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Blogue RBE

Qui | 15.09.22

ONU: Cimeira Transformando a Educação

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Leitura: 5 min | 

Reconhecendo que a educação é um bem comum e que está na origem de todos os direitos humanos e do desenvolvimento sustentável e que o desígnio da Agenda 2030 é “não deixar ninguém para trás”, no 75.º aniversário das Nações Unidas, o Secretário-Geral António Guterres anunciou, no relatório Nossa Agenda Comum [1], a sua intenção em convocar uma Cimeira da Educação Transformadora (Transforming Education Summit – TES). 

Esta Cimeira é convocada no contexto de dois desafios profundamente interligados que podem pôr em risco o alcance do ODS 4: “Garantir o acesso à educação inclusiva, de qualidade e equitativa e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida” (Concept Note and Programme Outline [2]):

1. A pandemia Covid-19 provocou o fecho das escolas e a alteração para o ensino à distância, particularmente difícil para crianças e jovens em situação vulnerável, gerando uma crise global da aprendizagem que pode provocar retrocessos numa geração inteira;

 2. A crise climática, as mudanças tecnológicas e o mundo do trabalho geram a consciência de que os sistemas de educação formal convencionais não geram o conhecimento, nem as competências necessárias para responder às necessidades e aspirações da sociedade para construir um futuro pacífico e sustentável. 

No contexto da Década da Ação, a Cimeira é uma oportunidade para alcançar as metas e reimaginar a educação, esperando-se dela os seguintes resultados:

- Compromissos nacionais e internacionais;

- Maior envolvimento público

- Uma Declaração de Visão do Secretário-Geral que contribuirá para pensar o futuro da educação e será levada à Cimeira do Futuro da ONU de 2023 e informará o Comité de Alto Nível sobre o ODS 4 - Educação 2030.

 

A Cimeira foi precedida por um processo preparatório inclusivo e aberto, seguiu uma abordagem de baixo para cima (bottom-up) que incluiu:

A. Consultas nacionais em mais de 100 países – em Portugal esta consulta ocorreu a 8 de junho, na Escola Básica Integrada do Parque das Nações e reuniu alunos, professores, pessoal não docente, pais e encarregados de educação, autarcas, empresários de diversos setores e geografias;

B. Linhas de Ação Temática (Thematic Action Tracks) globais que “destacam as áreas que exigem maior atenção e ação:

  1. Escolas inclusivas, equitativas, seguras e saudáveis;

  2. Aprendizagem e competências para a vida, o trabalho e o desenvolvimento sustentável; 

  3. Professores, ensino e profissão docente; 

  4. Aprendizagem e transformação digital;

  5. Financiamento da educação”.

Para cada uma está prevista, entre outras ações, a apresentação um catálogo digital para boas práticas e inovações (online catalogue, containing good practices and innovations) [3].

Sobre estas áreas a Declaração Conjunta de Portugal destaca, por exemplo:

  1. Proporcionar aos alunos boas experiências de aprendizagem, reforçar o pré-escolar, ouvir os alunos;

  2. Preparar os alunos para a vida profissional, agir localmente, desenvolver competências ao longo da vida e para o empreendedorismo, desenvolver competências sociais e emocionais, abordar questões de educação ambiental;

  3. Aumentar a qualificação de professores, tornar a profissão docente atraente e digna, repensar a formação de professores;

  4. Transformação digital vai além de equipamentos, envolve processos, valoriza trabalho de projeto, usa ferramentas de forma criativa e sensibiliza para proteção de dados e segurança na internet, cria investimento estrutural em redes e desenvolve alfabetização digital, valoriza o setor privado no fornecimento de equipamentos e recursos digitais, garante conteúdo educacional digital aberto e de qualidade, reforça a cidadania digital, investe em conectividade;

  5. Desenvolver projetos comunitários e locais, focar na sustentabilidade financeira e não no lucro, garantir redistribuição equilibrada de fundos, bem como equidade e eficiência dos gastos públicos em educação.

 

C. Envolvimento e mobilização de todos os setores da sociedade, inclusive das crianças e jovens, de modo a democratizar o diálogo sobre educação e gerar um movimento global para a sua transformação. 

Na Pré-Cimeira (29 - 30 de junho de 2022, Paris) os países apresentaram os resultados preliminares e discutiram as principais recomendações no âmbito dos 5 temas, tendo participado mais de 1.800 pessoas, incluindo 154 Ministros e Vice-Ministros da Educação e dois Chefes de Estado. 

A Cimeira realiza-se em setembro, em Nova Iorque e tem a seguinte agenda: 

  • Dia 16 - Dia de Mobilização dos jovens, que transmitirá as suas recomendações [4];

  • Dia 17 - Dia das Soluções para lançar ou ampliar iniciativas através de coligações;

  • Dia 19 - Dia dos Líderes para apresentar as Declarações Nacionais de Compromisso.

A Rede de Bibliotecas Escolares continuará a acompanhar esta iniciativa global, tendo sido chamada a colaborar para criar oportunidades para que as crianças e jovens partilhem a sua visão, se façam ouvir e se mobilizem para a apresentação de soluções que possam mudar a escola. 

No contexto do seu Quadro Estratégico 2027, Bibliotecas Escolares: presentes para o futuro, a RBE tem dado visibilidade ao futuro da educação, designadamente nos seguintes artigos: 

UNESCO: A expansão do direito à educação até 2050

UNESCO: Conhecimento como herança da humanidade

UNESCO: Currículo para a transição sustentável

Reimaginar os nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação

UNESCO: O currículo deve trabalhar o ser humano completo

De volta ao Futuro da Educação - Quatro Cenários da OCDE para a escolaridade

Futuro da Educação e Competências 2030 - Bússola de Aprendizagem 2030 da OCDE

 

Referências

1. United Nations. (2021, Sep.). Our Common Agenda. NY: UN. https://www.un.org/en/common-agenda

2. United Nations. (2022, Sep.). Transforming Education Summit: Documents. New York: UN. https://www.un.org/en/transforming-education-summit/transforming-education-documents

3. United Nations. (2022, Sep.). Transforming Education Summit: Resources. New York: UN. https://transformingeducationsummit.sdg4education2030.org/know-base

4. United Nations. (2022, Sep.). Youth Declaration consultation process. New York: UN. https://transformingeducationsummit.sdg4education2030.org/YouthDeclarationConsulationProcess

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Qua | 14.09.22

Agrupamento de Escolas de Nisa: alunos do PE e 1º CEB aprendem a SER a LER!

