 é
que as bibliotecasconsolidem o seu trabalhono âmbito da literacia informacional e mediática, investindo em todos os níveis de ensino, num esforçoprogramado, articulado, sistemático e progressivamente mais complexo, capaz de abranger todos os alunos, formando-os para uma exigente cidadania digital.
A expressão "brain rot", frequentemente usada para descrever a deterioração do estado mental ou intelectual, resultante do consumo excessivo de conteúdos digitais superficiais, destaca um fenómeno preocupante na sociedade contemporânea. Este conceito tem ganhado relevância, sobretudo entre os jovens, devido à exposição constante a estímulos rápidos e efémeros proporcionados pelas redes sociais e plataformas digitais (Carr, 2020).
Neste contexto, a escola assume um papel essencial no desenvolvimento de competências críticas e na promoção de hábitos de aprendizagem que combatam esta deterioração cognitiva.
O "brain rot" manifesta-se pela diminuição progressiva da capacidade de concentração, pelo enfraquecimento do pensamento crítico e pela preferência por conteúdos instantâneos e simplificados. Este uso intensivo de meios digitais afeta significativamente funções cognitivas essenciais, incluindo a memória, a compreensão textual e a capacidade de leitura profunda (Wolf, 2018). Estudos sugerem que, em contextos educativos, estes efeitos são amplificados, tornando urgente uma abordagem pedagógica inovadora e adaptada à realidade digital (Bavelier et al., 2010).
O papel transformador da escola e a importância das bibliotecas escolares
A escola tem a missão fundamental de implementar estratégias inovadoras que consigam evitar esta deterioração cognitiva, nomeadamente através da criação de projetos multidisciplinares, que devem assentar em quatro eixos fundamentais.
1. O desenvolvimento do pensamento crítico constitui o primeiro pilar. Num mundo onde a informação é abundante, mas frequentemente superficial, a capacidade de análise, reflexão e questionamento torna-se crucial. Os projetos multidisciplinares, ao estabelecerem relações entre diferentes áreas do saber, ajudam os alunos a desenvolver uma compreensão mais profunda e contextualizada do conhecimento. Nestes projetos, os alunos devem ser protagonistas do seu próprio processo educativo, pois só assim se estimula o raciocínio e a capacidade de resolução de problemas.
2. O fomento da leitura e da escrita representa o segundo eixo estratégico. A leitura aprofundada de textos literários desenvolve a capacidade de concentração prolongada e a compreensão de narrativas complexas, contrastando com o consumo fragmentado de informação característico das redes sociais. Através de programas de leitura extensiva, os alunos mergulham em obras que expandem os seus horizontes e estimulam a imaginação. A escrita, por sua vez, desenvolve nos alunos a capacidade de estruturar pensamentos, articular ideias e expressar-se com clareza e originalidade.
3. A literacia da informação e dos media é o terceiro pilar. Numa era de desinformação e sobrecarga informativa, a capacidade de avaliar criticamente as fontes e discernir informação credível torna-se uma competência vital. A utilização ética da informação cultiva a responsabilidade e o respeito pela propriedade intelectual, contribuindo para um uso mais consciente e crítico dos recursos digitais.
4. Por fim, a integração pedagógica da tecnologia completa esta abordagem multidisciplinar. Em vez de um consumo passivo e potencialmente prejudicial das tecnologias digitais, promove-se a sua utilização criativa e construtiva. Através do desenvolvimento de projetos digitais significativos os alunos deixam de ser meros consumidores para se transformarem em criadores de conteúdos. Esta abordagem fomenta uma relação mais saudável e produtiva com a tecnologia, sendo as ferramentas digitais utilizadas como meios de expressão, aprendizagem e resolução de problemas, em vez de meros instrumentos de entretenimento passivo.
