Destaque à obra de Joana Bértholo, talentosa escritora portuguesa
Iniciamos este novo ano, dando destaque à obra de Joana Bértholo [1], uma talentosa escritora portuguesa. Cada livro [2] desta jovem escritora é uma surpresa, das inesquecíveis. A sua escrita percorre diferentes géneros: romances, livros infantis, peças de teatro, ensaio, entre outros. A sua escrita rompe com o cânone tradicional, misturando diferentes estilos narrativos, tempos e espaços, oferecendo ao leitor uma experiência ímpar de leitura.
Talvez estas sejam boas razões para justificar a presença da obra de Joana Bértholo nas bibliotecas escolares. Os seus livros devem saltar das estantes e circular de mão em mão, dando o mote a diálogos filosóficos, clubes de leitura, debates ou sendo fonte de inspiração para ateliês de escrita ou para ler, simplesmente, pelo gosto de ler.
Os jovens leitores e os leitores mais entusiastas, beneficiam em conhecer esta inovadora forma de narrativa, de ficcionar e de questionar o mundo que nos rodeia.
Aos professores bibliotecários que não conhecem a obra desta escritora sugerimos que a descubram e que se deixem encantar; aos que já a conhecem sugerimos que divulguem os diferentes títulos, incluam nas sugestões de leitura e nas atividades da biblioteca.
A leitura, a palavra e as bibliotecas habitam nas variadíssimas páginas escritas por Joana Bértholo, vejamos este excerto:
“Nestes livros, cheios de ideias grandes, deleitava-me. Menos atraentes eram os romances. Mesmo assim, esforcei-me por lê-los, pois percebi que era por estes que o Bibliotecário guardava mais apreço. Empregava a palavra «literatura» como se fosse um bem maior.”
O bibliotecário é tratado com apreço, com muita estima:
“(…) O Bibliotecário fazia perguntas, e o que eu respondia informava a sua sugestão seguinte, ou várias sugestões depois, quando eu já me tinha esquecido. Às vezes, antecipava-se. Percebia o que eu queria mesmo antes de eu o saber. O Bibliotecário era um farol.”
Estes excetos fazem parte deste precioso pequeno, grande livro:
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Ler Joana Bértolo é abraçar as palavras - desafio; escuta; pensamento e criatividade.
Haverá maior repto do que escrever um livro de pequenos contos onde todos começam com a palavra “Havia” ?
HAVIA é uma compilação de contos curtos e frequentemente absurdos, divertidos e bem-humorados. De falam estes contos? Dos mais variados assuntos. De temas mais existenciais aos mais mundanos sempre de forma singular.
“Havia uma história circular que queria ser reta. Portanto, arranjemos-lhe um fim diferente:
Quando ele parou de ler e pousou o livro na mesa de cabeceira apercebeu-se de que lá fora tinha escurecido. “
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Ousaríamos sugerir que este é um bom livro para divulgar junto de alunos que gostam de contos divertidos, mas também dos alunos que não apreciam leituras longas.
Ousaríamos mais!
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Ousaríamos sugerir que nos clubes de escrita, que possivelmente existem nas bibliotecas, convide os alunos a escrever contos curtos… inspirados no Havia. E se todos os contos começassem por “Houve” ou se todos os inícios fossem “Possivelmente” ou …. [Dê asas à sua imaginação!]
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Museu do Pensamento [3] é um livro perguntador. Um livro indutor de muitos diálogos e reflexões.
Já tentaste não pensar? O que aconteceu? Pensas mais sobre o passado ou o futuro? O que fazes com os pensamentos feios? E o sonho, é uma forma de pensar? Para que servem os círculos quadrados?
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É um livro graficamente bonito. Belo. Talvez fosse uma boa ideia divulgar as ilustrações, pela biblioteca, e solicitar que a partir delas se fizessem perguntas, afinal perguntar é uma arte que nos ajuda a escutar o pulsar do mundo e do nosso pensamento. Vamos transformar as nossas bibliotecas em verdadeiros espaços perguntadores?