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Reconhecido como prática de referência no âmbito da Autonomia e Flexibilidade Curricular, pela Equipa de Acompanhamento e Monitorização de Desenvolvimento Curricular (AMDC) da Direção Geral de Educação, deixamos algumas notas sobre o Projeto Ser a Ler (numa segunda parte do vídeo poderão conhecer os Heróis da Reciclagem da nossa Escola, projeto também distinguido pela sua pertinência).

Partimos da constatação de que os nossos alunos precisavam de melhorar o seu desempenho no domínio da leitura e de que nem todos gostariam assim tanto de ler!… Percebemos que teríamos de atuar o mais precocemente possível…

Com base no Referencial da RBE Aprender com a Biblioteca Escolar, que promove a integração de novas competências no currículo, guiamo-nos por um conjunto de orientações para dar vida ao Projeto Ser a Ler.

A nossa Escola, através da sua direção, das diferentes estruturas educativas e professoras, acarinhou este desafio da biblioteca escolar, de promover o gosto pela leitura, desde muito cedo, pois este gosto não é inato, respondendo às exigências formativas do mundo atual, educando para o pleno exercício de uma cidadania ativa e aprendizagem ao longo da vida.

Exatamente porque este projeto nasceu no ano letivo de 2018/ 19, em sintonia com o preconizado no Decreto-Lei 55/2018 de 6 de julho, abordamos domínios de cidadania a partir da Educação Literária (Histórias que nos levam a falar sobre direitos humanos, que nos transmitem valores como o altruísmo, a coragem e a resiliência...).

O Projeto Ser a Ler está a ser implementado pelo quarto ano consecutivo, este ano também alargado ao Pré-Escolar, envolvendo todas as turmas do 1º CEB durante uma hora e trinta minutos, por semana, e é dinamizado por uma professora coadjuvante que integra a equipa da biblioteca escolar.

Damos à totalidade dos alunos as mesmas oportunidades de acesso ao livro e ao prazer de ler (em diferentes suportes), e de ler com as famílias. Porque o gosto pela leitura não é só um desafio para a escola. É um desafio para as famílias e para a comunidade envolvente - “É preciso uma aldeia inteira para se educar uma criança” (provérbio africano).

Tantos princípios quanto os dedos de uma mão:

1. Ler de forma orientada ou livre, várias obras integrais;

2. Escolher livros e leituras, de acordo com os seus gostos e interesses;

3. Construir sentidos a partir das leituras feitas;

4. Relatar experiências de leitura;

5. Adquirir progressivamente, hábitos de leitura.

A leitura não pode cingir-se a uma competência instrumental, a uma aquisição determinante para o sucesso escolar. O gosto pela leitura tem de ser para a vida!

https://www.youtube.com/watch?v=p1lJkG5mJA0&ab_channel=DGEME

 

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Ter | 13.09.22

Bom ano!

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Leitura 2 min | 

Estimados/as Professores/as bibliotecários,

No arranque de um novo ano letivo, a Rede de Bibliotecas Escolares reitera a sua disponibilidade e vontade de participar com energia na transformação da educação, contribuindo para uma escola regenerada em que todos os intervenientes, sobretudo os principais, os alunos, tenham voz. Renova-se a nossa convicção de que somos agentes de transformação e de melhoria da escola num tempo de complexidade e de grandes desafios. O título do Quadro Estratégico RBE 21.27, Bibliotecas escolares: presentes para o futuro, traduz a crença no papel de aliada que a biblioteca tem no codesenhar de programas que continuem a promover, junto dos estudantes, o gosto por aprender ao mesmo tempo que estimulam a sua curiosidade, criatividade e capacidade de intervenção.

Sabemos que em cada biblioteca escolar, o seu responsável, continuará a nortear a ação, num trabalho de permanente articulação com os diferentes agentes da comunidade educativa, alinhado com as orientações do Ministério da Educação/da Rede de Bibliotecas Escolares e sem perder de vista, naturalmente, a realidade do seu território. Determinação e esperança, suportadas num trabalho em Rede, são condições essenciais para se continuar a capacitar todas as crianças e jovens, com competências de leitura e de escrita, indispensáveis ao desenvolvimento de múltiplas literacias, alicerces que favorecem a participação de todos, tornando-os mais capazes para uma sociedade que alguns já identificam como do “desconhecimento”.

É sabido que nos concelhos/ nos agrupamentos/ nas escolas, os/as Professores/as Bibliotecários/as, articulam, colaboram, dialogam, coconstroem perseguindo os princípios que têm sustentado e robustecido esta Rede.  

Por isso, nos próximos tempos, estou certa poder continuar a contar com o vosso habitual empenho, esforço, disponibilidade e saber. 

Da minha parte, estou consciente da responsabilidade, também das dificuldades e das exigências que temos pela frente, sabendo que, só numa ação conjunta e concertada, será possível antecipar e encontrar as respostas mais adequadas que viabilizem a concretização dos princípios constantes no Quadro estratégico RBE 21.27, que nos orientam.

Porque nada se faz a partir do vazio e porque já existe um presente resultado de 27 anos de vida da Rede de Bibliotecas Escolares termino, relembrando os fundamentos que suportam a nossa intervenção em 22.23: Incluir, Recuperar & Inovar!

Um bom ano para todos/as.

Manuela Pargana Silva,

Coordenadora Nacional

da Rede de Bibliotecas Escolares

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Seg | 12.09.22

UNESCO: Prioridades da Informação

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A atualização do Manifesto sobre Bibliotecas Públicas é da responsabilidade da IFLA e do Programa de Informação para Todos (The Information for All Programme - IFAP) da UNESCO.