A biblioteca escolar como centro de inovação pedagógica
As bibliotecas escolares assumem um papel determinante na implementação destes projetos multidisciplinares, destacando-se como verdadeiros centros de inovação pedagógica (IFLA, 2015) que contribuem para a promoção de aprendizagens significativas. A sua atuação estratégica desdobra-se em várias dimensões interligadas, que se reforçam mutuamente para criar um ambiente de aprendizagem rico e estimulante.
Os programas de promoção da leitura, que caracterizam o dia-a-dia das bibliotecas escolares portuguesas, criam experiências literárias verdadeiramente transformadoras, fomentando comunidades de aprendizagem onde os alunos desenvolvem não apenas a compreensão literária, mas também competências sociais e emocionais através do diálogo e da partilha de interpretações.
A formação em literacia informacional e mediática é, também, uma área de trabalho crucial das bibliotecas escolares. Os programas estruturados nesta área não se limitam a ensinar técnicas de pesquisa, desenvolvendo um conjunto integrado de competências que permitem aos alunos avaliar criticamente a informação, compreender a sua relevância e utilizá-la de forma ética e eficaz.
O desenvolvimento criterioso das coleções é também uma das áreas a considerar. A biblioteca deve oferecer um acervo diversificado e cuidadosamente curado que responda às necessidades cognitivas e aos interesses dos diferentes níveis de ensino. A criação de núcleos temáticos alinhados com o currículo permite estabelecer pontes naturais entre os conteúdos programáticos e recursos complementares que aprofundam e enriquecem a aprendizagem.
A integração efetiva da biblioteca no currículo escolar representa o elemento catalisador que potencia todas estas dimensões. A planificação colaborativa entre os professores bibliotecários e os docentes das várias áreas curriculares cria sinergias que enriquecem o processo de ensino e de aprendizagem.
O combate à deterioração cognitiva - “brain rot” - exige, assim, uma abordagem sistémica que mobilize toda a comunidade educativa. O desenvolvimento de programas estruturados de literacia, a articulação efetiva entre a biblioteca escolar e o currículo e a criação de ambientes de aprendizagem estimulantes constituem pilares fundamentais desta estratégia. O sucesso desta abordagem educativa depende do compromisso coletivo na construção de uma escola que promova o desenvolvimento de mentes ágeis, críticas e preparadas para os desafios contemporâneos.
Alunos da Escola Secundária Campos Melo, Covilhã contribuem para inovar e transformar a vida da biblioteca escolar
A Escola Secundária Campos Melo, fundada por Decreto de 3 de janeiro de 1884, nasceu para responder às necessidades das indústrias locais. O patrono da instituição, José Maria da Silva Campos Melo, cedeu provisoriamente uma casa para que as aulas se iniciassem ainda em 1884. Desde então, a escola tem evoluído, adaptando-se às mudanças sociais e tecnológicas. Reconhecida nacionalmente, celebra um percurso de formação marcado pela diversificação da oferta educativa e pela aposta na inovação.
Com um lema que reflete orgulho no passado e compromisso com o futuro, a ESCM continua a investir no ensino científico, tecnológico, artístico e profissional. A par de uma longa tradição de colaboração com a comunidade, a escola tem promovido uma internacionalização progressiva, oferecendo oportunidades enriquecedoras a alunos e professores.
Este espírito transformador ecoa no recente projeto de reestruturação da Biblioteca Escolar, onde a tradição e a modernidade convergem e os alunos assumem um papel central na construção de um futuro que honra as raízes históricas da ESCM, promovendo a inovação e o conhecimento.
A Biblioteca Escolar cumpre, na génese da sua criação, o conceito de trabalho colaborativo e a verdadeira noção de que se projeta para um bem comum em que alunos, professores e assistentes operacionais cooperam na construção de um ambiente acolhedor, inovador e capaz de promover de forma eficaz as competências do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. Na Biblioteca Escolar, a tónica é colocada no aluno enquanto ser completo que responda às exigências do século XXI, centrado num mundo em constante alteração.
