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Blogue RBE

Qui | 16.05.24

UNESCO: Educação para o Desenvolvimento Sustentável

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To shape peaceful, just, and sustainable futures, education itself must be transformed.
UNESCO, 2021, p. 1.

A.

A concretização da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e os seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (NU, 2015) exige uma transformação na forma como pensamos e agimos.

Para transformar a realidade, temos primeiro de nos transformar a nós próprios pela educação (UNESCO, 2021).

B.

A Educação para o Desenvolvimento Sustentável/Education for Sustainable Development (ESD) é o programa de educação da UNESCO alinhado com a Agenda 2030 e que deverá ser posto em prática até 2030.  Concebido como um meio importante para alcançar todos os ODS, é explicitamente mencionada no ODS 4.7 (UNESCO, 2017).

A “UNESCO tem promovido a educação para o desenvolvimento sustentável como vital e necessária para fornecer os conhecimentos, as competências, as atitudes e os valores que permitam aos alunos tomar decisões informadas e ações responsáveis para a integridade ambiental, a viabilidade económica e uma sociedade justa” (Secretary-General, 2017, p. 15).

No relatório 2017 sobre a implementação da EDS, destacam-se 5 pontos (Secretary-General, 2017, pp. 15-17):

  1. O desenvolvimento sustentável é “um estilo de vida específico com um compromisso com certos valores”, pelo que o conhecimento que dele resulta não é neutro/imparcial;

  2. Exige “envolvimento significativo dos jovens”, os quais “não devem continuar a ser vistos como beneficiários de ações, mas como atores, agentes de mudança e parceiros envolvidos de forma significativa na sua conceção, implementação e acompanhamento. Para que a educação para o desenvolvimento sustentável seja relevante, deve ser constantemente adaptada de acordo com o contributo dos jovens” - centrada no aluno;
  1. Adota “abordagens holísticas e humanistas”, devendo “esforçar-se por transformar a educação para além dos conhecimentos e competências e promover valores e atitudes conducentes a escolhas sustentáveis”.

    Neste contexto, Portugal adota o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (2017) e a OCDE propõe um Quadro de Competências Globais (PISA 2018), estabelecendo que a Competência Global é uma combinação de 4 dimensões - resolução de problemas, compreensão das perspetivas; interação entre diferenças culturais e ação – e cada dimensão combina conhecimentos, competências, atitudes e valores.

    Segundo a OCDE, as Competências Globais devem ser aplicadas a questões globais e interculturais e traduzem a visão e ajudam à concretização da Agenda 2030 e encorajam os jovens a agir no interesse comum do bem-estar coletivo. Alunos globalmente competentes exploram questões locais, globais e interculturais, adotam diferentes perspetivas, compreendem diferentes visões do mundo e agem em prol da sustentabilidade e do bem-estar comum.

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Fonte da imagem: OECD, 2018.

  1. Os professores devem incorporar na educação os progressos tecnológicos e a educação não formal e informal e concentrar-se “no desenvolvimento de competências de pensamento crítico e da ‘pessoa no seu todo’ [whole person]” - “Na era da Internet, a aprendizagem pode ter lugar em qualquer lugar e a qualquer momento, tornando-se os próprios alunos os agentes centrais de obtenção e análise da informação”;
  1. Adota uma abordagem de cidadania (citizenship approach), significativa, baseada em exemplos reais e parcerias locais e integrada, em que “A esfera da vida na e para a comunidade, para além da sala de aula, está a tornar-se uma importante plataforma de ação para a educação para o desenvolvimento sustentável”.

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Fonte da imagem: UNESCO, 2017.

O guia Education for Sustainable Development Goals: Learning objectives (UNESCO, 2017) identifica, para cada ODS, objetivos e sugere tópicos e atividades de aprendizagem para diferentes níveis.

Exemplos de atividades para alcançar, por exemplo, o ODS 2. Erradicar a fome: “Organizar excursões e visitas de estudo a locais onde se pratica uma agricultura sustentável; acompanhar os alimentos do campo até à mesa - cultivo, colheita e preparação dos alimentos, por exemplo, em projetos de hortas urbanas ou escolares; envolver os alunos em ações que liguem o desperdício alimentar a pessoas carenciadas…”.

C.

Portugal e a Educação para o Desenvolvimento Sustentável (EDS)

Na Revisão Voluntária Nacional 2023 sobre os ODS, reconhece-se que “Um dos principais fatores que contribuem para a apropriação da Agenda 2030 por todas as partes interessadas e sectores da sociedade numa abordagem da base para o topo, é a Educação para o Desenvolvimento Sustentável” (República Portuguesa, 2023, p. 28).

Destacam-se 3 referenciais de educação para a transição sustentável: Estratégia Nacional de Educação para o Desenvolvimento (ENED) 2018-2022, Estratégia Nacional de Educação Ambiental (ENEA) 2020 e Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania (ENEC).

A ENEA centra-se em 3 eixos – Descarbonizar, Tornar a economia circular, Valorizar o território – e é referência importante na abordagem do Desenvolvimento Sustentável e da Educação Ambiental, temas obrigatórios da ENEC.

Nota
Este artigo tem continuação em GreenComp da Comissão Europeia que será publicado neste blogue a 22 de maio.

Referências

  1. UNESCO. (2021). Reimagining our futures together: a new social contract for education [p. 1]. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000379707
  2. Secretary-General. (2017). Implementation of education for sustainable development. A/72/130 - 16/17 17-11850. United Nations. https://digitallibrary.un.org/record/1298413?v=pdf
  3. UNESCO. (2017). Education for Sustainable Development Goals: Learning objectives. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000247444
  4. UNESCO. (2024). Educação para o Desenvolvimento Sustentável. Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura https://www.unesco.org/en/sustainable-development/education
  5. OECD. (2018). PISA 2018 Global Competence. Organisation for Economic Co-operation and Development. https://www.oecd.org/pisa/innovation/global-competence/
  6. República Portuguesa. (2023). Voluntary National Review Portugal. https://hlpf.un.org/sites/default/files/vnrs/2023/Portugal_VNR_Report.pdf
  7. 📷 UNESCO, 2017

 

 

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Qua | 15.05.24

Mentores/pares de leitura: práticas para cultivar o prazer e a compreensão da leitura

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No Agrupamento de Escolas da Corga do Lobão, Santa Maria da Feira, no contexto da recuperação das aprendizagens, por via das bibliotecas escolares, foi posto no terreno, desde setembro de 2022, o projeto Mentores de Leitura. Neste contexto, alunos com competências mais avançadas partilham o seu gosto pela leitura com colegas que enfrentam dificuldades, criando estes pares uma rede de apoio que acaba por transcender as páginas dos livros.

No coração deste projeto está a ideia simples, mas poderosa, de que os alunos podem ser excelentes mentores uns dos outros. As bibliotecas escolares do agrupamento divulgaram o conceito deste projeto no agrupamento e a professora bibliotecária trabalhou de forma articulada com os docentes do 2.º ao 6.º ano de escolaridade, os quais, a partir de setembro de 2022, fizeram o diagnóstico das competências de leitura dos alunos. A professora bibliotecária acompanhou ainda a implementação do projeto, monitorizou o seu impacto e prestou apoio na seleção de documentos/livros que fossem ao encontro do desenvolvimento das competências leitoras dos alunos mentorandos.

Assim, fruto do diagnóstico dos professores, os estudantes mais proficientes foram emparelhados com colegas que necessitassem de apoio adicional na leitura.

Na prática, os pares de leitura desenvolveram atividade diária, lendo durante 10 minutos, e usando, para tal, uma curadoria específica de livros disponibilizados para sala de aula. Este trabalho ditou a reorganização dos espaços de sala de aula para acomodar o projeto, aproximando fisicamente os pares de leitura. Esta parceria transcendeu a mera leitura e traduziu-se num apoio ativo à compreensão e interpretação textual dos pares menos fluentes, assim se enriquecendo não apenas o processo de leitura, mas, também, a experiência humana de partilha e de crescimento. Nessa medida, criou-se uma atmosfera de colaboração e de empatia, criando ambientes mais inclusivos, além de permitir a partilha de conhecimento e de experiências de leitura entre os pares de leitura.

Matilde, descreve a sua experiência como mentora:

 Líamos em conjunto. Eu lia uma parte e ele lia outra. Muitas vezes, usávamos a técnica de sublinhar quando líamos. Assim, eu ficava a perceber o que ele não entendia e eu explicava.

O mesmo acontece com Letícia, também ela mentora:

A maior parte das vezes, líamos em silêncio e, no final da página, partilhávamos as impressões. Algumas vezes, requisitámos o mesmo livro para ser mais fácil a partilha da leitura.

Joana, mentora, diz ainda:

Eu senti-me muito feliz com este projeto, pois podia ajudar alguém. Senti-me útil.

Tiago, mentor, por sua vez refere:

No início foi difícil adaptar-me, mas agora tenho outras técnicas de explicação para palavras e expressões mais difíceis. Também eu aprendi muito.

Martim, aluno mentorando, reconhece o seu gosto pela experiência, até porque quando não percebia alguma coisa o colega ajudava-o.

Rafael, mentorando, dá-nos uma pista importante:

É mais fácil entender a explicação do meu colega.

E Filipe, igualmente mentorando, confessa que ler em conjunto é mais fixe.  Ele lia em voz alta uma parte e o seu par lia a outra.