Criado em 2001, o IFAP visa “disponibilizar uma plataforma de discussão política, ajudando a formular orientações para ações na área do acesso à informação e ao conhecimento, a fim de assegurar a equidade e a participação nas Sociedades do Conhecimento” [1].  Colabora com os Estados-Membros na elaboração de políticas nacionais e internacionais na área da informação e comunicação que garantam o acesso universal necessário à formação de sociedades do conhecimento sustentáveis e inclusivas.

Segundo este programa intergovernamental, a década 2010-2020 registou um “desenvolvimento tecnológico a uma escala e velocidade sem precedentes na história da humanidade” e a próxima década deverá ter como prioridade “garantir acesso equitativo a todas as pessoas, para que todos possam aproveitar e beneficiar plenamente destas oportunidades [sublinhado nosso]”.

Para responder ao desafio da desigualdade entre países e comunidades rurais e urbanas, a IFAP estabelece seis prioridades que podem ajudar a estabelecer uma visão de conjunto do panorama mundial de intervenção no setor do digital, informação e media, para o qual as bibliotecas escolares contribuem, através de uma abordagem integrada das literacias digitais, dos media e da informação.  

1. Informação para o Desenvolvimento – “concentra-se no valor da informação para abordar questões de desenvolvimento” que afetam todos os setores.

2. Literacia da Informação - “capacita as pessoas em todos os estádios da vida a procurar, avaliar, utilizar e criar informação de forma eficaz para alcançar o seu propósito pessoal, social, ocupacional e educacional”. Segundo a IFAP a literacia da informação é um “direito humano básico” (basic human right) no mundo digital em que vivemos. Permite que as pessoas construam conhecimento sobre a sua saúde, o ambiente, a vida democrática da sua comunidade e do mundo e participem na sociedade através de juízos e ações informadas e fundamentadas.

3. Preservação da Informação, sobretudo através do Programa Memória do Mundo da UNESCO [2] que visa reunir e conservar património documental em risco, através de digitalização, apoio à produção de conteúdos locais e sensibilização de decisores e do público.

4. Ética da Informação e que inclui desafios legais que derivam da aplicação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, designadamente nos artigos 19.º “direito à liberdade de opinião e expressão” e 27.º “direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do progresso científico e de seus benefícios”. Um dos desafios éticos é a desigualdade no acesso às TIC, bem como o uso indevido e abuso.

5. Acessibilidade da Informação que envolve questões sobre acessibilidade, inclusive económica e necessidades de pessoas portadoras de deficiência. Trata ainda de questões de metadados, interoperabilidade, software de código aberto, conteúdo aberto, licenças Creative Commons, segurança na internet, bem como sobre falta de representatividade de determinados grupos de pessoas no espaço público de informação.

6. Multilinguismo no Ciberespaço - aIFAP acredita que a língua é um meio primário de comunicação, informação e conhecimento” e fator determinante para cada pessoa aceder e utilizar conteúdos na Internet e participar nas sociedades do conhecimento. A UNESCO promove o equilíbrio entre idiomas no ciberespaço, tendo aprovado em 2003 uma Recomendação [3].

 

Referências

1. Information for All Programme. (2017). Consolidating Information and Knowledge Societies – Empowering Peoples and Nations. Paris, France: United Nations Information for All Educational, Scientific and Programme Cultural Organization. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000259991

2. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (1992). Memory of the World. France: UNESCO. https://en.unesco.org/programme/mow

3. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (2003, 15 October). Recommendation concerning the Promotion and Use of Multilingualism and Universal Access to Cyberspace. France: UNESCO. https://en.unesco.org/themes/linguistic-diversity-and-multilingualism-internet/recommendation

4. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (2022). Information for All Programme (IFAP). France: UNESCO. https://en.unesco.org/programme/ifap

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Sex | 09.09.22

IFLA e UNESCO: Manifesto sobre Bibliotecas Públicas 2022

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No 87.º World Library and Information Congress (WLIC) [2], em que a RBE participou, a Federação Internacional de Associações e Instituições Bibliotecárias (IFLA) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) [1] lançaram uma nova versão do Manifesto sobre Bibliotecas Públicas. Criado em 1949, a sua versão mais recente datava de 1994.

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A nova versão destaca o papel das bibliotecas públicas em dois domínios, A e B. 

A. Desenvolvimento sustentável 

Reforça a ligação das bibliotecas públicas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, destacando o seu papel nas áreas da “informação, literacia, educação e cultura” e em prol da “construção de sociedades mais equitativas, humanas e sustentáveis”.

B. Sociedades do conhecimento

Afirma a necessidade de ter em conta a “evolução da sociedade”, para que fundo documental, atividades e serviços da biblioteca reflitam a diversidade de pessoas das sociedades globais e sejam tornados acessíveis a todos “independentemente da idade, etnia, sexo, religião, nacionalidade, língua, estatuto social, ou qualquer outra característica” e para que “serviços e materiais específicos devam ser providenciados” para quem não possa utilizar os convencionais. 

Valoriza o direito de cada um participar/ cooperar ativamente na construção do conhecimento e vida cultural da comunidade. Destaca o papel das parcerias locais, nacionais e internacionais para o alcance de um público cada vez mais alargado e diversificado. 

Para além da necessidade de disponibilizar recursos digitais e de contribuir para promover competências digitais, de informação e media, destaca a necessidade de flexibilizar a legislação nesta área: “Na era digital, a legislação sobre direitos de autor e propriedade intelectual deve assegurar às bibliotecas públicas a mesma capacidade de obter e dar acesso a conteúdos digitais em condições razoáveis, como acontece com os recursos físicos.”

Já em 2020 a IFLA tornou pública a sua posição sobre direitos autorais em ambiente digital [3], defendendo maior uniformidade nas decisões entre países e legislação menos restritiva que dê às bibliotecas a possibilidade de emprestarem o seu acervo publicamente - sem fins comerciais - a todos, sem restrições legais, para que não se agravem as desigualdades no acesso à informação e ao conhecimento. 