Contudo, pressupostos novos não se compadecem com lugares mais ultrapassados. O espaço físico em que se movimentam diariamente centenas de alunos precisa de se mostrar adequado e capaz de atrair a atenção, o gosto, a procura de todos como um lugar de eleição. Foi precisamente aqui que surgiu o desafio de alteração/ reestruturação do espaço da Biblioteca, lançado pelo Coordenador Interconcelhio, e muito bem acolhido pela Senhora Diretora da Escola Secundária Campos Melo, Drª Isabel Fael, e pela Professora Bibliotecária, Maria da Luz Coelho.
Rapidamente se concebeu uma nova planta, com o devido apoio da equipa da Biblioteca e suportado por uma mais-valia da escola – os alunos dos cursos profissionais.
De facto, o homem sonhou e a obra nasceu. Em apenas uma semana de intenso trabalho, um elevado número de alunos de várias áreas profissionais, acompanhados pelos seus professores, lançaram mãos à obra ininterruptamente, não medindo esforços para alcançar o que se propunham realizar. Durante uma longa, cansativa e frutuosa semana, destaca-se a total dedicação e envolvimento dos alunos do Curso Profissional de Técnico Administrativo no desbaste e reorganização do fundo documental, bem como dos professores que os acompanharam. Realça-se, ainda, a entrega dos alunos dos Cursos Profissionais de Técnico de Manutenção Industrial – eletromecânica e mecatrónica, orientados pelos professores das áreas técnicas nas instalações informáticas e cablagem. Não menos importante foi o empenhamento das assistentes de biblioteca que, diariamente, primam pelo bom funcionamento deste espaço. Todos colaboraram na reorganização de estantes e instalação de cadeiras e mesas, libertando todas as janelas anteriormente tapadas com as estantes.
O comprometimento dos alunos, o seu sentido de responsabilidade e de pertença foram elogiados por toda a comunidade escolar que assistiu aos trabalhos que pareciam, inicialmente, incomportáveis no tempo e no processo. E do caos que se instalou nessa semana nasceu a ordem, uma nova ordem, um novo espaço, mais jovem, mais moderno, mais luminoso e, como se pretendia, muito mais frequentado.
Os livros que sempre lá estiveram, mas poucas vezes eram vistos são agora requisitados e lidos. As mesas, muitas vezes vazias e escondidas, são agora motivo de disputa entre grupos de alunos. A Biblioteca Escolar passou a ser o centro da escola, o coração onde pulsa vida, onde se fazem palestras e nascem projetos. Na voz dos alunos e de toda a comunidade escolar, aqui nasceu um novo espaço de felicidade. Agora, vale a pena estar na Biblioteca Escolar!
Num momento em que as prioridades da Rede de Bibliotecas Escolares para 2024-2025 se centram na consolidação da leitura, escrita e oralidade, a “nova Biblioteca” reforça o seu papel essencial no desenvolvimento destas competências. A renovação do espaço veio criar um ambiente que promove o gosto pela leitura, incentivando os alunos a cultivarem hábitos que perduram, enquanto se envolvem em práticas que estimulam a expressão criativa e crítica. Este compromisso traduz-se numa abordagem estruturada, desenhada para integrar os mais relutantes e motivar os que já abraçam a leitura.
Além disso, ao apostar na literacia da informação e dos media, a Biblioteca não só proporciona aos alunos ferramentas essenciais para navegarem no mundo digital com segurança e responsabilidade, como também contribui para formar cidadãos conscientes, empáticos e preparados para o futuro.
Este espaço revitalizado é mais do que um lugar para aprender – é um espaço de transformação que encoraja o pensamento crítico, a colaboração e a expressão plena do potencial humano, alinhando-se, assim, com as prioridades do Quadro Estratégico 2021-2027 da Rede de Bibliotecas Escolares.
por Maria José Gonçalves Fonseca Pereira, Professora Bibliotecária, AE D. Maria ll, V. N.Famalicão
O ecossistema educativo é um espaço vivo, onde a aprendizagem transcende os limites da sala de aula, envolvendo múltiplos atores e cenários. Nesse contexto, a biblioteca escolar emerge como um elemento essencial, com um papel transformador na promoção de novos percursos de aprendizagem.