Percebe-se que este projeto não só beneficia os alunos que recebem apoio, mas também os mentores. Para eles, a oportunidade de partilhar o seu conhecimento é gratificante. Mais do que isso, os alunos mentores desenvolvem capacidades de liderança, de empatia e de comunicação que os próprios reconhecem como valiosas.

Este projeto que envolveu 18 docentes, 1 professora bibliotecária, 94 mentores e 92 mentorandos, dos 2.º ao 6.º ano do Agrupamento de Escolas da Corga de Lobão. Foi alvo de monitorização, tendo em 2023 registado 13 impactos positivos com a melhoria da nota final na disciplina de Português, consistindo numa melhoria da qualidade do sucesso de 4,41%. Os resultados imediatos podem parecer modestos, mas há indicações de que estas ações perduram no tempo, embora não sejam passíveis de monitorizar com igual facilidade. Contudo, este projeto representa um exemplo de cooperação e de inclusão que tornou a comunidade escolar mais unida na promoção da leitura e no desenvolvimento pessoal dos alunos.

A colaboração entre alunos, mais do que uma estratégia educacional, é uma filosofia de aprendizagem que promove a empatia, a compreensão e o crescimento pessoal. Com cada página virada em conjunto e cada conexão feita, os alunos constroem um caminho em que a leitura é uma ponte para o conhecimento e o entendimento do outro. Atualmente, as parcerias decorrem de forma não estruturada e livre, capitalizando na dinâmica iniciada.

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Ter | 14.05.24

Con.Raízes 2024 - Sentir Abril (continuação)

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Retomamos hoje o relato dos projetos apresentados publicamente no dia 18 de abril, iniciado ontem.

AE Marvão

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Este ano o con.raízes do AE de Marvão foi poesia! “Poesia em abril”.

Os primeiros trabalhos surgiram, com a ação de formação “Diário de escritas”, frequentada pela professora de Português de 3.ºciclo e a professora bibliotecária que, em conjunto com as professoras do AE de Castelo de Vide, desenvolveram o projeto “Vozes de ontem, palavras de agora”. Deste projeto resultou uma faixa de contestação com palavras retiradas do poema “Tejo que levas as águas”, de Manuel da Fonseca e textos poéticos editados numa apresentação digital. Estes trabalhos foram guardados num padlet.

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Vozes de ontem, palavras de agora

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Na biblioteca escolar, organizou-se um encontro com dois utentes da Santa Casa da Misericórdia de Marvão para se falar sobre a Guerra Colonial Portuguesa e sobre o contrabando. Também decorreu uma atividade de leitura e ilustração da história “Abril, o peixinho vermelho”, uma iniciativa conjunta da professora bibliotecária e do professor de EV e ET.

No clube das Letras também se preparou uma pequena dramatização que foi apresentada nas comemorações da escola, no dia 24 de abril.

Quando decorreu o Encontro Con.Raízes, no dia 18 de abril, já muito se tinha feito mas, muito mais se fez ainda para integrar as comemorações do 25 de abril do AE de Marvão.

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con.raízes|2024

Carla Cordeiro, professora bibliotecária

AE Ponte Sor

O tema “Sentir ABRIL” foi apresentado à turma do 3ºC, da Escola Básica João Pedro de Andrade, e foi trabalhado ao longo do ano, em diferentes formatos, sempre com a participação e colaboração inexcedível da Professora Titular, Sandra Martins.
Inicialmente foi feita uma abordagem ao tema de forma a contextualizar os alunos, tendo sido introduzido o tema liberdade. Os alunos prepararam a apresentação dando vida ao tema através da pintura.

A segunda parte da apresentação foi constituída pela declamação de poesias escritas pelos alunos, individualmente, por oito alunos, que, no final, declamaram os seus poemas e formaram a palavra LIBERDADE.

Numa terceira e última fase todos os alunos envolvidos na apresentação foram para o palco onde, dirigidos pelo professor de Música (Prof. Paulo Campos) entoaram a música: “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso.

Esta apresentação, será divulgada aos Pais e Encarregados de Educação da Turma, hoje, dia 15 de maio (Dia da Família), na Biblioteca Escolar, como forma de agradecimento pela colaboração ao longo do projeto.

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VII ENCONTRO CON.RAÍZES 18 DE ABRIL DE 2024, PONTE DE SOR

Paula Valamatos dos Reis e Ana Sofia Marques, equipa da biblioteca escolar

Escola Secundária de Ponte de Sor

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Com base no tema “Sentir Abril”, e no desafio lançado no início do ano letivo - elaborar um conto para integrar uma coletânea de textos dos vários concelhos envolvidos no Projeto Con.Raízes, planeámos e desenvolvemos o nosso trabalho ao longo do ano.

Começámos por envolver as turmas do 7º ano numa atividade interdisciplinar (História, Cidadania e Desenvolvimento, Educação Visual e Português) com o apoio da Biblioteca Escolar. Do trabalho de pesquisa, análise e reflexão sobre o tema pelos alunos, resultou a elaboração de um conto por turma, dos quais foi selecionado um para a coletânea.

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Numa segunda fase, partimos para a criação da antologia, em parceria com a turma do 11ºE de Artes Visuais, que após a leitura e análise dos diferentes contos de cada Agrupamento, realizou a ilustração e o design gráfico. Esta turma também executou uma performance, de apresentação

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da obra no dia 18 de abril, que salientou a importância da liberdade de expressão, com os alunos “amordaçados” e, em seguida, libertados.  A atividade integrou o Plano Nacional das Artes do Agrupamento e o Projeto Cultural de Escola.

O tema “Sentir Abril” foi também abordado em vários momentos, ao longo do ano letivo,  como por exemplo durante a Semana da Leitura, quando houve lugar a leituras emparelhadas, tertúlias, murais e declamações, entre outros. 

Alzira Peixoto Martins, professora bibliotecária

AE Mora

Os intérpretes do projeto A Liberdade Está a Passar por Aqui são 12 alunos do 6º ano que se apropriaram de textos e sonoridades de Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Eugénio de Andrade e Cecília Meireles e se desafiaram a explorar as variadíssimas possibilidades que a arte nos permite.

Este trabalho é desenvolvido na sequência da formação em Expressão Dramática realizada por cinco docentes do Agrupamento de Escolas de Mora, coordenada pelo Centro de Divulgação Artística – Metamorphose e enquadrada pela Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central que financiou o pagamento da formadora Glória Silva.

Desta conjugação de vontades resultou a construção desta performance com o propósito de ser apresentada à comunidade local, aos participantes do VII Encontro Con.Raízes que se realizou em Ponte de Sor no dia 18 de abril, aos alunos do 6º ano da Escola Básica 2/3 Conde de Vilalva em Évora e ainda à população escolar do concelho de Mora.

Fruto da articulação entre a Biblioteca Escolar, Cidadania e Desenvolvimento, Apoio ao Estudo, Educação Musical e com o apoio da comunidade educativa e respetivas famílias, foi possível levar a bom porto este projeto que também pretende contribuir para o aprofundamento de saberes sobre o 25 de abril de 1974 e a interiorização dos fundamentais valores da democracia.

Reafirmamos o agradecimento especial aos convidados Joaquim Lagartixa e Manuela Gama, os dois docentes aposentados, pelos contributos dados e que engrandecem esta apresentação.

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AE Mora no Encontro Con.Raízes24

Ana Maria Dias Alves Amaral, professora bibliotecária

AE Fundão

Após o repto lançado para participar na edição deste ano, subordinada ao tema “Sentir Abril”, o Agrupamento de Escolas do Fundão decidiu envolver todos os docentes e alunos do 8º ano nas disciplinas de Cidadania e Desenvolvimento.

Os mesmos foram desafiados a identificar e explorar  através de dois géneros jornalísticos - entrevista e reportagem -  figuras proeminentes da Cova da Beira que estivessem vivas em abril de 1974. Para o efeito, realizaram um pequeno workshop com Paulo Pinheiro, responsável pela informação da Rádio Cova da Beira.

Os trabalhos realizados foram submetidos pela Biblioteca Escolar aos Jornalistas em Rede, uma iniciativa do Público na Escola, promovido em parceria com a Rede de Bibliotecas Escolares. O trabalho sobre António Guterres foi distinguido como a melhor reportagem deste concurso.

Todos os trabalhos realizados acabaram por estar na origem da peça de teatro apresentada no Encontro Con.Raizes: Colóquios da Cereja. O texto dramático apresenta-nos uma mesa redonda moderada por António Paulouro, fundador do Jornal do Fundão. Entre os convidados encontram-se a fadista Amália Rodrigues, o Secretário-geral da ONU António Guterres, a primeira diretora de um Estabelecimento Prisional em Portugal, Manuela Fernandes e o futebolista César Brito. A peça cruza a vida das personagens com três momentos distintos da História de Portugal: Estado Novo, Revolução dos Cravos e o legado das figuras. O final de cada um desses momentos é abrilhantado por um momento musical da responsabilidade dos alunos do ensino articulado do 9ºA. A peça termina com “Uma casa portuguesa”, de Amália Rodrigues, que procura retratar como o Fundão e Portugal se tornaram terras de acolhimento em pleno século XXI.