De acordo com a nova versão do Manifesto, as bibliotecas públicas têm a seguinte missão - aspetos a negrito assinalam o que é novo (4):

1. “Proporcionar o acesso a uma ampla gama de informações e ideias livres de censura, apoiando a educação formal e informal em todos os níveis, bem como a aprendizagem ao longo da vida”;

2. “Proporcionar oportunidades para o desenvolvimento criativo pessoal e estimular a imaginação, criatividade, curiosidade e empatia”;

3. “Criar e fortalecer hábitos de leitura nas crianças, do nascimento até à idade adulta”;

4. “Iniciar, apoiar e participar em atividades e programas de literacia para construir competências de leitura e escrita e facilitar o desenvolvimento de competências digitais, de informação e media”;

5. “Prestar serviços às suas comunidades, de forma presencial e remota, através de tecnologias digitais que permitam o acesso a informações, coleções e programas de atividades”;

6. “Garantir o acesso de todas as pessoas a todo o tipo de informação comunitária e a oportunidades de organização comunitária”;

7. “Proporcionar às suas comunidades o acesso ao conhecimento científico, tal como informação e resultados de pesquisas de saúde que possam ter impacto na vida dos seus utilizadores, além de possibilitar a participação no progresso científico”;

8. “Prestar serviços de informação adequados a empresas, associações e grupos de interesse locais”;

9. “Preservar e dar acesso a dados, conhecimento e património local e indígena (incluindo tradição oral), proporcionando um ambiente no qual a comunidade local possa ter um papel ativo”;

10. "Promover o diálogo intercultural e favorecer a diversidade cultural”;

11. “Promover a preservação e o acesso significativo às expressões culturais e ao património, à apreciação das artes, ao conhecimento científico de acesso aberto, à pesquisa e inovações, expressas nos media tradicionais, bem como no material digitalizado e nascido digital”.

O Manifesto é um poderoso instrumento de advocacia das bibliotecas, devendo ser posto em prática localmente e em larga escala, podendo surgir, por parte da IFLA/ UNESCO e até final de 2022, iniciativas, ferramentas e orientações complementares.

Referências

1. International Federation of Library Associations and Institutions; United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization. (2022, july). Public Library Manifesto 2022. Holland: IFLA & UNESCO. https://repository.ifla.org/bitstream/123456789/2006/1/IFLA-UNESCO%20Public%20Library%20Manifesto%202022.pdf

2. International Federation of Library Associations and Institutions. (2022). IFLA World Library and Information Congress 87th IFLA General Conference. Holland: IFLA. https://www.ifla.org/events/ifla-world-library-and-information-congress-87th-ifla-general-conference/

3. International Federation of Library Associations and Institutions. (2020, August). The IFLA Position on Copyright in the Digital Environment. Holland: IFLA. https://www.ifla.org/g/clm/the-ifla-position-on-copyright-in-the-digital-environment/

4. International Federation of Library Associations and Institutions. (2022, july). The Mission of the Public Library of Today: What's new in the Public Library Manifesto. Holland: IFLA. https://repository.ifla.org/bitstream/123456789/2007/1/The%202022%20IFLA-UNESCO%20Public%20Library%20Manifesto%20at%20a%20Glance.pdf

5. Foto de Gabriel Sollmann on Unsplash



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Qui | 08.09.22

Literacia: muito para além de saber ler e escrever

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Leitura 4 min |

O Dia Internacional da Literacia é uma oportunidade para avaliar o progresso e estimular a celebração da literacia como um direito humano essencial que desempenha um papel fundamental nas nossas sociedades.

Em 1979, apenas 68% da população mundial sabia ler e escrever. Em 2020, este número tinha subido para 86,7%. Apesar deste progresso, 771 milhões de jovens e adultos em todo o mundo ainda não possuem competências básicas de alfabetização - 60% dos quais são raparigas e mulheres. A COVID-19 está a exacerbar esta questão.

Audrey Azoulay, Diretora-Geral da UNESCO, por ocasião do Dia Internacional da Alfabetização, 8 de setembro de 2022

Desde 1967, as comemorações do Dia Internacional da Literacia (8 de setembro) acontecem anualmente em todo o mundo para lembrar que esta é uma questão de dignidade e direitos humanos e para fazer avançar a agenda dos países em direção a uma sociedade mais alfabetizada e sustentável.

Há muito tempo que os estudos vão apontando para a enorme importância da literacia enquanto métrica global para avaliar a saúde e a competência das comunidades. Altas taxas de literacia correlacionam-se com tudo, desde melhor acesso a oportunidades económicas, a melhor nutrição e sustentabilidade ambiental, até a mais altas taxas de esperança de vida.

O fortalecimento da literacia global é uma ferramenta para um envolvimento significativo com a sociedade e sustenta todos os Objetivos de Desenvolvimento sustentável da UNESCO, reconhecendo-se que ideais como igualdade de género, infraestruturas sustentáveis e erradicação da pobreza e da fome não são possíveis sem populações alfabetizadas. É uma ferramenta para o progresso humano.

Se hoje é claro que literacia determina o sucesso coletivo e que, como diz Audrey Azoulay, é um direito humano fundamental relativamente ao qual nós, educadores, temos um papel inalienável a desempenhar, é igualmente evidente que literacia hoje não é o mesmo que em 1967 quando o dia foi criado.

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Durante décadas e até séculos, a literacia foi associada exclusivamente à capacidade de ler e escrever. É muito grave que, em todo o mundo, 771 milhões de pessoas ainda não saibam ler e escrever ou que em muitos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento cerca de metade das crianças de 10 anos não consigam ler e compreender uma história simples.

No entanto a questão assume contornos ainda mais preocupantes, pois literacia, hoje, não pode restringir-se a saber ler e escrever. Quantos conhecem os rudimentos, mas não são efetivamente capazes de usar esse conhecimento para transformarem as suas vidas? Quantos descodificam as mensagens verbais, mas são incapazes de exercerem sobre essas mensagens o necessário pensamento crítico? Ou de organizarem as suas ideias para comunicarem de forma clara e assertiva?

E tudo se complexifica, quando saber ler e escrever, refletir e comunicar ainda não é suficiente para dominar a literacia, pois a revolução digital em curso exige um conceito muito mais robusto: a literacia é hoje entendida pela UNESCO como “um meio de identificação, compreensão, interpretação, criação e comunicação num mundo cada vez mais digital, mediado por texto, rico em informações e em rápida mudança”.