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A propósito de perguntas: Sabem o que é Cavalo-Marinho? O que sabem a sobre estes magníficos animais? “Sabias que troca de cor para se confundir com as algas e com os corais? Que, quando acasalam, macho e fêmea gostam de enrolar a cauda um no outro? E que é o macho que fica grávido?” Talvez na biblioteca escolar se encontre disponível este precioso livro Pequeno e Precioso. O Cavalo-Marinho.
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E se convidássemos os professores de ciências e alunos a pesquisarem sobre este maravilhoso animal, o Cavalo-Marinho?
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E se convidássemos os professores de educação visual e respetivos alunos a observarem e a desenharem cavalos-marinhos? E se no final, todos os desenhos fossem expostos na biblioteca?
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Talvez este seja o livro mais conhecido de Joana Bértholo.
“- Mãe, as palavras têm prazo de validade?
- Que eu saiba não, ainda não.
- Em breve vão ter, não vão? Porque as palavras agora são coisas e a maioria das coisas tem um prazo de validade. […]
- Ó mãe, e o que vamos fazer quando uma palavra expirar?
- Sei lá. Terás de comprar uma mais recente.”
Joana Bértholo, Ecologia
Ecologia é um livro reflexivo, incómodo, complexo, assustador, questionador, provocador e inovador. Mas também irónico, corrosivo, amargo e divertido. Numa só palavra: brilhante! As histórias cruzadas, as personagens dispersas, mas entrelaçadas, a mescla de estilos narrativos e diferentes artes, a reflexão sobre os limites da linguagem e as questões da incomunicabilidade fazem com que este livro se torne numa experiência ímpar de leitura. São partilhadas com o leitor citações, informações, segredos escondidos em códigos QR que vão surgindo ao longo das páginas, induzindo uma oscilação nos ritmos de leitura e afirmando formas de comunicar distintas.
Ecologia é um romance (será mesmo um romance?) singular, inovador, e primorosamente desenhado. Exibe uma estrutura completamente diferente das habituais. O fio condutor, sempre presente, mesmo quando ao leitor parece inexistente, revela vários cenários, diferentes vidas, olhares distintos que se entrelaçam, criando uma narrativa una.
O poder totalitário, a inovação tecnológica, os sonhos, os medos, a humanidade, os dilemas surgem como assuntos de reflexão, mas é a palavra que desempenha o papel principal. É de palavras que se fala em Ecologia. Palavras que ecoam num novo tipo de sociedade – de cariz económico, onde tudo se compra e vende, até as palavras. Terão as palavras prazo de validade? Conseguirá o dinheiro comprar palavras? Será possível a “privatização da linguagem”? Serão as palavras privatizáveis? Afinal, qual o poder das palavras?
Ecologia é livro que induz o pensamento crítico, estimula o pensamento e a construção de argumentos e aguça a curiosidade. É um livro perguntador, que nos inquieta e que nos coloca perguntas. Muitas. Imensas. Assinalamos algumas: "Sentimos emoções para as quais não temos nome? ", “O mundo ia ser diferente se eu aprendesse palavras diferentes para as mesmas coisas?"
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O que faremos com tantas perguntas? – Oferecemos, sugerindo que reflitam. Levamos para a aula de Filosofia. Ou para a aula de Português – haverá melhor local para refletir sobre a questão: “Uma língua órfã pode ser adotada? “, "Como se diz uma palavra impronunciável? “
A propósito da aula de Língua Portuguesa, recordemos o último título escrito pela Joana Bértholo:
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Imaginem que dão a conhecer a obra de Agustina Bessa Luís, mas esta não desperta muito interesse e curiosidade. Nesta situação, talvez fosse bom experimentar dar a conhecer Augusta B., a jovem de 22 anos que nunca tinha lido Agustina, mas esta foi decisiva para a sua vida pessoal.
Curioso é descobrir que a força e a singularidade de Agustina são descobertas não pela literatura, mas pela sua vida. Talvez por detalhes da sua vida, mas que fizeram a diferença. Nesta novela, conhecemos duas mulheres em tempos dissemelhantes, mas em espaços idênticos. E, se estas mulheres se cruzassem? Que diriam uma à outra?