A biblioteca D. Maria II, após um processo de revitalização e modernização, com o apoio da direção e da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), através da candidatura ao “(re)criar a biblioteca”, destaca-se como um centro dinâmico e multifuncional. Com um ambiente renovado reflete mudança, criatividade e abertura para experiências educativas diversificadas.
Enquanto espaço em constante transformação, verifica-se que a presença diária de alunos afirma a sua relevância contínua. Mais do que um lugar de consulta, configura-se como um palco para atividades integradoras entre professores e alunos. Adaptada às variadas demandas do ecossistema educativo, consolidando-se como um ambiente que promove não apenas a aquisição de conhecimento, mas também o desenvolvimento de competências criativas e tecnológicas. O envolvimento dos alunos no enriquecimento de um fundo documental diversificado, sugerindo títulos que correspondem aos seus interesses, reforça uma relação de pertença e estimula a leitura. Além disso, responde a múltiplas funções: estudo individual e em grupo, pesquisa, realização de trabalhos escolares, exibição de filmes, participação em clubes, aulas de apoio e até o uso responsável de dispositivos móveis. Esta versatilidade demonstra um contributo, profundamente relevante, na integração de novas dinâmicas de aprendizagem equitativa e inclusiva.
No que toca à inovação e integração de outras competências, a biblioteca D. Maria II também se destaca por ser um serviço multimodal: projetos, palestras, concursos e exposições que promovem, não apenas o saber convencional, mas também as competências essenciais, como a literacia digital, dos média, fílmica e informacional. Eventos como encontros com escritores, feiras do livro e iniciativas, associadas a diferentes projetos e parcerias, proporcionam aos alunos a oportunidade de expressarem as suas opiniões, defenderem ideias e desenvolverem habilidades críticas e democráticas.
Se por um lado a educação para o digital, promotora de uma cidadania consciente, posiciona a biblioteca num patamar crucial na formação de cidadãos digitais responsáveis, onde os alunos são orientados a usar os dispositivos móveis, em particular o smartphone, de maneira equilibrada e ética. Por outro lado, o compromisso com a formação integral decorre do trabalho colaborativo entre a equipa da biblioteca e a comunidade educativa refletindo um posicionamento atento num processo iterativo de construção coletiva. Cada atividade realizada não enriquece apenas os alunos, mas também reafirma a missão dinâmica e transformadora, comprometida com a formação de cidadãos críticos, conscientes e preparados para enfrentar os desafios do conhecimento.
A narrativa estaria incompleta sem expressar a minha gratidão às assistentes operacionais, à equipa da biblioteca, aos professores que colaboram ativamente, à direção e aos meus colegas bibliotecários.
Juntos, somos muito mais do que as palavras podem descrever.
Agradeço à RBE e ao meu Coordenador, a oportunidade de partilhar este breve registo.
Boas Festas!
Maria José Gonçalves Fonseca Pereira Professora Bibliotecária Agrupamento de Escolas D. Maria ll, V. N.Famalicão
Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.
Nas profundezas silenciosas da Biblioteca Escolar da Escola Secundária João de Deus, em Faro, ecoa um apelo ao passado. Como um explorador em busca de tesouros esquecidos, deparamos com a preciosidade que é a nova mostra bibliográfica dedicada à obra Os Lusíadas, de Luís de Camões. Aqui, entre capas amareladas e margens desgastadas pelo tempo, descobrem-se edições antigas, raras, originais e fac-similadas, que contam histórias de séculos de formação e contacto com esta obra identitária dos portugueses.