Face às dificuldades globais e aos retrocessos provocados pela pandemia COVID 19 na área da educação, em 2022, este dia é assinalado sob o tema «Transforming Literacy Learning Spaces», configurando uma oportunidade de repensar a importância fundamental dos espaços de aprendizagem para a construção de resiliência e como garantia de educação de qualidade, equitativa e inclusiva para todos.

Veja o vídeo da UNESCO:

Neste Dia Internacional da Literacia, recordamos o compromisso a que as bibliotecas escolares estão eticamente obrigadas: Contribuir para que os alunos saibam ler e escrever, mas também aceder à informação e usá-la, num mundo cada vez mais mediado por ambientes digitais. É por isso que, por muitos projetos e atividades, propostas e novidades com que as bibliotecas sejam aliciadas e se envolvam, o fundamental do seu trabalho permanece: contribuir para que todos tenham acesso à leitura e à informação, ou seja, contribuir para o desenvolvimento dos índices de literacia nas nossas escolas.

Assim, 8 de setembro é também dia das bibliotecas escolares. Que elas sejam espaços de aprendizagem de literacia transformados e transformadores: seguros, inclusivos e resilientes e que não deixem ninguém para trás.

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Qua | 07.09.22

IFLA: 87.º Congresso Mundial de Bibliotecas e Informação | Participação da RBE

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A Rede de Bibliotecas Escolares marcou presença no 87.º Congresso Mundial de Bibliotecas e Informação, promovido pela IFLA (IFLA WLIC 2022), em Dublin, entre os dias 26 e 29 de julho de 2022. Para refletir e trabalhar sobre a temática «Inspire, Envolva, Capacite, Conecte-se», estiveram presentes no Congresso participantes de 96 países, 1900 em Dublin e 495 a distância.

A IFLA (Associação Internacional de Bibliotecas) é uma organização internacional, independente, não governamental e sem fins lucrativos que representa a voz de todos os profissionais das bibliotecas e da informação. No 87.º Congresso, a RBE apresentou um poster sobre o modo como as bibliotecas escolares integram os planos de desenvolvimento digital das escolas portuguesas:

- No universo de 811 agrupamentos, 629 participaram num inquérito conduzido pela RBE, que permitiu concluir que 85% das bibliotecas integram os planos de desenvolvimento digital das escolas.

- A criação e organização de conteúdos digitais bem como o ensino de competências digitais são apontadas como áreas prioritárias pela quase totalidade de agrupamentos que responderam ao inquérito.

- 73% inserem nos planos de desenvolvimento digital das escolas ações relacionadas com práticas de ensino e aprendizagem e mais de metade das bibliotecas estão a investir no desenvolvimento profissional dos seus professores e nas infraestruturas e equipamento das bibliotecas.

- As questões relacionadas com a liderança e práticas de governança, assim como a utilização da tecnologia nas práticas de avaliação merecem a atenção de um número reduzido de bibliotecas.

A presença da RBE, que integrou formalmente a IFLA em 2022, alargou-se também à participação nas sessões dinamizadas por dois grupos de trabalho, cujo âmbito de ação se prende com a temática «educação e formação» e «bibliotecas escolares». O grupo responsável pela secção das bibliotecas escolares submeteu a apreciação da UNESCO o novo Manifesto da Biblioteca Escolar, que, após aprovação, será traduzido para português pelo Gabinete da RBE.

Com o objetivo de inspirar, envolver, capacitar e ligar as bibliotecas de todo o mundo, a IFLA publica documentos orientadores com regularidade. Durante o Congresso foram divulgados dois documentos importantes:

1. O texto atualizado do Manifesto das Bibliotecas Públicas, documento basilar para o trabalho das bibliotecas públicas de todo o mundo, que foi publicado em 1949 e revisto em 1972 e 1994;

2. Diretrizes da IFLA para Programas de Educação Profissional em Biblioteconomia e Ciência da Informação, aprovado em abril de 2022.

Os participantes do Congresso tiveram ainda oportunidade de visitar a Biblioteca e Centro de Artes “The Source”, em Thurles, e a Biblioteca da Universidade de Limerick. A Biblioteca e Centro de Artes de Thurles disponibiliza o serviço gratuito de requisição de livros digitais e audiolivros através de uma aplicação de telemóvel.

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Na parte mais moderna da Biblioteca da Universidade de Limerick, cujo edifício foi intervencionado em 2018, não há livros expostos, privilegiam-se os espaços e os equipamentos para diferentes fins: estudo individual em silêncio, trabalho de grupo em alas comuns, salas para trabalho de grupo, espaços para descansar e conversar, espaços para produzir/criar. Os livros estão arrumados em contentores, num grande sistema de arrumação, podendo ser requisitados através do sistema de empréstimo informatizado.

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A biblioteca disponibiliza também serviços de empréstimo de computadores portáteis e o serviço de devolução de documentos está completamente informatizado.

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Na parte antiga da biblioteca, os livros estão expostos em estantes, mas privilegiam-se também os espaços de trabalho, preparados para grupos e com equipamento adequado.

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A RBE congratula-se por ter integrado a IFLA e compromete-se a colaborar com esta associação internacional, contribuindo para que as bibliotecas escolares sejam inspiradoras, envolvam, capacitem e permitam incrementar ligações com pessoas outras bibliotecas.

 

Referências

1. IFLA – International Federation of Library Associations and Institutions

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Ter | 06.09.22

5 dicas para um professor bibliotecário numa nova escola

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Leitura 3 min | 

Acabou de chegar a uma escola onde não conhece ninguém? Tem de gerir uma ou mais bibliotecas no agrupamento? Por onde começar? Eis algumas sugestões que poderão ajudar a traçar o seu caminho. 

Conheça e dê-se a conhecer!

- Apresente-se à direção, pergunte o que esperam de si, mostre entusiasmo e disponibilidade para colaborar com a escola.

- Não se isole. Frequente a sala de professores e participe nas atividades de receção, aproveitando para fazer contactos. 

- Ofereça-se, no Conselho Pedagógico, para integrar a equipa responsável pela preparação das atividades de receção aos alunos.