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AE Fundão

 

No próximo ano

O projeto Con. Raízes vai evoluir para uma nova fase. Pretendemos organizar anualmente uma Summit Regional de Educação, na qual as escolas apresentarão talks, centradas no tema proposto no início do ano. Cada grupo será composto por até 3 professores bibliotecários e 3 alunos. Durante esta cimeira, para além das talks, decorrerão outras atividades paralelas, como workshops, mostra de produtos e a participação de empresas. O objetivo é criar um ambiente propício à partilha de conhecimentos e à interação entre os participantes, enriquecendo assim a experiência educativa e promovendo a colaboração entre escolas, professores e alunos.

Os meios a utilizar incluirão a plataforma de comunicação e partilha MS TEAMS, já usada pela maioria dos agrupamentos, onde também será possível a criação de uma equipa de específica para o projeto para colocar materiais colaborativos e ainda APPS em open source que permitam a elaboração e produção colaborativa (ex: Canva para a Educação, Pictochart, GAMMA, Chat GPT).

No início do projeto, os temas aglutinadores são apresentados e constituídas as equipas de trabalho. A escolha dos temas partirá do contexto local, explorando elementos como autores, produtos, acervo documental antigo, por exemplo. As propostas desafiarão os alunos a estudar e refletir sobre a forma como vão dar a conhecer o melhor do seu concelho a um público mais amplo.

Ao longo do ano, as equipas, provenientes de bibliotecas escolares de agrupamentos de escolas distintas, desenvolvem as suas propostas e preparam as apresentações para a Summit final. Este processo terá um caráter híbrido, promovendo a colaboração e a articulação entre os participantes à distância. No final, os grupos partilharão os resultados, ou através das talks, ou através de outras dinâmicas, realizadas em simultâneo.

Desenvolvimento do projeto, em cada equipa, será feito da seguinte forma:

  • Discussões presenciais na biblioteca escolar, onde alunos e professores planificam a abordagem ao tema e propõem estratégias de execução;
  • Discussões online com as escolas que integram a mesma equipa, fortalecendo a colaboração a distância;

  • Construção de um diário de bordo, que refletirá o desenvolvimento do projeto;

  • Apresentação do produto final, adaptado ao formato escolhido (talk, workshop, demonstração, entre outros);

  • Participação de todas as escolas inscritas na Summit, conforme o formato selecionado.

Espera-se que este projeto intensifique a participação dos alunos nas atividades, proporcionando-lhes uma plataforma para expressar as suas ideias. O foco na comunicação e no espírito crítico está alinhado com as competências do Perfil do Aluno, visando fortalecer o envolvimento e a voz dos estudantes.

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Seg | 13.05.24

Con.Raízes 2024 - Sentir Abril

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Con.Raízes é um projeto dos professores bibliotecários da Rede Interconcelhia de Alter do Chão, Castelo de Vide, Crato, Gavião, Marvão, Nisa, e Ponte de Sor que visa promover o conhecimento, a partilha e a divulgação das diferentes manifestações culturais dos seus concelhos.

Em 2023| 2024, o concelho responsável pela sua organização é Ponte Sor. Além dos concelhos mencionados anteriormente, este ano há mais três convidados: Avis, Mora e Fundão. Quanto ao tema, este ano é dedicado aos 50 anos do 25 de abril, Sentir Abril.

Recordamos que este projeto foi reconhecido em 2024, pela RBE, no âmbito da candidatura Ideias com Mérito.

O programa está dividido em dois dias. Assim, o primeiro momento aconteceu no  dia 20 de março, no cine teatro de Ponte Sor. No passado dia 18 de abril, foram apresentados os trabalhos desenvolvidos nas escolas, ao longo do ano.

AE Alter do Chão

A Biblioteca Escolar do Agrupamento de Escolas de Alter do Chão preparou, ao longo do presente ano letivo, uma apresentação dedicada à forma como a vila de Alter do Chão vivia o seu quotidiano, por alturas do 25 de Abril de 1974. O objetivo foi aproveitar a oportunidade da celebração dos 50 anos da Revolução dos Cravos e relembrar as gentes de Alter desse período, partindo de notícias dessa época, publicadas no jornal local – “O Mensageiro de Alter” –, notícias essas que apontavam para o início do exercício do direito democrático, por parte da comunidade. Um grupo de sete alunos encarnava sete personagens do povo, numa curta dramatização que foi detalhadamente preparada.

Não foi possível, contudo, e por motivos alheios à biblioteca escolar, estar presente com os alunos escolhidos, no dia da realização da apresentação ao público, no encontro “Con.Raízes”, em Ponte de Sor.

Gilberto Rocha, professor bibliotecário

AE Avis

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O trabalho final resultou num vídeo com a recriação de uma aula de ginástica (feminina e masculina) do Estado Novo:

Antes do 25 de abril, não havia escolas/ aulas mistas; no início das aulas, cantava-se de pé o Hino Nacional; nas aulas de Educação Física, Imagem2.pngpraticava-se apenas a modalidade de ginástica, inspirada no modelo “Ginástica Sueca” ou “Respiratória”. Os exercícios mostravam que na época prevalecia o rigor, a ordem e a disciplina.

No projeto, estiveram envolvidos, além da Professora Bibliotecária, os professores de Português e de Educação Física do 8.º e 9.º ano.

Como atualmente a nossa escola está a funcionar na Antiga Escola Rural da Fundação Abreu Callado, achámos que o local era perfeito para esta recriação histórica.

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Recriação de uma aula de ginástica do Estado Novo (masculina e feminina)

Sandra Serrão, professora bibliotecária


EPDRAC - EPDR Alter do Chão

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O nosso projeto, intitulado SENTIR A LIBERDADE, resultou de um trabalho realizado com os alunos das turmas de 11º ano. Atendendo às comemorações dos 50 anos do 25 de abril, solicitámos aos alunos que fizessem uma pesquisa sobre o assunto, até para se contextualizarem, para se começar a definir em que moldes seria feito o trabalho. Dada a localização geográfica da escola e da maestria de alguns alunos para o cante alentejano, rapidamente se definiu que a nossa participação seria baseada numa pequena representação intercalada com momentos musicais. Assim, com as ideias que iam surgindo, o texto foi tomando corpo com o grande contributo da docente de Inglês, Olena Afonso, que colaborou de perto com o professor bibliotecário.

A representação retrata uma cena num monte, onde duas personagens, um avô e o seu neto, dialogam sobre a Liberdade ou a falta dela antes e depois do 25 de abril, abordando assuntos como a dureza do trabalho com salários baixos, a falta de cuidados médicos ou mesmo o pensamento crítico que era castigado com a prisão.

Se nas tragédias gregas, por vezes o coro representava uma voz coletiva que expressava os sentimentos e as preocupações do público em relação às personagens, aqui os momentos musicais funcionam também como manifestações de um coletivo perante as dificuldades enfrentadas no dia a dia. No final, o neto pôde assim darImagem4.png por terminada a sua composição para a escola.

Ver o esforço e dedicação destes nossos alunos pela atuação e pelo comprometimento em representar a escola de forma digna, apesar de todas as dificuldades inerentes a uma escola profissional, deixou-nos sensibilizados e ainda mais motivados a apoiá-los no seu crescimento e desenvolvimento como cidadãos responsáveis.

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Projeto ConRaízes / EPDRAC

Alexandre Gonçalves (PN) e Olena Afonso (Inglês), professores

AE Crato

Este projeto, Liberdade 50, procurou dar resposta às dúvidas dos alunos sobre o antes e o depois do 25 de abril.

No ano em que comemoramos os 50 anos da Revolução dos Cravos, nunca é demais conhecer as suas conquistas, Liberdade, Paz, Democracia e assumirmos o nosso papel de cidadãos defensores dos seus valores.

Agradecemos às turmas do 9º A e B que estiveram envolvidos neste trabalho decorrente do Projet@rte, sob a orientação da professora Susana Teixeira, técnica do PDPSC, com o apoio da Biblioteca Escolar.

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LIBERDADE 50

Maria João Biscaia e Clotilde Soares, professoras bibliotecárias

AE Gavião

Iniciámos este projeto a 26 de abril de 2023, sob o hashtag #rbe50anos25abril, da RBE, com uma apresentação pelos alunos de 8º ano do Curso Básico de Música. “Este é o primeiro dia do resto da tua vida”. Foi o mote para um conjunto de propostas de trabalho da biblioteca escolar, que culminaram na apresentação em Ponte de Sor no passado dia 18  de abril.

Ao longo do ano, em estreita cooperação com a disciplina de História, concentramos o nosso clube de leitura e as propostas de escrita na temática da Liberdade, dos Direitos Humanos, debatendo ideias, reconhecendo todo o processo de democracia que Abril nos trouxe e tudo aquilo que os jovens ainda precisam conquistar e construir.

Recolhemos memórias junto das famílias e da comunidade local, comparámos vivências  passadas e presentes e fomos construindo a nossa visão de ditadura e democracia, tendo como resultado final o texto colaborativo que integrou o livro “Sentir Abril”, um dos produtos finais do projeto Con.Raízes.

Sendo um agrupamento com Ensino Básico de Música e tendo os alunos identificado a arte e, em particular, a música como uma forma de resistência e contestação do regime fascista, foi trabalhada esta área com os docentes do conservatório, resultando daí um momento preparado para a apresentação final.

Saímos todos mais ricos desta experiência. Aprendemos conjuntamente. Construímos saberes curriculares mas, sobretudo, partilhamos ideias, experiências, sentires. Construímos em comum mais CIDADANIA.

Fomos juntos ao encontro da nossa história recente e percebemos que Abril, se constrói Con.Raízes.