A exposição reúne edições que datam de 1919 a 1977, encontradas no acervo de livros antigos desta biblioteca, cuja própria história é um tributo à memória coletiva. Parte dessas obras foi generosamente doada por mecenas e amigos da biblioteca ao longo dos anos, enquanto outras pertencem ao fundo da biblioteca do antigo Liceu João de Deus, um tesouro cuja origem remonta à criação do Liceu Nacional de Faro, instituído por decreto de Sua Majestade a Rainha D. Maria II em 3 de janeiro de 1851.
Nos tempos em que o livro era a mais avançada das tecnologias, e apesar da escola ainda não ser acessível a todos, estas edições de Os Lusíadas eram ferramentas indispensáveis na educação de milhares de alunos. Os versos épicos de Camões, cantando os feitos heroicos dos navegadores portugueses, não só moldaram gerações de estudantes, mas também terão servido de alicerce para a compreensão da identidade nacional.
Cada exemplar exposto é um artefacto único, não apenas pelas marcas do tempo, mas pelo contexto histórico e pedagógico que representam. Estas páginas, que outrora passaram pelas mãos de jovens ávidos de conhecimento, agora repousam como testemunhos vivos de um Portugal que nunca deixou de se inspirar na força do espírito camoniano.
A exposição na Escola Secundária João de Deus é mais do que um tributo ao passado; é uma convocação ao presente para não deixar morrer a memória e os artefactos que moldaram a nossa história. O visitante, ao percorrer esta mostra, não apenas admira livros, mas também participa num reencontro com os valores que definem a essência de Portugal.
Venha redescobrir estas relíquias literárias e deixe-se envolver pelo eco dos versos de Camões, que, tal como os navegadores, atravessaram séculos para continuar a guiar-nos. Afinal, como o próprio poeta escreveu: “Cantando espalharei por toda parte,/ se a tanto me ajudar engenho e arte.”
A exposição, acompanhada de um catálogo impresso , está patente na Biblioteca Escolar da Escola Secundária João de Deus até 28 de fevereiro, aberta a todos os que a desejem visitar, e promete ser um marco na valorização do legado literário e histórico da obra épica de Luís Vaz de Camões.
Este é o oitavo de um conjunto de artigos que divulga e reflete sobre o Relatório de Tendências da IFLA 2024.
Este relatório procura fornecer as ferramentas, as estruturas, a inspiração e a energia necessárias para que as bibliotecas e os profissionais da informação enfrentem o futuro com otimismo. Apresenta sete tendências. Hoje dedicamo-nos à tendência 7.
A criação de locais de partilha de espaço e recursos é fundamental para a construção de uma sociedade equitativa
As conexões comunitárias são fundamentais para a saúde e o bem-estar, destacando a Organização Mundial da Saúde (OMS) o isolamento social e a solidão como prioridades globais. Num contexto em que grande parte das interações ocorre online, há uma procura crescente por experiências presenciais e significativas de âmbito local. Esse movimento é impulsionado pelo aumento do trabalho remoto e leva as pessoas a procurar formas autênticas, criativas e divertidas de interação com os outros.
As comunidades locais proporcionam sentido de pertença, identidade partilhada e coesão social, fatores muitas vezes ausentes em ambientes mais amplos, marcados por divisões políticas e sociais. Iniciativas realizadas no próprio território, sejam digitais sejam de base local, podem fortalecer laços entre diferentes gerações, criar memórias coletivas e ampliar a diversidade de vozes envolvidas, melhorando a coesão social.
Oportunidades
Construção do sentido de pertença à comunidade
Diminuição do isolamento social e da solidão
Melhoria dos resultados em matéria de saúde através do acesso à informação e das ligações à comunidade
Ligações intergeracionais e partilha de conhecimentos
Desafios
Enfraquecimento do tecido social
Custo de vida
Redução dos serviços presenciais
Recursos para serviços e programas presenciais
Aumento da solidão
Desenvolvimento
O isolamento social é um problema crescente O isolamento social e a solidão, reconhecidos pela OMS, afetam significativamente a saúde física e mental de idosos e adolescentes, com impactos comparáveis ao tabagismo, obesidade e sedentarismo. Com a população envelhecendo, estima-se que metade das pessoas acima dos 60 anos enfrentará algum grau de isolamento, ressaltando a importância de intervenções sob medida para cada indivíduo ou grupo. A pandemia de COVID-19 e o aumento do partidarismo online intensificam a pressão sobre a coesão social. Embora alguns indicadores tenham voltado aos níveis pré-pandemia, sinais como o declínio do orgulho nacional, do sentimento de pertença e da inclusão social indicam fragilidades no tecido social. Nesse contexto, fortalecer comunidades locais e adaptar estratégias de enfrentamento à solidão e ao isolamento tornam-se prioridades urgentes.