- Envie um email a apresentar-se, juntamente com um infográfico «Como colaborar com a biblioteca? Como é que o professor bibliotecário pode ser útil?»

- Conheça as disciplinas e turmas atribuídas a cada docente.

- Conheça o(s) assistente(s) de bibliotecas. Converse com ele(s). Ouça-os, recolha as suas opiniões e sugestões.

- Organize listas de contactos de acordo com a distribuição de serviço que agilizarão o trabalho ao longo do ano.

«Sinta» a cultura da escola!

- Faça uma leitura breve dos principais documentos do agrupamento e inteire-se das prioridades do mesmo.

- Conheça a organização da escola/ agrupamento – quem é quem? Os coordenadores de área disciplinar de diretores de turma e responsáveis por projetos. Procure saber que dinâmicas de continuidade existem, projetos em curso, quem os coordena. 

- Conheça a(s) biblioteca(s) que vai gerir: leia os principais documentos e retire deles o essencial (Regulamento da biblioteca, Plano de atividades do ano anterior, Plano de ação, Relatório de autoavaliação, Plano de Desenvolvimento da Coleção).

- «Estude» a(s) biblioteca(s) observando-a(s): perceba a organização e as dinâmicas, presencialmente e online. Faça perguntas ao assistente de biblioteca, a outros professores bibliotecários e aos docentes.

- Conheça as coleções e a respetiva política de desenvolvimento.

- Familiarize-se com os sistemas e instrumentos de registo de dados da(s) biblioteca(s).

- Tente compreender as dinâmicas próprias de cada escola.

- Não mude nada, por enquanto! Espere para tomar decisões. 

Colabore: envolva, planifique, concretize!

- Não esqueça que a biblioteca faz parte da solução.

- Sente-se com a equipa (docentes, representante da direção e assistente de biblioteca).

- Ouça, faça perguntas e dê sugestões. Inteire-se do trabalho realizado e apresente novas soluções, tendo em conta as prioridades da RBE.

- Participe nas diferentes reuniões das equipas pedagógicas: departamentos/ grupos disciplinares, PAA, PADDE, Cidadania, Projetos, Ecoescolas, PNA…

- Faça um levantamento das possíveis formas de articulação com os colegas, não se afastando das prioridades: incluir, recuperar e inovar.

- Em conjunto com a equipa, e em linha com o trabalho realizado anteriormente, defina uma estratégia de atuação, priorizando a atuação de cordo com o contexto.

- Planifique o trabalho da equipa, em função do Plano Anual de Atividades. Agende as reuniões do ano com a equipa global, sem esquecer o(s) assiste(s) de biblioteca.

- Planifique as atividades, envolvendo os colegas e dando voz aos alunos.

- Articule com a direção em decisões que alterem o que se fazia ou que sejam novas apostas - dê conhecimento do plano anual de atividades e de projetos que pretenda implementar.

Tenha cuidado para não se dispersar com atividades avulso. Foque-se no essencial!

Conquiste os seus alunos!

- Prepare a biblioteca para os receber, introduzindo alguma novidade.

- Dê-se a conhecer: sorria e seja simpático.

- Convide as turmas a visitarem a(s) biblioteca(s) e surpreenda: ensine-lhes algo de novo, suscite a sua curiosidade…

- Ofereça-se para ajudar no percurso escolar, exemplificando o que podem fazer com a sua ajuda.

- Convide-os para integrarem projetos ou clubes.

- Mostre disponibilidade para acolher as suas iniciativas.

- Ouça-os: converse com eles, faça perguntas, disponibilize uma caixa de sugestões.

Integre o trabalho concelhio!

- Articule o seu trabalho com o coordenador interconcelhio. Converse com ele. Ouça as suas sugestões.

- Participe nas reuniões de trabalho das bibliotecas do seu concelho.

- Conheça os outros professores bibliotecários.

- Inteire-se das práticas de trabalho em rede.

- Aprofunde essas práticas através de contactos com os parceiros mais diretos.

- Colabore com ideias e sugestões.

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Seg | 05.09.22

Criar oportunidades de escrita autêntica na sala de aula de ciências

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Incentivar os alunos a escrever com mais frequência nas aulas de ciências ajuda-os a expressarem-se melhor e de forma mais versátil, e a aprofundarem o seu pensamento científico.

Em muitas escolas, a escrita restringe-se, em grande parte, às aulas de línguas e de estudos sociais, o que limita a capacidade de os alunos desenvolverem práticas de escrita em todas as áreas curriculares. Quando escrevem nas aulas de matemática e de ciências, é-lhes pedido frequentemente que resumam o que aprenderam - não lhes são atribuídas tarefas que os orientem para aprenderem mais através do processo de escrita. Isto pode afetar a sua capacidade de desenvolverem competências de escrita - uma proficiência básica no mundo do trabalho moderno.

A escrita interdisciplinar não é um conceito novo e a investigação tem demonstrado, de forma consistente, que ao escreverem sobre as ligações entre as suas vidas e o que aprendem nas aulas de ciências, os alunos aplicam-se mais na disciplina e alcançam melhores resultados.

"Há um equívoco generalizado de que a ciência está apenas relacionada com atividades práticas e a escrita surge no fim para tirar uma conclusão.... Isto não poderia estar mais longe da verdade, uma vez que a escrita faz parte de cada passo na investigação científica", escreve Gina Flynn, professora de jardim de infância no Minnesota, em Literacy Today. Quando os alunos documentam a totalidade das suas experiências científicas através da escrita, acrescenta Flynn, "eles são capazes de imitar cientistas reais, registando as suas ideias, observações, previsões, dados e descobertas".

Eis três formas de fomentar oportunidades de escrita autêntica que permitem aos alunos pensar de forma crítica e aprofundar a aprendizagem nas aulas de ciências.

Utilize cadernos e revistas científicas

Quando os alunos anotam as suas ideias, pensamentos e perguntas enquanto aprendem um novo conceito, "começam a fazer previsões e a formular uma hipótese, que pode ser representada através de imagens ou palavras nos seus cadernos de ciências", escreve Flynn. Processar ativamente o que aprenderam através da escrita, acrescenta Flynn, motiva-os a "pensar com maior profundidade sobre o que estão a ver, ouvir, sentir e cheirar".