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Con.Raízes - AEGavião

Paula Pio, professora bibliotecária

AE Nisa

O AE de Nisa  apresentou o projeto desenvolvido no âmbito de um DAC que teve início na disciplina de HGP, com a biblioteca escolar. Contou com o contributo das disciplinas de Português, EM, CD, TIC, Educação Visual e com o Plano Nacional das Artes.

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1.O projeto iniciou-se ainda no 1º período  com o desafio da participação no Con.Raízes, procurando responder às perguntas:  “O que já sabemos? O que precisamos de saber mais sobre o 25 de abril de 1974?” Na disciplina de HGP, os alunos partiram para a pesquisa e recolha de informação com a biblioteca escolar e começaram A SENTIR ABRIL!

2.Escreveram textos, individualmente, para posterior seleção do que seria enviado para o Con.Raízes, tendo em vista  a publicação conjunta. Mas todos os textos produzidos foram muito importantes!  No 2º período, foram melhorados e, em TIC, reescritos em processamento de texto.  Utilizando a ferramenta Canva geraram os códigos QR. Em EV, os textos foram trocados entre todos e ilustrados, dando origem a uma exposição final de ilustrações com os respetivos textos que podem ser lidos através do código QR.

3. Era importante ouvir histórias na primeira pessoa sobre “Sentir Abril em 1974” e por isso foram convidados o escritor João Pedro Mésseder, que apresentou o Romance do 25 de abril e falou sobre a sua experiência, ainda muito jovem e José Caldeira Martins que disse, com emoção, como foi viver antes e depois da Revolução. Com a disciplina de Educação Musical e o Plano Nacional das Artes os alunos prepararam o tema de Zeca Afonso “Venham mais Cinco” que cantaram para o escritor João Pedro Mésseder e apresentaram, na escola, durante a Semana da Leitura, explicando a sua história.

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4. Porque queriam perceber o que é que os colegas da escola, os familiares e amigos sabiam sobre o 25 de Abril, elaboraram um formulário (googleforms) e pediram que respondessem a cinco perguntas muito simples, tendo obtido 217 respostas, analisando os resultados!

5. Mas o trabalho ainda não estava terminado! Sentimos que era necessário dar a conhecer os meios usados para passar a mensagem da Liberdade que o 25 de Abril trouxe! Junto de professores, amigos e familiares foi possível juntar 50 objetos… 50 memórias: rádios, telefone, máquina de escrever, leitor de cassetes, cassetes, gira-discos, discos, máquina fotográfica, fotografias, jornais do dia 25 de Abril de 1974 e seguintes…

Depois de produzido o vídeo final, a ser apresentado no Encontro final, e do fantástico dia passado, com todas as escolas participantes  nesta VII edição do Con.Raízes, faltava ainda a avaliação de todo o trabalho desenvolvido.  Não poderia ser mais positiva! Aprendizagem, partilha, alegria… em Liberdade, a Sentir Abril!

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A SENTIR ABRIL - DAC 6ºA

Fátima Dias, professora bibliotecária

AE Castelo de Vide

O AE de Castelo de Vide envolveu-se no projeto con.Raízes, com três grupos distintos, sob a coordenação da biblioteca escolar:

8º ano - “Vozes de ontem, palavras de agora”

Numa primeira fase, os trabalhos foram realizados com turmas dos Agrupamentos de Castelo de Vide e de Marvão, durante as aulas de Português. Partindo da leitura do poema “Tejo que levas as águas”, de Manuel da Fonseca (e audição do poema musicado por Adriano Correia de Oliveira), os alunos identificaram as palavras-chave, interpretaram o texto; fizeram desenhos sobre a mensagem que cada par de estrofes transmitia e, finalmente, escreveram os seus próprios poemas.

Posteriormente, em articulação com o docente de Música, os alunos de Castelo de Vide criaram um ritmo para as suas palavras e fizeram um Coro Falado que apresentaram no 7º Encontro com.Raízes.

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Sentir Abril - con.Raizes 2024

Regina Leitão e António Eustáquio, docentes

4º ano

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Os alunos do 4ºA também quiseram “Sentir ABRIL”, numa articulação entre Português (Educação Literária), Matemática (Áreas e simetrias) e Educação Artística. Após a leitura e exploração de O Tesouro, de Manuel António Pina, os alunos aprenderam áreas e simetrias, que aplicaram num lindo painel com cravos vermelhos!

Paula Graça, docente

 

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A Professora Bibliotecária e a docente de EE criaram uma proposta de trabalho para estes alunos que incluiu: visita à Casa da Cidadania Salgueiro Maia (o Capitão de ABRIL era natural de Castelo de Vide); exploração da obra Salgueiro Maia, o Rosto da Liberdade, de António Martins e pesquisas sobre este acontecimento tão importante da história contemporânea de Portugal.

Fátima Amaro e Fernanda Cunha, docentes

Fernanda Cunha, professora bibliotecária

Amanhã, daremos continuidade à divulgação dos trabalhos apresentados no dia 18 de abril, no Encontro Con.Raízes.

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Sex | 10.05.24

Juntos, continuamos a Ler

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Juntos, continuamos a Ler

Este é o lema atual da Rede de Bibliotecas do Concelho de Alcobaça (RBCA) que, formalizada em 2014, conta já com 10 anos de existência. O protocolo de cooperação desta Rede foi assinado em 30 de junho de 2014 pelos parceiros que ainda hoje se mantêm:

  • Câmara Municipal de Alcobaça/ Biblioteca Municipal
  • Universidade de Coimbra/ Biblioteca Geral/ Biblioteca Infantojuvenil da UC em Alcobaça/ Centro de Estudos Superiores da Universidade de Coimbra em Alcobaça
  • Agrupamento de Escolas da Benedita/ Bibliotecas Escolares das Escolas: Básica 1 Benedita; Básica do Vimeiro;  Básica da Ribafria; Básica de Turquel; Escola Básica da Benedita.    
  • Agrupamento de Escolas de Cister/ Bibliotecas Escolares das Escolas:  Básica 1/JI de Alcobaça;  Básica 2,3 Frei Estêvão Martins; Básica 2/3 D. Pedro I;  Escola Secundária D. Inês de Castro; Básica 1/JI de Pataias; Básica 2/3 de Pataias
  • Agrupamento de Escolas de S. Martinho do Porto/ Bibliotecas Escolares das Escolas:  Básica de Alfeizerão; Básica da Cela; Básica de S. Martinho do Porto; Básica e Secundário de São Martinho do Porto
  • Instituto Nossa Sra. da Encarnação - Biblioteca do Externato Cooperativo da Benedita
  • Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Cister - Biblioteca Escolar da EPADRC

A esta Rede juntou-se, recentemente, a Biblioteca Infantojuvenil, “BIJUCA”, que se traduz numa mais-valia para o público mais jovem, uma vez que, pela primeira vez, é disponibilizada à comunidade uma seleção do acervo do Depósito-Legal da Biblioteca Geral de Coimbra, nomeadamente as publicações destinadas a esse público-alvo. Além disso, esta Biblioteca, instalada no mesmo edifício do CESUCA, promove um programa educativo vocacionado para o público escolar, em articulação com a(o)s professora(e)s bibliotecária(o)s, e para o público em geral, com especial enfoque no envolvimento das famílias, em articulação com a Biblioteca Municipal de Alcobaça.

Assim, atualmente a RBCA integra 20 bibliotecas que abrangem públicos diversificados, comunidades escolares de todos os ciclos de ensino, toda a comunidade concelhia, tendo como particularidade o facto de contar com a parceria inestimável da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

Na sua génese está a importância das bibliotecas, o seu papel fundamental na aprendizagem ao longo da vida e as possibilidades múltiplas de acesso à informação, ao conhecimento e à cultura.

A RBCA exerce a sua atividade de forma autónoma e colaborativa, procurando fomentar a partilha de recursos e de experiências, a realização de projetos e iniciativas de interesse pedagógico, a promoção do livro, o desenvolvimento da competência leitora e de outras literacias emergentes, o tratamento documental, a atualização concertada do catálogo coletivo em linha e a difusão das iniciativas comuns.

Esta Rede desenvolve anualmente um Plano de Atividades de  Cooperação, aprovado em Assembleia Geral de Cooperantes, e conta com uma equipa de coordenação executiva.

Destacamos as seguintes vertentes que têm sido desenvolvidas nos 10 anos da sua  existência:

Vertente da formação

  • Seminário anual Da Arte de Ler (este ano na 10ª. Edição: Da Arte de Ler…a Poesia), destinado a educadores, professores de todos os grupos disciplinares e profissionais da área das bibliotecas e serviços documentais e em articulação com o CFAE Alcobaça e Nazaré;
  • formação técnico-documental, pelo Serviço de Apoio às Bibliotecas Escolares (SABE) da Biblioteca Municipal;
  • formação especializada pela Universidade de Coimbra.

Vertente da gestão:

  • criação e atualização concertada do catálogo coletivo em linha;
  • implementação do cartão único de leitor;
  • empréstimo interbibliotecas/interconcelhio;
  • manutenção de um Portal Concelhio e de redes sociais;

Vertente da literacia da leitura e de outras literacias:

  • Semana da Leitura, com, pelo menos, uma atividade comum;
  • Feira(s) de Livro p’ à Troca, aberta(s) à comunidade;
  • Concurso Nacional de Leitura (este ano Concurso Concelhio de Leitura “Leituras de Abril”);
  • Exposições temáticas e/ ou bibliográficas, com acervo da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, das Bibliotecas Escolares ou das Bibliotecas Públicas;
  • Palestras no âmbito do projeto #Um Olhar no Horizonte, com a Universidade de Coimbra;
  • Projetos comuns de promoção da leitura, da escrita e de cidadania ativa, como por exemplo: Histórias Ajudaris (Associação Ajudaris); projeto concelhio “Património Alimentar Familiar” (Universidade de Coimbra); Festival concelhio Books&Movies (Câmara Municipal de Alcobaça).