Eventos e projetos locais desenvolvidos em colaboração reforçam a resiliência e as capacidades da comunidade Organizações filantrópicas e consultorias globais defendem abordagens locais e específicas a fim de reforçar a coesão social e maximizar recursos em cenários económicos difíceis. Esse enfoque, que envolve negócios, governos, serviços comunitários e infraestruturas sociais (incluindo bibliotecas), fortalece parcerias estratégicas e a capacidade de agir sobre questões amplas, como a educação, a saúde e a revitalização económica. Nesse contexto, as bibliotecas emergem como colaboradoras-chave.
As histórias ligam pessoas e gerações A narrativa intergeracional surge como instrumento de ligação entre diferentes faixas etárias, valorizando o vínculo com o lugar e da partilha de histórias pessoais. Essa prática dá voz a diversas perspetivas, favorecendo um entendimento mais profundo dos contextos locais, reforçando a identidade coletiva e alimentando o sentido de pertença.
Crescimento de comunidades online As comunidades online estão a crescer à medida que as pessoas procuram ligações baseadas em interesses e hobbies. Algumas pesquisas mostram que, em 11 de 15 países, o grupo mais importante para muitos é principalmente online, abrangendo uma diversidade de membros fora das estruturas tradicionais de poder. No entanto, muitos desses grupos são fechados, limitando a circulação de conteúdo e cultura internamente gerados. Durante a pandemia, as comunidades de jogos digitais destacaram-se como forma de reduzir o isolamento social e a solidão. Com a indústria de jogos a manter o crescimento do período pandêmico, espera-se que essas comunidades virtuais continuem a expandir-se, reforçando o seu papel na criação de laços e sentido de pertença online.
Trabalho flexível em espaços flexíveis A experiência forçada do trabalho remoto durante a pandemia trouxe novos modelos de colaboração e produtividade. Apesar disso, muitos CEOs globais esperam que a força de trabalho retorne integralmente ao escritório em até três anos, tornando o trabalho híbrido menos comum. Ainda assim, diante da escassez global de talentos, vários especialistas alertam que valorizar arranjos flexíveis é essencial, uma vez que grande parte dos trabalhadores está disposta a trocar de emprego caso perca essa opção. O trabalho remoto possibilita que as pessoas vivam localmente, fortalecendo ligações sociais e familiares, ao mesmo tempo que a reorganização urbana em resposta às mudanças climáticas exige infraestrutura social adequada. Algumas tendências indicam que a Europa, por exemplo, adotará o trabalho flexível mais rapidamente do que os Estados Unidos, refletindo as novas demandas dos profissionais e da sociedade.
Questões a ter em conta
A tendência para soluções colaborativas para problemas sociais complexos reflete-se nas tendências previstas pela Deloitte para o setor público, segundo as quais haverá um “declínio da ‘teoria da empresa’ e a ascensão da ‘teoria do ecossistema’.
A maioria das organizações individuais vê-se cada vez mais como parte de uma comunidade mais alargada. Porquê trabalhar isoladamente quando se pode obter resultados vantajosos para todos através da colaboração? A dataficação, a digitalização e a conetividade estão a dissolver as fronteiras tradicionais.”
Perguntas
Qual é o papel da biblioteca na resolução de problemas sociais mais vastos, como a exclusão digital, a pobreza e as lacunas na educação?