Os jovens podem achar interessante registar as suas observações e pensamentos através de desenhos ou de imagens, mas isso não significa que não possam também anotar as observações através de palavras, nos seus cadernos de notas. "Mesmo no terceiro ano, é possível pôr os alunos a escrever relatórios de laboratório", escreve Tammy DeShaw, uma professora do ensino básico no Michigan, que acrescenta que estes cadernos não têm de ser tão detalhados como os que os alunos do ensino secundário mantêm – estas crianças podem aprender muito escrevendo o esboço de um relatório. 

O antigo professor do terceiro ciclo Jeremy Hyler utilizava cadernos e revistas nas aulas de ciências. O professor pedia aos alunos para se fazerem acompanhar de um caderno para escrever ou desenhar com o tamanho suficiente para ser usado durante todo o ano, e encorajava-os a levá-lo para onde quer que fossem. "Isto incluía as aulas de experiências nos laboratórios, quando tomavam notas na biblioteca, ou quando tinham determinadas aulas de campo", escreve Hyler. No início, os alunos viam isto apenas como mais uma coisa para fazer, mas acabaram por “perceber que o caderno de notas é uma ferramenta valiosa para todas as coisas que fazemos em ciências”, acrescenta. 

Proporcione atividades informais de escrita 

Um resumo dos conceitos científicos é útil quando os alunos precisam de rever a matéria, mas escrever sobre o processo de aquisição desse conhecimento pode reforçar e aprofundar a compreensão dos assuntos à medida que aprendem.

Quando DeShaw estava a ensinar uma unidade sobre a vida vegetal, por exemplo, pediu aos alunos para escreverem sobre o que aprenderam usando a fórmula PPFT (papel, público-alvo, formato, tópico). Os alunos fingiam ser uma das estruturas da planta (raízes, folhas, caule, flor ou semente) e escreviam a outra parte da planta sobre qualquer tópico. Os alunos acabaram por inventar muitos cenários, tais como escrever um e-mail a explicar o trabalho que fazem e a pedir férias, ou escrever um discurso sobre a razão pela qual deveriam votar neles, "A Parte Mais Importante da Planta". "As crianças adoram ser criativas, e posso avaliar se elas compreendem (neste caso) as partes e funções da planta. Além disso, praticam a escrita em diferentes formatos", explica ela.

James Kobialka, professor de ciências do sétimo ano em Maryland, também utiliza estas atividades informais de escrita para fomentar o pensamento crítico dos alunos. "O mais importante para mim é que não é censurado nem é demasiado estruturado", diz ele. Para iniciar uma unidade sobre conservação de massa, por exemplo, Kobialka não definiu esse termo; mostrou uma fotografia aos alunos e pediu-lhes que escrevessem sobre estas questões: "O que notam sobre os átomos de ambos os lados? Como podem explicar isso"? Refletir, por escrito, sobre essas perguntas, preparou os alunos para uma longa discussão.

Seja criativo e interativo

Uma vez que a escrita se torna uma parte integrante do processo de aprendizagem na sala de aula de ciências, há inúmeras formas de a tornar uma experiência ainda mais significativa e produtiva para todos os alunos.

Para que as crianças escrevam mais nas suas aulas, muitas vezes DeShaw começa a aula com uma atividade de motivação chamada "A imagem científica do dia". Apresenta uma imagem aos alunos - como uma borboleta ou uma rapariga a saltar sobre uma poça - e pede-lhes que escrevam todas as coisas que observam na imagem, que façam uma lista das perguntas que a imagem lhes suscita, as coisas que inferem e, finalmente, que refiram aquilo que possa ser considerado ciência. "Adoro esta atividade porque faz com que os alunos comecem a ver a ciência que os rodeia na sua vida quotidiana, tudo isto enquanto pensam criticamente, inferem, usam competências de leitura e de escrita”, escreve DeShaw.

No ensino básico e secundário, os cadernos tradicionais têm muitos benefícios, mas o uso de versões digitais ajudou os professores a darem outras oportunidades aos alunos de serem mais criativos e colaborarem mais com os seus pares, dizem-nos os professores. Na aula de biologia do ensino secundário, por exemplo, Lee Ferguson exige que os alunos apresentem cadernos digitais para demonstrarem as suas aprendizagens e a resposta tem sido muito positiva - os alunos mencionam que podem personalizar os seus cadernos digitais acrescentando recursos que selecionaram e colaboram com os colegas, especialmente durante o ensino assíncrono e nos trabalhos de casa. Também gostam do facto de os cadernos digitais "poderem ser facilmente levados consigo para serem utilizados em futuras aulas de biologia", escreve Ferguson.

O artigo «Creating Authentic Writing Opportunities in the Science Classroom» de Hoa Ngyent foi originalmente publicado no sítio Edutopia a 11/02/2022. O texto foi traduzido livremente a partir do inglês.

Conheça também a proposta Rede de Bibliotecas Escolares Diário de Escritas com a biblioteca, um projeto de escrita de textos de diversas tipologias e com distintos objetivos comunicativos, desenvolvido colaborativamente entre a biblioteca e o conselho de turma/ professor titular de turma e organizado, de forma sistemática, em torno de quatro etapas: Eu, aprendiz | Eu, escritor | Eu, revisor | Eu, editor.

Tem boas ideias de atividades nesta área? Partilhe com todos na caixa de comentários!

 

Veja também:

Benefícios da escrita em grupo entre pares [04.03.2022]

Como dar feedback positivo ao que os alunos escrevem [24.01.2022]

Trabalhar a escrita como processo [25.11.2021]

Porque é que os alunos devem escrever em todas as disciplinas [27.10.2021]

Flipboard Escrita - Agregação de artigos sobre a temática

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Qui | 01.09.22

Sou professor bibliotecário! E agora?