Sublinha-se, por fim, que esta Rede se tem  pautado por uma identidade própria, assente nos valores da Educação, da Cultura, do Humanismo e da Formação para a Cidadania. Nestes termos, as bibliotecas,  como parte integrante do processo formativo, são assumidas como núcleos privilegiados da comunidade, na promoção e institucionalização de uma cultura de leitura multimodal, plural, transversal e de pleno acesso, essencial à construção de uma cidadania informada, responsável  e crítica.

Rede de Bibliotecas do Concelho de Alcobaça (RBCA)

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https://rbca.cm-alcobaca.pt/pt/default.aspx

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https://www.facebook.com/profile.php?id=100071231073257

 

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Qui | 09.05.24

Antropologia Digital e Storytelling

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1. Partilhar histórias na internet

Uma das áreas que o relatório New Horizons in Digital Anthropology: Innovation for understanding humanity  (UNESCO & Liiv Cnter, 2023) identifica como facilitando o aprofundamento e o crescimento da Antropologia Digital em todo o mundo é contar histórias digitais autênticas, que deem conta do ambiente cultural em que as pessoas realmente vivem:

Narração de histórias por cidadãos digitais (digital citizen storytellers) pode ser a próxima geração de etnografia digital em escala e poderia seguir a tendência para o fenómeno dos conteúdos autopublicados e gerados pelos utilizadores a que temos assistido na última década (eg. vlogs, TikTok)” (UNESCO & Liiv Cnter, 2023, p. 54).

O uso destes meios informais e acessíveis pode contribuir para reconhecer que há diferenças locais e para resolver problemas das comunidades representadas, beneficiando-as.

Apesar deste relatório não mencionar o papel das bibliotecas e dos jovens, esta é uma abordagem participativa, colaborativa, reflexiva e de proximidade que as bibliotecas escolares, em articulação com os professores curriculares, podem apoiar.

Cremos que pode assumir outros formatos digitais e multimédia criativos que as bibliotecas escolares desenvolvem no dia-a-dia, por exemplo: museu ou exposição virtual; concurso de escrita/poesia/diário…) ou vídeo; histórias em família; programa de rádio/ podcast ou de televisão; teatro de escrita e documental; exposição de fotografia; sessão de testemunhos, photovoice, etno-musicalidades, música comentada, rap ou performance.

Para estas atividades, as crianças e jovens partem da sua experiência/realidade local e da atenção às pessoas e às comunidades e, com base na leitura/escrita e em outras formas de expressão cultural, bem como na exploração de ferramentas e dispositivos digitais, transmitem - em qualquer suporte e ambiente - um ponto de vista próprio dos seus sonhos, inquietações e realizações. Esta expressão ajuda a preservar e a disseminar o património e a identidade da comunidade a que a pertencem, dando visibilidade e criticando preconceitos ou hierarquias e apontando soluções para a mudança e a proteção dos seus direitos fundamentais. 

2. Preservar a cultura dos povos originários e locais e dos grupos marginalizados

De acordo com a IFLA, cujas diretrizes a Rede de Bibliotecas Escolares adota, o saber dos povos originários/indígenas - viviam nas terras antes de terem sido colonizados/“descobertos” - e dos povos tradicionais, com uma cultura e identidade próprias, como o povo Roma, tem um valor intrínseco e importante porque acrescenta, às culturas maioritariamente representadas no espaço público, formas de compreensão, de espiritualidade e de expressão do mundo únicas, que as enriquecem e porque estes povos souberam, ao longo da História, adotar formas de vida sustentáveis que preservam a natureza e com as quais importa aprender para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030.  

Os bibliotecários devem trabalhar ativamente para “Proteger o conhecimento tradicional indígena e o conhecimento tradicional local para o benefício dos povos indígenas, bem como para o benefício do resto do mundo” (IFLA, 2010).

De forma respeitosa e inclusiva e envolvendo, capacitando e colaborando com estas comunidades, os bibliotecários podem implementar ações que permitam reunir, preservar e divulgar digitalmente este património, para memória futura.

Com o mesmo propósito podem trabalhar com grupos marginalizados, conforme prevê o IFLA/UNESCO Multicultural Library Manifesto:

“bibliotecas de todos os tipos devem refletir, apoiar e promover a diversidade cultural e linguística nos níveis internacional, nacional e local e, assim, trabalhar para o diálogo intercultural e a cidadania ativa.

[…] Atenção especial deve ser dada a grupos frequentemente marginalizados em sociedades culturalmente diversas” (IFLA/UNESCO, 2006).

Fazem parte dos 12 Grupos de Interesse Especial (Special Interest Groups) da IFLA, por exemplo, os grupos Informações e Bibliotecas para Mulheres e Utilizadores LGBTQ (IFLA, 2024).

Podem constituir importante ajuda à Etnografia Digital feminista e LGBTQ, seminários e eventos, comunidades de leitores em linha, projetos com associações locais, listas de vídeos, de curtas-metragens, de podcasts e de outra informação com referência a estas comunidades e que possa ser disponibilizada na internet pelas bibliotecas escolares.  Nesta área a UNESCO e o Liiv Center apresentam a principal referência literária mundial e expressam sua intenção em desenvolve-la no futuro (UNESCO & Liiv Center, p. 25).

 Segundo Gabriela Ramos, Diretora-Geral Adjunta para as Ciências Sociais e Humanas da UNESCO, adotar um ponto de vista antropológico em ambiente digital permite:

  • “Compreender como é que a tecnologia intersecta com as sociedades humanas” e identificar as estruturas que provocam os seus efeitos nefastos: desinformação, desigualdades, preconceitos, polarização e crescimento de movimentos políticos extremistas, vigilância digital e problemas de saúde mental. Estas são “questões sensíveis para o correto funcionamento e legitimidade dos governos, a defesa da dignidade humana e o desenvolvimento social inclusivo”;

  • Conhecer as perceções dos cidadãos para “melhorar a informação pública e combater as campanhas de desinformação sobre questões sensíveis como vacinas ou mudanças climáticas” e regular, de forma mais eficaz, o espaço digital;

  • “Identificar a formação de novas comunidades digitais, geralmente invisíveis” que exercem um comportamento discriminatório, numa paisagem cultural global e tendencialmente homogénea (UNESCO & Liiv Center, p. 1)

Segundo James Ingram, fundador do Liiv Center for Innovating Digital Anthropology, com o qual a UNESCO celebrou, em 2021, uma parceria, os políticos precisam de fundamentar as suas decisões “mais do que em dados quantitativos e económicos, em dados profundamente humanos, enraizados na Antropologia” e holísticos, que servem, de forma ética e inclusiva, o bem comum, gerando sentido, empatia e contribuindo para alcançar a Agenda 2030.  (UNESCO & Liiv Center, p. 7).

3. Humanizar as práticas digitais

New Horizons in Digital Anthropology é a primeira publicação global sobre o tema e defende uma complementaridade entre cientistas de dados e antropólogos digitais para humanização das práticas digitais e para que as decisões políticas reflitam as necessidades de todas as pessoas.

Reconhece que há obstáculos para a inovação digital em Antropologia, como a divisão/desigualdade de acesso e a disparidade de investimentos, bem como áreas facilitadoras do progresso no setor nas quais importa investir, como ferramentas tecnológicas e arquivos de inovação antropológica e cultura de acesso aberto.

Referências

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Qua | 08.05.24

A inteligência artificial nas bibliotecas escolares: serviços inovadores e personalizados

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As bibliotecas escolares desempenham um papel fundamental no apoio ao ensino e à aprendizagem, fornecendo recursos e serviços que enriquecem a experiência educativa dos alunos. A inteligência artificial (IA) pode contribuir para melhorar estes serviços, mas a sua implementação requer uma abordagem crítica e cuidadosa, considerando não apenas os benefícios, mas também os desafios éticos e práticos envolvidos.

Neste sexto artigo da série “A inteligência artificial nas bibliotecas escolares”, apresentamos exemplos de utilização da IA que podem contribuir para a inovação e personalização dos serviços prestados pelas bibliotecas escolares.

Descoberta e recomendação personalizada de recursos

 Uma das aplicações mais promissoras da IA nas bibliotecas escolares é a utilização de sistemas de recomendação de livros, artigos e outros materiais. Através de algoritmos, é possível analisar os interesses, histórico de leitura e desempenho académico dos alunos para recomendar conteúdos relevantes e estimulantes. Podem, ainda, ser criados perfis de utilizador com base nos seus interesses e hábitos de leitura.

No entanto, é crucial assegurar que esses algoritmos sejam projetados e monitorizados cuidadosamente para evitar vieses e falta de equidade, garantindo recomendações justas e inclusivas para todos os alunos.