De que mais precisam as bibliotecas para se tornarem catalisadores para a vida da comunidade?
Os jovens de hoje habitam num mundo que foi transformado pelas tecnologias digitais, permitindo sem esforço a conexão através das redes sociais e o acesso a grandes quantidades de informação. Compreender essa rica e vasta informação e envolver-se com ela, de forma eficaz e responsável, representa todo um conjunto de novos desafios para os educadores, que procuram preparar os jovens como cidadãos plenos, que exercem os seus direitos e participam efetivamente nos assuntos da comunidade.
A Educação para a Cidadania Digital visa, precisamente, capacitar as crianças e os jovens para aprenderem ativamente e participarem na sociedade altamente digitalizada de hoje, através da educação. Trata-se uma abordagem holística que procura desenvolver as habilidades e os conhecimentos essenciais necessários no mundo hiperconectado de hoje e promover os valores e atitudes que garantirão que esses saberes sejam usados, com sabedoria e significado, para:
utilizar eficazmente a tecnologia digital para pensar de forma crítica e agir de forma responsável em linha;
cooperar de forma significativa tanto em linha como fora de linha, contribuindo positivamente para a sociedade;
apreciar outras culturas e as perspetivas de outras pessoas; compreender, proteger e respeitar os seus próprios direitos e os dos outros;
gerir cuidadosamente as suas próprias informações privadas e as informações das pessoas com quem interagem;
continuar a aprender ao longo da vida para se manterem a par das oportunidades e ameaças emergentes.
Entre os desafios exacerbados pela pandemia de Covid-19 e o aparecimento de tecnologias disruptivas como o ChatGPT, as problemáticas que a Educação para a Cidadania Digital procura combater, como a desinformação, o ciberbullying, o discurso de ódio em linha e a utilização indevida de dados pessoais, tornaram-se mais prementes, tornando urgente a necessidade de aumentar os esforços e o investimento na Educação para a Cidadania Digital para capacitar os alunos de todas as idades para enfrentarem os desafios criados ou amplificados pelas tecnologias digitais e aproveitarem os seus benefícios para prosperarem.
Com o objetivo de dar um novo impulso ao desenvolvimento e promoção da Educação para a Cidadania Digital em todos os Estados-membros, em 29 de setembro, na 26.ª sessão da Conferência Permanente de Ministros da Educação do Conselho da Europa, os Ministros da Educação declaram 2025 o Ano Europeu da Educação para a Cidadania Digital.
O Ano Europeu 2025 constitui uma oportunidade para aumentar a visibilidade e o impacto da Educação para a Cidadania Digital e reafirmar o seu valor. Este ano deverá proporcionar uma plataforma estratégica para as principais partes interessadas dos sectores público, privado e civil trabalharem em conjunto, definirem objetivos comuns e partilharem práticas que façam sentido. Proporcionará um espaço conciso mas impactante para medir as conquistas e definir coletivamente um roteiro para o futuro da educação para a cidadania digital. Através de esforços simplificados, espera-se que esta iniciativa impulsione a Educação para a Cidadania Digital, garantindo a sua resiliência e eficácia no cenário digital em constante evolução.
Domínios da Educação para a Cidadania Digital Para enquadrar estas competências no ambiente digital em que os jovens crescem hoje em dia, e com base na investigação de peritos e organizações frequentemente citados neste domínio, foi definido um conjunto de 10 domínios digitais que sustentam o conceito global de cidadania digital.
Estes domínios estão divididos em três áreas:
Estar em linha
O acesso e a inclusão dizem respeito ao acesso ao ambiente digital e incluem uma série de competências relacionadas não só com a superação das diferentes formas de exclusão digital, mas também com as aptidões necessárias para que os futuros cidadãos participem em espaços digitais, abertos a todos os tipos de minorias e à diversidade de opiniões.