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Leitura: 5 min | 

No final do ano letivo, o meu diretor chamou-me e contou que, apesar ter aberto concurso para designação de professor bibliotecário, não foi possível colocar ninguém, pelo que a escola tinha de preencher o lugar com recurso aos docentes nela colocados. Quanto a ele, eu era a pessoa certa para se ocupar da tarefa até ao final do ano letivo, uma vez que tenho o perfil adequado e estou sempre aberto a novos desafios. Como sempre gostei de ler e estou efetivamente disponível para aprender e seguir por novos caminhos, aceitei! E agora? Nem sei por onde começar!!!

Este foi o modo como muitos professores acabaram por cair nestas funções e se apaixonaram por este trabalho, tão absorvente como gratificante, que continuam a desempenhar ano após ano, com dedicação e entusiasmo. Se é o seu caso e acabou de chegar, muito obrigado por se ter deixado cativar e muitas felicidades para este próximo ano (e, quem sabe, muitos mais que se seguirão.). Este texto é-lhe especialmente dedicado e, com ele, sugerimos-lhe algumas leituras estratégicas para o integrar no contexto das bibliotecas escolares.

O que é a Rede de Bibliotecas Escolares?

A Rede de bibliotecas Escolares é um organismo do Ministério da Educação que que tem como objetivo instalar e desenvolver bibliotecas em escolas públicas de todos os níveis de ensino, proporcionando aos utilizadores os recursos e as aprendizagens necessários à leitura, ao acesso, uso e produção da informação e conhecimento, em suporte analógico, eletrónico e digital.

Para isso, existe uma Coordenadora Nacional, a Dra. Manuela Pargana Silva, coadjuvada por um Gabinete Coordenador que define as políticas de intervenção nas bibliotecas escolares e promove um conjunto de ações, em articulação com os serviços centrais e regionais do Ministério da Educação e com outras entidades e parceiros, com o objetivo de melhorar as condições de funcionamento e gestão das bibliotecas escolares.

Contamos também com o apoio inestimável dos Coordenadores Interconcelhios das Bibliotecas Escolares, a quem compete a ligação entre o Gabinete Coordenador e as escolas. Assim, se acabou de chegar, fique desde já tranquilo, pois contará com a presença constante e o apoio permanente do coordenador interconcelhio que acompanha o seu concelho. Assim, sugerimos desde já que comunique com este profissional, de cujos contactos a direção da sua escola certamente dispõe.

Qual a esfera de intervenção das bibliotecas escolares?

As bibliotecas escolares são espaços físicos e digitais multifacetados que acolhem, apoiam, colaboram, desafiam, transformam e empoderam as suas comunidades; em primeiro lugar os seus alunos, mas também os seus professores, assistentes e técnicos da escola e mesmo a comunidade mais alargada.

Existem dois documentos estratégicos que importa conhecer muito bem e que ajudam a compreender e cumprir o nosso propósito:

Em 2021 foi publicado o Quadro Estratégico Bibliotecas Escolares: presentes para o futuro que apresenta, além de um núcleo estruturante (caracterizado pela qualidade e melhoria contínua e que perpassa todo o trabalho das bibliotecas) quatro grandes eixos: Sítios, Saberes, Pessoas e Ligações. Este é um documento que orientará todo o trabalho das bibliotecas até 2027 e sugere-se a sua leitura atenta.

Organizando-se o trabalho de toda a Rede de Bibliotecas Escolares em torno do núcleo estruturante Qualidade e melhoria contínua, uma das suas diretrizes é “Monitorizar e avaliar permanentemente as diferentes áreas de intervenção, atestando processos e resultados e informando a tomada de decisões”.

O Modelo de avaliação da biblioteca escolar, documento fundamental desenvolvido por este Programa e em aplicação, desde 2009, em todas as escolas dos 2.º e 3.º ciclos e ensino secundário e em algumas escolas do 1.º ciclo, constitui-se como um instrumento orientador de boas práticas e, simultaneamente, indutor de uma cultura de avaliação.

Este modelo de avaliação estrutura-se em quatro domínios que se relacionam com a ação, os resultados e os impactos da biblioteca escolar na prestação de serviços, no desenvolvimento curricular e na promoção das competências e aprendizagens dos alunos, a saber: A Currículo, literacias e aprendizagem; B Leitura e literacia; C Projetos e parcerias; D Gestão da biblioteca escolar.

Este é outro documento essencial para todos os que trabalham nas bibliotecas escolares, que importa ter presente sempre que pensamos as ações a desenvolver, uma leitura indispensável para quem dá os primeiros passos.

O que se espera do professor bibliotecário?

Espera-se que seja um líder com uma visão estratégica e participe na tomada de decisões, designadamente no âmbito do Conselho Pedagógico, ajudando a definir prioridades de atuação, com impactos nas aprendizagens formais e não formais dos alunos, alinhadas com as políticas educativas, a visão e a missão da escola.

Enquanto professor e especialista da informação, deve centrar a sua ação na prática pedagógica, que se concretiza através da criação de situações de aprendizagem diversificadas e da dinamização de programas formativos de leitura e de literacias, sempre que possível em situações de coensino, com vista à capacitação dos alunos para o uso crítico e criação de informação e conhecimento.

No entanto, existe também uma vertente técnica para o seu trabalho, uma vez que lhe compete gerir a biblioteca e as respetivas coleções, de acordo com padrões de qualidade definidos para as unidades de informação.

Para bem compreender o que é esperado do professor bibliotecário, sugerimos como terceira leitura o documento Professor bibliotecário: um profissional em ação.

Que prioridades para 2022-2023?

Anualmente, a Rede de Bibliotecas Escolares define as áreas de intervenção prioritárias, embora, naturalmente, devam continuar a ser trabalhados os vários fatores críticos de sucesso nos diferentes domínios de atuação da biblioteca.

Em 2022-2023, sob o lema “Inclusão, Inovação & Renovação”, apela-se a uma especial atenção aos espaços físicos & digitais, à transição digital, à leitura & escrita, à informação & media, à cidadania e à cultura.

 

E pronto. Feito o enquadramento, é hora de começar. Com calma, com a segurança do apoio constante e de que todas as dúvidas serão prontamente esclarecidas. Procure o seu coordenador interconcelhio. Colabore com os professores bibliotecários do seu concelho. Conheça os docentes, assistentes e técnicos da sua escola.

Explore o portal RBE.

Bom trabalho!

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