Assistentes virtuais multilingues e interativos

 Outra aplicação muito útil da IA é a implementação de assistentes virtuais baseados em IA[1] para fornecer apoio aos utilizadores 24 horas por dia, 7 dias por semana. Esses assistentes virtuais podem responder a perguntas comuns, ajudar os utilizadores a encontrar materiais e até mesmo agendar sessões de apoio/ tutoria ou reservar espaços da biblioteca. Para além de responderem a perguntas dos alunos sobre os serviços da biblioteca, podem, ainda, realizar leituras em voz alta de livros e de textos.

Tradução, resumo e análise de textos 

 A IA pode facilitar a tradução de materiais em diferentes idiomas. Por exemplo, um sistema de tradução automática pode tornar os recursos multilingues acessíveis a uma audiência mais ampla.

A IA pode ainda ser utilizada para gerar resumos e resenhas sobre livros, artigos e outros textos, auxiliando os alunos na pesquisa e no estudo.

Acessibilidade melhorada com IA

 A IA também pode contribuir para tornar as bibliotecas escolares mais acessíveis a alunos com necessidades especiais. Tecnologias como a conversão de texto em fala, tradução automática e criação de descrições de imagens podem remover barreiras e promover a inclusão.

Atividades interativas

 A IA pode ser utilizada na criação de experiências gamificadas que incentivam o uso da biblioteca e a participação dos alunos. Jogos educativos baseados em IA podem ser desenvolvidos para desafiar os alunos a explorar o acervo da biblioteca, responder a questões sobre os recursos disponíveis e ganhar recompensas virtuais. Esta abordagem torna a experiência de aprendizagem mais motivadora e promove o envolvimento dos alunos, levando-os a utilizar os recursos disponíveis na biblioteca.

Análise de dados e melhoria contínua

Com a IA, as bibliotecas escolares podem recolher e analisar dados de empréstimos, downloads e uso, promovendo uma tomada de decisões mais informada sobre o desenvolvimento das coleções. Ao identificar padrões e tendências sobre o uso dos seus recursos, circulação de materiais, padrões de pesquisa e preferências dos alunos, a IA pode ajudar as bibliotecas a alocar os seus recursos de forma mais eficiente. Esses dados podem apoiar a tomada de decisões estratégicas, como aquisições de novos materiais, reorganização do espaço físico e criação de novos serviços, em resposta às necessidades reais dos alunos.

No entanto, é fundamental implementar políticas rigorosas de privacidade e ética para garantir que os dados dos alunos sejam tratados de forma segura, transparente e respeitando os princípios de privacidade.

Formação em IA e competências digitais

 Além de incorporar a IA nos serviços, as bibliotecas escolares podem desempenhar um papel crucial na educação dos alunos sobre essa tecnologia transformadora. Oficinas, tutoriais e recursos interativos podem ser oferecidos para ensinar conceitos básicos de IA, como algoritmos, aprendizagem de máquina e ética em IA. Essa formação ajudará os alunos a tornarem-se cidadãos digitais mais informados e preparados para o futuro.

Desafios

Os principais desafios enfrentados pelas bibliotecas escolares na adoção da inteligência artificial para melhorar os seus serviços são:

  1. Infraestrutura tecnológica adequada e definição de políticas de segurança robustas:é necessário garantir uma infraestrutura tecnológica adequada e estabelecer políticas de segurança robustas, assegurando a conformidade com leis e regulamentos;

  2. Formação dos professores bibliotecários e das suas equipas:é importante assegurar que os professores bibliotecários e os membros da sua equipa tenham a formação necessária para utilizar e implementar a inteligência artificial nos serviços de biblioteca;

  3. Políticas de utilização responsável da inteligência artificial:é fundamental definir políticas de utilização da inteligência artificial em contexto educativo, estabelecendo princípios fundamentais para a segurança, privacidade e equidade no uso da IA;

  4. Transparência e responsabilidade:a implementação de uma política de utilização da IA promove a transparência e a responsabilidade, fomentando a confiança da comunidade educativa na adoção desta inovação.

Recomenda-se a implementação da IA de forma gradual, começando com aplicações mais simples e escaláveis, como sistemas de recomendação básicos ou assistentes virtuais para tarefas específicas. À medida que a experiência e os recursos aumentam, as bibliotecas podem avançar para soluções mais sofisticadas e abrangentes.

A biblioteca escolar desempenha um papel fulcral neste novo paradigma, que exige o desenvolvimento de um ambiente educativo tecnologicamente avançado e ético, não apenas disponibilizando recursos e ferramentas que auxiliam os alunos, mas também impulsionando a experimentação e a disseminação de práticas inovadoras que promovem um ambiente educativo estimulante e inclusivo.

A adoção da inteligência artificial nas bibliotecas escolares abre um mundo de possibilidades e estes espaços podem transformar-se em verdadeiros centros de conhecimento inteligentes, capazes de se adaptar e evoluir constantemente para atender às necessidades únicas de cada aluno.

NOTA:
[1] As plataformas Chatsimple ou Droxy.ai são bastante fáceis de utilizar e permitem a utilização de assistentes virtuais com algumas funcionalidades gratuitas.

📷 Imagem criada com Designer – Copilot

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Veja também - Série: A Inteligência Artificial nas Bibliotecas Escolares

 

 Estratégias inovadoras para apoiar o trabalho dos professores

 (Blogue RBE, Qua | 10.04.24)


 

 Uma resposta estratégica aos desafios da aprendizagem. Os assistentes virtuais

 (Blogue RBE, Qua | 06.03.24)

 

 

 Uma resposta estratégica aos desafios da aprendizagem

 (Blogue RBE, Qua | 14.02.24)



 

 Um Contributo para o Desenvolvimento Digital das Escolas

 (Blogue RBE, Qua | 10.01.24)

 


 

 Desafios e Oportunidades

 (Blogue RBE, Qui | 07.12.23)

 

 

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Ter | 07.05.24

Discurso de ódio: conhecer para combater

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Entre 3 e 9 de maio, decorre a Operação 7 dias com os media, promovida pelo GILM – Grupo Informal sobre Literacia Mediática (que a RBE integra) e que vai já na sua 12.ª edição. “Discursos de Ódio Paz em Tempos de Guerra” é o tema para este ano e a participação ativa de todos é vivamente encorajada, através dos seus embaixadores, um conjunto de personalidades que se associaram a esta operação, de entre os quais, Manuela Pargana Silva, Coordenadora Nacional da RBE.

Com vista a promover uma melhor compreensão do fenómeno, a RBE publica hoje este texto para divulgação e clarificação de conceitos.

O que é?

A União [Europeia] assenta nos valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito e do respeito pelos direitos humanos, incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias. Estes valores são comuns aos Estados-Membros numa sociedade em que prevalecem o pluralismo, a não discriminação, a tolerância, a justiça, a solidariedade e a igualdade entre homens e mulheres. (Artigo 2.º do Tratado da União Europeia) [1]

 

Discurso de ódio são declarações públicas, intencionais ou não, discriminatórias e/ou difamatórias; incitamento intencional ao ódio e/ou à violência e/ou segregação com base na raça, etnia, língua, nacionalidade, cor da pele, crenças religiosas ou falta delas, género, identidade de género, sexo, orientação sexual convicções políticas, estatuto social, propriedade, nascimento, idade, saúde mental, deficiência, doença. [2]

Quando assumimos publicamente a necessidade de combater discursos de ódio, online ou offline, pode questionar-se não estaremos a contrariar um direito humano fundamental, a liberdade de expressão – precisamente o direito que dá origem ao dia de arranque da Operação “7 dias com os Media”, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa:

Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão. (artigo 19.) [3]

A liberdade de expressão é um direito fundamental, essencial para a democracia, pois promove o debate aberto, a troca de ideias e a participação cívica. No entanto, esta liberdade traz associada a responsabilidade e tem, antes de mais, de ser conciliada com o primeiro de todos os direitos:

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. (artigo 1.º) [3]

Deste modo, a liberdade de expressão tem limites sempre que as suas consequências resultam em danos reais ou potenciais a outros, especialmente em formas que perpetuam discriminação ou violência. É o que se verifica com o discurso de ódio que visa prejudicar e marginalizar grupos vulneráveis e que, por isso, deve ser combatido.

Este combate, previsto pela ONU, pelo direito internacional e pelo direito de muitos países, entre os quais Portugal, requer uma abordagem multifacetada, que leve em consideração o equilíbrio entre os direitos individuais e o bem-estar coletivo. Valores como o respeito pela dignidade humana, a liberdade, a democracia, a igualdade, o Estado de direito e o respeito pelos direitos humanos têm de ser protegidos e todas as formas de ódio e intolerância são incompatíveis com estes direitos e valores fundamentais.

“Equilibrar adequadamente a liberdade de expressão e a proibição do incitamento ao ódio não é tarefa simples” [4], mas é imprescindível.

Como se caracteriza?

As mensagens de ódio são veiculadas através de múltiplas linguagens: antes de mais, linguagem verbal, mas também imagens ou vídeos, frequentemente falsos ou manipulados, e caracterizam-se pela intolerância e pela discriminação contra grupos específicos, muitas vezes minorias, assim como pelo incitamento ao preconceito e à violência verbal (e por vezes física), promovendo a marginalização e o desprezo por determinados grupos. Podem chegar a incluir ameaças diretas ou implícitas contra indivíduos ou grupos.

O discurso de ódio também se alimenta de teorias da conspiração e envolve com frequência a disseminação de informações falsas ou distorcidas sobre grupos específicos, as quais pretendem justificar a sua culpabilização por problemas sociais complexos ou eventos catastróficos, com o objetivo de inflamar o ódio ou incitar ações prejudiciais contra eles.