Aprendizagem e criatividade refere-se à vontade e à atitude dos cidadãos em relação à aprendizagem em ambientes digitais ao longo da sua vida, tanto para desenvolverem como para exprimirem diferentes formas de criatividade, com diferentes ferramentas, em diferentes contextos. Abrange o desenvolvimento de competências pessoais e profissionais à medida que os cidadãos se preparam para os desafios das sociedades ricas em tecnologia com confiança e de forma inovadora.
A literacia mediática e da informação diz respeito à capacidade de interpretar, compreender e expressar a criatividade através dos meios digitais, enquanto pensadores críticos. A literacia mediática e da informação é algo que tem de ser desenvolvido através da educação e de um intercâmbio constante com o ambiente que nos rodeia. É essencial ir além do simples “ser capaz de” utilizar um ou outro meio de comunicação, por exemplo, ou simplesmente “estar informado” sobre algo. Um cidadão digital tem de manter uma atitude assente no pensamento crítico como base para uma participação significativa e efetiva na sua comunidade.
Bem-estar em linha
A ética e a empatia dizem respeito ao comportamento ético em linha e à interação com os outros com base em competências como a capacidade de reconhecer e compreender os sentimentos e as perspetivas dos outros. A empatia constitui um requisito essencial para uma interação positiva em linha e para a realização das possibilidades que o mundo digital oferece.
A saúde e o bem-estar estão relacionados com o facto de os cidadãos digitais habitarem tanto espaços virtuais como reais. Por este motivo, as aptidões básicas da competência digital não são, por si só, suficientes. Os indivíduos necessitam também de um conjunto de atitudes, aptidões, valores e conhecimentos que os tornem mais conscientes das questões relacionadas com a saúde e o bem-estar. Num mundo digitalmente rico, a saúde e o bem-estar implicam a tomada de consciência dos desafios e oportunidades que podem afetar o bem-estar, incluindo, entre outros, a dependência em linha, a ergonomia e a postura e a utilização excessiva de dispositivos digitais e móveis.
Presença eletrónica e comunicações refere-se ao desenvolvimento das qualidades pessoais e interpessoais que apoiam os cidadãos digitais na construção e manutenção de uma presença e identidade em linha, bem como de interações em linha que sejam positivas, coerentes e consistentes. Abrange competências como a comunicação em linha e a interação com os outros em espaços sociais virtuais, bem como a gestão dos próprios dados e vestígios.
Direitos em linha
A participação ativa diz respeito às competências de que os cidadãos devem estar plenamente conscientes quando interagem nos ambientes digitais que habitam, a fim de tomarem decisões responsáveis, participando ativa e positivamente nas culturas democráticas em que vivem.
Os direitos e responsabilidades são algo de que os cidadãos usufruem no mundo físico, e os cidadãos digitais no mundo em linha também têm certos direitos e responsabilidades. Os cidadãos digitais podem usufruir de direitos de privacidade, segurança, acesso e inclusão, liberdade de expressão e outros. No entanto, com esses direitos vêm certas responsabilidades, como a ética e a empatia e outras responsabilidades para garantir um ambiente digital seguro e responsável para todos.
A privacidade e a segurança incluem dois conceitos diferentes: a privacidade diz respeito principalmente à proteção pessoal da informação em linha própria e alheia, enquanto a segurança está mais relacionada com a consciência que se tem das ações e comportamentos em linha. Abrange competências como a gestão da informação e questões de segurança em linha (incluindo a utilização de filtros de navegação, palavras-passe, software antivírus e firewall) para lidar com situações perigosas ou desagradáveis e evitá-las.
A sensibilização dos consumidores está relacionada com o facto de a World Wide Web, com as suas amplas dimensões, como as redes sociais e outros espaços sociais virtuais, ser um ambiente em que, muitas vezes, o facto de ser um cidadão digital significa também ser um consumidor. Compreender as implicações da realidade comercial dos espaços em linha é uma das competências com que os indivíduos terão de lidar para manterem a sua autonomia enquanto cidadãos digitais.