Não será este o poder da literatura? De cruzar tempos e espaços, oferecer múltiplas leituras, fomentar a reflexão e ampliar os nossos horizontes?
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E, se a nossa escola tiver a disciplina de Teatro? Ou integrar a rede de escolas do Plano Nacional das Artes? Nesse caso aconselharíamos que lessem, explorassem e descobrissem com atenção estes dois títulos.
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“Ella Bouhart, coreógrafa consagrada, vive num sexagésimo quarto andar, no centro de uma metrópole, de onde avista um enorme jardim, ao fundo do palco, observa a cada dia as diferentes tonalidades de um lago. Esse lago representa o seu horizonte, até onde não é capaz de ir, os territórios da sua vida que se sente incapaz de ocupar. Isso, e o seu avesso.” O Lago Avesso
Inventário do Pó é um livro singular. “A cada um dos 18 temas do álbum de música eletrónica "Um Argentino no Deserto", de René Bertholo, corresponde um conto. Os contos começam quando o pintor começa, em 1935, e seguem uma cronologia que se aproxima e afasta da vida dele, das pessoas em torno dele, das obras que criou, das obras que o marcaram, e dos momentos coletivos que a sua história individual intercetou. Os contos acabam quando o pintor acaba, e a música para de tocar, mas o legado do que nos deixou, perdura. Perdura também a memória do seu brincar, nas narrativas dos amigos próximos com quem a autora conversou. É isso, arte e amizade, o que continuará a dar origem a outras coisas. Este livro é uma dessas outras coisas.”
A sua escola é uma Escola aLer mais e melhor?
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Sugira que a disciplina de Educação Física e/ ou o Clube da Saúde contribuam para elevar os índices de leitura e fomentem momentos de reflexão com a leitura deste pequeno ensaio sobre o desporto.
O treino. “Madrugar, treinar, suportar as dores musculares, testar e superar limites, treinar mais e mais, para, talvez um dia, subir ao pódio. Quando os melhores desportistas portugueses competem a nível internacional, carregam nos ombros as expectativas de todos e, no entanto, poucos conhecem as exigências do seu quotidiano e o avesso das suas glórias.
A partir das memórias de uma ex-atleta de natação e triatlo, este livro retrata experiências comuns, positivas e negativas, dos desportistas de alta competição, dos anos 1990 até hoje. O eixo destas vivências é o treinador, que dita tarefas, tempos e objetivos, numa relação formativa, por vezes também destrutiva, que visa a auto-superação e, sempre, o máximo de rendimento e ambição.”
Outros livros de Joana Bértholo:
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Notas
- Joana Bértholo nasceu em Lisboa, em 1982. Estudou design gráfico em Lisboa e estudos culturais na Universidade Europeia Viadrina em Frankfurt (Oder). Foi voluntária da Eloisa Cartonera em Buenos Aires e participou em diversos países em performances ligadas à literatura, arte do livro, ecologia e design.
- Em 2010 publicou o seu primeiro romance, Diálogos para o Fim do Mundo, a que se seguiu Havia em 2012, adaptado várias vezes para teatro no Brasil, e o romance O Lago Avesso em 2013. Seguiu-se Inventário do Pó, livro de contos. Em 2018, O Museu do Pensamento foi eleito Melhor Livro Infantil pela Sociedade Portuguesa de Autores. O seu romance, Ecologia, foi finalista dos mais prestigiados prémios em língua portuguesa (Associação Portuguesa de Autores, PEN clube, Correntes D’Escritas, DST; e semi-finalista do Prémio Oceanos), seguiram-se outros títulos.
- Este livro nasce de uma peça de teatro escrita para as Chapelarias Azevedo Rua na edição de 2014 do Festival Teatro das Compras, com Giacomo Scalisi e Miguel Fragata. Foi vencedor do Prémio da Sociedade portuguesa de Autores 2018 para melhor livro infanto-juvenil e vencedor do Prémio de Literatura infanto-juvenil do festival literário de Fátima.
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* Júlia Martins
Acredita no poder da leitura. Dar a ler é um desafio que gosta de abraçar. É leitora e frequenta, de forma assídua, Clubes de Leitura. Saiba mais
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