Nem sempre é fácil identificar declarações discriminatórias e difamatórias ou o incitamento ao ódio, à violência e à segregação, pois estes discursos são frequentemente construídos com base em palavras e frases que, se descontextualizadas, não têm qualquer significado odioso ou ilegal.

Quais as causas?

A base do discurso de ódio é, na maioria das vezes, a não aceitação das diferenças e o preconceito.

No entanto, as razões para estes discursos são múltiplas e podem ir desde a mera necessidade de descarregar um sentimento geral de frustração e intolerância contra categorias reais ou presumidas de pessoas, à manipulação da informação e à difusão de notícias falsas com o objetivo de enquadrar narrativas únicas sobre certos grupos reais ou presumidos ou certas minorias com fins políticos e eleitorais, ou até comerciais.

A difusão maciça da Internet, juntamente com o aumento do número e da dimensão das plataformas e sítios Web 2.0, tem vindo a facilitar o aumento vertiginoso de mensagens e conteúdos de ódio partilhados por indivíduos, grupos organizados e políticos.

Que impactos?

A sua veiculação nos ambientes online faz escalar o ódio e tem muitas vezes consequências no mundo físico.

As pessoas vulneráveis correm um risco particular quando expostas a conteúdos e propaganda de ódio na Internet. O discurso de ódio não é “apenas palavras” que podem simplesmente ser ignoradas; pelo contrário ele pode magoar as pessoas de diferentes formas, tanto emocional como fisicamente. Pode até motivar crimes de ódio na vida offline, como tem acontecido em muitos casos.

Há que tomar consciência de que o discurso de ódio contra indivíduos pertencentes a um grupo (religioso, étnico, etc.) tem repercussões em todos os membros desse grupo, mas tem também um impacto profundo na sociedade, prejudicando igualmente o diálogo e a convivência pacífica, o que representa uma ameaça à democracia e a uma sociedade pluralista. Ele destrói a coesão social e corrói valores partilhados, atrasando a paz, a estabilidade, o desenvolvimento sustentável e o cumprimento dos direitos humanos para todos.

Os estudos que têm sido levados a cabo no âmbito desta temática têm mostrado que o discurso de ódio toma proporções ainda mais graves (pois atinge muito mais pessoas) quando vem de figuras públicas, cujas opiniões parecem ser importantes para públicos mais amplos devido ao seu cargo e função.

A organização International Network Against Cyber Hate apresenta um recurso interativo sobre a forma como a pirâmide do ódio se vai desenvolvendo: assentando no preconceito, conduz ao ódio e termina em violência [5]:

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De acordo com esta apresentação, o ódio assenta em enviesamentos (estereótipos, piadas, comentários insensíveis, linguagens não inclusivas...), de que resulta o preconceito (insultos, desumanização, calúnias, exclusão social…), que conduz à discriminação (económica, no emprego, na educação, na habitação...), gera violência (homicídio, violação, agressão, ameaças, vandalismo, terrorismo...) e, por vezes, genocídio (ato ou intenção de exterminar deliberada e sistematicamente um povo inteiro).

Como combater?

Como vimos, encontrar o equilíbrio entre liberdade de expressão e combate ao discurso de ódio é um desafio complexo, mas algumas abordagens podem ajudar:

  1. Educação e consciencialização:
  •    Investir em programas educativos que promovam a compreensão dos limites da liberdade de expressão e os impactos do discurso de ódio.
  •    Sensibilizar as pessoas para os efeitos prejudiciais do discurso de ódio na sociedade.
  1. Regulamentação:
  •    Implementar leis e regulamentos que combatam o discurso de ódio sem restringir indevidamente a liberdade de expressão.
  •    Definir claramente o que constitui discurso de ódio e estabelecer consequências proporcionais.
  1. Plataformas Online:
  •    As empresas de media (tradicionais e redes sociais) devem ter políticas claras contra o discurso de ódio e aplicá-las consistentemente.
  •   Equilibrar a moderação com a proteção da liberdade de expressão, considerando contextos e nuances.
  1. Promoção do diálogo construtivo:
  •    Incentivar debates saudáveis e construtivos em vez de ataques pessoais.
  •    Criar espaços onde diferentes perspetivas possam ser ouvidas e debatidas.
  1. Responsabilidade Individual:
  •    Cada pessoa deve considerar o impacto de suas palavras, expressões, publicações e partilhas.
  •    A liberdade de expressão não deve ser usada como desculpa para disseminar ódio ou prejudicar outros.

Sendo o combate ao discurso de ódio responsabilidade de todos, a diferentes níveis – indivíduos, mas também decisores, educadores, responsáveis de media… - é necessário que cada qual, de acordo com as suas áreas de atividade e os seus contextos, assuma o seu papel e contribua, com consciência, para a eliminação e neutralização sistemática e eficaz destes discursos.

Como me posiciono?

Convidamo-lo agora a refletir e avaliar o seu nível de consciência sobre o discurso de ódio online; o modo como reconhece conteúdo de ódio; quem são as vítimas e os perpetradores; qual é o impacto do ódio online nas pessoas; como reagir a conteúdo de ódio…

Para isso, responda às questões desta ferramenta de autoavaliação de discurso de ódio para educadores/media/ONGs, proposta pelo projeto LEAD-Online (Learn, Engage, Act: Digital Tools to Prevent and Counter Hate Speech Online), um projeto da União Europeia que ajuda os jovens a enfrentarem o discurso de ódio online, aprendendo a distinguir entre discurso de ódio online e liberdade de expressão e fornecendo contranarrativas. [6]

(NOTA: o questionário está em inglês, mas quem não domina o idioma pode recorrer com bons resultados à tradução automática)

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Referências

[1] Comissão Europeia (s.d.). Combating hate speech and hate crime. https://commission.europa.eu/strategy-and-policy/policies/justice-and-fundamental-rights/combatting-discrimination/racism-and-xenophobia/combating-hate-speech-and-hate-crime_en

[2] International Network Against Cyber Hate. (s.d.) What is cyber hate and why do we want to counter it. https://www.inach.net/cyber-hate-definitions/

[3] Organização das Nações Unidas (1948). Declaração Universal dos Direitos Humanos. https://unric.org/pt/declaracao-universal-dos-direitos-humanos/

[4] ONU. (2013). Plano de Ação de Rabat sobre a proibição da defesa do ódio nacional, racial ou religioso que constitua incitamento à discriminação, à hostilidade ou à violência. https://www.direitoereligiao.org/recursos/documentos/plano-de-acao-de-rabat

[5] International Network Against Cyber Hate. (s.d.) Pyramid of hate. https://view.genial.ly/5e6767cc45d9ae0fc60d9488/horizontal-infographic-diagrams-pyramid-of-hate

[6] Learn, Engage, Act: Digital Tools to Prevent and Counter Hate Speech Online (2021). Hate Speech - Self Assessment Tool for Educators/Media/NGOs. https://www.lead-online.eu/hate-speech-self-assessment-tool-for-educators-media-ngos/

[7] sCAN - Platforms, Experts, Tools: Specialised Cyber-Activists Network. (s.d.) Hate Ontology. https://scan-project.eu/wp-content/uploads/scan-hate-ontology.pdf

 

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Dom | 05.05.24

Ler em português... festa e cor!

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A data de 5 de maio foi oficialmente estabelecida em 2009 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) - organização intergovernamental, parceira oficial da UNESCO desde 2000, que reúne os povos que têm a língua portuguesa como um dos fundamentos da sua identidade específica - para celebrar a língua portuguesa e as culturas lusófonas.

Em 2019, a 40.ª sessão da Conferência Geral da UNESCO decidiu proclamar o dia 5 de maio de cada ano como Dia Mundial da Língua Portuguesa.

A língua portuguesa, é a língua oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. São mais de 260 milhões de falantes, espalhados por todos os continentes. A língua mais falada no hemisfério sul.


Mensagem do Secretário-Geral da Nações Unidas, António Guterres, a propósito do Dia Mundial da Língua Portuguesa.

Esta celebração é inspiradora para todos nós, falantes da língua portuguesa, contribuindo para promover o diálogo intercultural, defender e preservar a nossa língua e divulgar todos os que escrevem e leem em português.

A propósito desta efeméride divulgamos a coleção Pererê, publicada pela editora Tinta da China e o Jornal Público. Esta publicação disponibiliza, em Portugal, os maiores clássicos da literatura infantojuvenil brasileira, numa edição graficamente cuidada e belíssima. Os livros são publicados no texto original, em português do Brasil, sem adaptações, com o objetivo de apresentar às crianças e jovens portugueses a riqueza da língua comum e o modo como ela pode ser festa e cor.

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Na impossibilidade de falar de todos, mencionamos mais pormenorizadamente três títulos: Flicts, A Bolsa Amarela e Bisa Bia Bisa Bel

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Flicts, escrito por Ziraldo, a lenda da literatura brasileira, do grafismo e do poder da cor como linguagem, que perdemos há um mês, apresenta-se em Portugal 50 anos depois de ter nascido, inaugurando a coleção Pererê.

Era uma vez uma cor muito rara e muito triste que se chamava Flicts.

Não tinha a Força do Vermelho, não tinha a imensa luz do Amarelo, nem a paz que o Azul tem.

Era apenas o frágil e feio e aflito Flicts.

Tudo no mundo tem uma cor, tudo no mundo é Azul, Cor- de- Rosa ou Furta-Cor, é Vermelho, Amarelo, Roxo, Violeta ou Lilás. Mas não existe nada no mundo que seja Flicts. - Nem a sua solidão – (…) “

Muitas são as cores que habitam no mundo: quentes, frias, primárias e secundárias, claras e escuras, opacas ou neutras.  Cores que nos irritam ou nos fazem sonhar, que provocam emoções e reações, mas nenhum é Flicts. Parece que “não tem lugar para Flicts”, a cor que não é igual a nenhuma outra e que só quer encontrar um amigo que a aceite tal como ela é, por isso decide correr mundo em busca do seu lugar. Por mar, por terra, a procura não termina. A viagem é longa.  Será que Flicts encontra o seu lugar, o seu espaço no mundo?

Flicts é uma revolução no grafismo, mas não só. Um poema visual ímpar. Raro, incomparável, inimitável. As ilustrações falam por si. As simbologias das cores dão ritmo e sentido às palavras.  À cor é dada vida como nunca tinha acontecido na literatura. Grafismo e texto pintam o mundo, o arco-íris, bandeiras e a(s) lua(s). 

Este é um livro para nos acompanhar, para dar cor à nossa vida, ao nosso lugar no mundo. O livro inclui ainda um texto de Fernando de Castro Ferro da primeira edição e uma recensão de Carlos Drummond de Andrade.

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A Bolsa Amarela, escrito por Lygia Bojunga, conta a história de uma menina que entra em conflito consigo mesma e com a família ao reprimir três grandes vontades.

Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades. Não digo vontade magra, pequenina, que nem tomar sorvete a toda hora, dar sumiço da aula de matemática, comprar um sapato novo que eu não aguento mais o meu. Vontade assim todo mundo pode ver, não tô ligando a mínima. Mas as outras – as três que de repente vão crescendo e engordando toda a vida -, ah, essas eu não quero mostrar. De jeito nenhum.

Nem sei qual das três me enrola mais. Às vezes acho que é a vontade de crescer de uma vez e deixar de ser criança. Outra hora acho que é a vontade de ter nascido garoto em vez de menina.  Mas hoje tô achando que é a vontade de escrever.

Página após página vamos conhecendo uma menina sensível, insatisfeita e imaginativa que partilha connosco o seu dia‑a‑dia. Contesta ordens e recomendações, afirmando-se como pessoa que pensava, questiona, argumenta e opina. Uma menina que quer saber qual o seu lugar no mundo e na família.

Um dia ganhou uma bolsa. Era amarela, a cor mais bonita que existe. Na bolsa escondia segredos, fantasias e amigos incríveis, como por exemplo o galo Rei que depois passa a chamar-se Afonso e que queria que todos tivessem voz, que desejava a igualdade e liberdade ou o galo Terrível, treinado para ganhar todas as lutas, até que um dia apareceu um galo mais novo que foi mais forte e passou a vencer todas as lutas.

Esta é uma história onde o mundo real e a ficção são um só.

Este é um livro maravilhoso, deslumbrante.

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Bisa Bia Bisa Bel (Tinta da China, 2023), é mais um dos títulos da coleção. Trata-se de uma narrativa cheia de imaginação, onde o tempo é um elemento essencial e perguntas não podem faltar.

A primeira vez, bem que Bisa Bia estava escondida. Só apareceu por causa das arrumações da minha mãe. (…) Dá uma geral, como ela diz. Arruma, arruma, arruma, dois, três dias seguidos… (…) Pois foi numa dessas arrumações, quando minha mãe estava dando uma geral, que eu fiquei conhecendo Bisa Bia. (…)

- Ué, essa avó eu não conheço. Só conheço a vó Diná e a vó Ester. Tem outras, é?

- Tem, mas é minha. Vovó Beatriz. Sua bisavó.”

 

 

A fotografia da avó Beatriz é o ponto de partida. Entre o passado e o presente, entre a realidade e o imaginário, a bisavó entra na vida de Bel, acompanhando-a para todos os lugares e revelando-nos um mundo que já não existe. Entre o espanto e as perguntas sobre a vida, a roupa, os objetos e os costumes, vamos, pouco a pouco, compreendendo o papel da mulher e as mudanças sociais.

Fica a sugestão. Descubra os outros títulos da coleção.

Celebre também a língua portuguesa com outros autores lusófonos (entre muitos):

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Sex | 03.05.24

Fios seguros, pontos variados, costuras permanentes

por Ana Lídia Lopes, Professora bibliotecária no AE Dr. António Granjo, Chaves

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Levanto-me. Acordo assarapantada. Arranjo-me à pressa. Não são os afazeres domésticos ou as obrigações familiares o centro das minhas preocupações. A escola reclama-me. A Biblioteca chama por mim. Agora Biblioteca, amanhã Biblioteca, sempre a Biblioteca. Mas faço-o com gosto, com entusiasmo, sempre com uma vontade, espero que eterna, de melhorar as coisas, de as ver acontecer, de poder contribuir, com modéstia, humildade e muito empenho, para que uma vasta panóplia de visados, sejam eles alunos, colegas ou outros elementos da comunidade, possa melhorar as suas capacidades pessoais e o seu desempenho nas diferentes tarefas para as quais são solicitados.

Nas últimas semanas, há uma tarefa específica: remodelar o espaço de uma das três bibliotecas do Agrupamento que tenho a meu cargo. Foi necessário e exigível tornar o espaço disponível num lugar mais acolhedor, atrativo, funcional. Em permanente trabalho de colaboração, delineou-se o processo com a diretora e a coordenadora interconcelhia e… mãos à obra! Com o precioso auxílio de funcionários, colegas e associação de pais, arrastaram-se móveis, coloriram-se paredes, reorganizaram-se livros e outros materiais.

Sabemos que a existência da Biblioteca Escolar não se justifica apenas pelos espaços que possui, pelos equipamentos que disponibiliza ou pelos serviços que presta, mas também pelo conjunto de recursos educativos que coloca à disposição de alunos e professores, auxiliares fundamentais para que todo o processo formativo se desenrole com desenvoltura e equidade. O importante são sempre as pessoas e as suas atitudes e não os lugares. Contudo, temos também presente que a funcionalidade e a agradabilidade dos espaços são motivadoras, influentes, relevantes.

Mais um retalho da manta que costuro com afinco e não sei quando acaba …

Chego a casa. É preciso tirar a tinta das mãos, o pó que entope o nariz, o suor do corpo. Ah! E a família. Sim, a família, porque os professores bibliotecários também têm família, embora às vezes isso não pareça. Mas rápido, porque, à noite, temos uma palestra: convidámos alguém que nos viesse falar, a alunos, pais e professores, sobre formas de promover o sucesso e melhorar as prestações escolares e é preciso tudo controlar, ver se está em ordem: a disposição e decoração do espaço, a mesa de honra, o som. Será que escapou alguma coisa? Depois, a receção aos intervenientes. Noite fria de inverno. Será que o processo de mobilização do público foi bem-sucedido?

Tudo correu pelo melhor: excelente orador, bons participantes, escola enriquecida. Outro retalho para acrescentar …

Regresso a casa. Afundo-me no sofá. Ligo instintivamente a televisão, mas nada vejo, nada oiço. Penso. Será que a manta está a ser bem tecida? E transporto-me para o ano de 2014/2015, primeiro a exercer funções como professora bibliotecária. Neste mesmo espaço, físico e temporal, senti o peso da grandiosidade do que de mim se esperava, identifiquei-me como um viajante à descoberta do lugar. Mal eu sabia que tinha como missão liderar um modelo de biblioteca escolar como espaço de aprendizagem ilimitado, promotor de metodologias de aprendizagem dinâmicas e construtivas, que contribuísse para que todos os alunos pudessem desenvolver capacidades de criação, interação, autonomia, ao mesmo tempo que devia cooperar com colegas na definição de objetivos comuns. Entre outras funções, para os alunos, a biblioteca teria de ser um serviço que os ajudasse no seu desenvolvimento intelectual e das suas competências e, em simultâneo, que contribuísse para a incorporação de capacidades facilitadoras da sua progressão pessoal e social; para os professores, ser considerada como um recurso útil para o cumprimento do currículo e a realização da prática educativa. Encargo difícil, mas desafiante. Amparava-me na formação, que julgava apropriada, e em alguns conhecimentos e destrezas, que cria suficientes, mas faltava-me perceber que, para o exercício de tal cargo, precisava, para além do suporte profissional e vocacional, de uma enorme porção de generosidade, implicação e dedicação, impregnadas, porque não dizê-lo, de forte altruísmo e gratuitidade.

Deito-me. Aconchego-me numa manta. Sinto-me confortável e QUASE sossego. Quase… porque, entretanto, puxo a outra manta tecida com os retalhos e dou conta que fico com os pés de fora. Continua incompleta. E amanhã é um novo dia e mais um retalho há que amanhar. Cosido com fios seguros, pontos variados, costuras permanentes. Essa será, pois, a função de um professor bibliotecário: tecer, dia após dia, um pequeno retalho para acrescentar a uma manta que nunca estará concluída, mas será trabalhada, com afinco e abnegação, a bem do ensino, da educação, de uma Escola que se pretende aberta, plural, dinâmica, inclusiva.

Ana Lídia Lopes,
Professora bibliotecária no Agrupamento de Escolas Dr. António Granjo, Chaves

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  1. Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
  2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
  3. Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.

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