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Blogue RBE

Qua | 24.11.21

Literacia dos media, uma emergência educativa

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Vivemos, hoje, imersos numa revolução digital, de consequências ainda difíceis de antever na sua globalidade, mas que, como todas as que a História nos descreve, alterará profundamente a vida humana; já o fez e continua a fazê-lo diariamente.

Temos atualmente uma presença física, movemo-nos no nosso perímetro, mais ou menos alargado, mas temos também uma presença digital, que vai a par e não se apresenta como menos relevante, sendo mais ampla e menos controlável por nós.

 

A tecnologia invade progressivamente toda a atividade humana; o trabalho, o comércio, o lazer, a saúde (falamos de cirurgia robótica/ impressão 3D/ medicina de precisão/ inteligência artificial/ realidade virtual/ telemedicina...), a forma como as nossas cidades são geridas, muito pela inteligência artificial. Nas nossas casas a Internet das Coisas (IoT - Internet of Things) torna-se cada vez mais comum.

As relações que estabelecemos são repetidamente mediadas pela tecnologia e pelos ambientes digitais: muitas vezes, conhecemos pessoas apenas em meios virtuais. Somos identificados pela nossa vida em-linha, que define a nossa identidade, tanto quanto o definem os nossos comportamentos analógicos.

A comunicação humana mudou drasticamente e continua a mudar: as aplicações multiplicam-se com diferentes funcionalidades e para todos os contextos de utilização- profissionalmente, em sociedade e até, em família.

São tempos caracterizados pela abundância - tudo é em excesso: dados, informação/ desinformação, ferramentas, solicitações, propostas... de tal forma que nos sentimos regularmente esmagados pelo peso desse excesso com que temos que lidar. E, no entanto, a quantidade não corresponde a qualidade e diversidade, já que existem mecanismos de inteligência artificial que controlam e restringem o que nos é dado ver, ouvir e ler, tendo em conta os nossos interesses.

 

Face a todos os estímulos com que somos sucessiva e incessantemente confrontados, torna-se difícil distinguir a verdade da mentira; saber em que e quem confiar.

Todos estes aspetos da vida digital, e outros que ficaram por referir, trazem associados grandes benefícios para a vida humana, mas simultaneamente acarretam riscos para os quais é necessário estar de sobreaviso e com os quais é preciso aprender a conviver. No entanto, há que ter sempre presente a certeza de que o maior perigo é a exclusão.

Todos aqueles que não conhecem o funcionamento destes ambientes digitais não os podem usar com proficiência e perdem todos os seus benefícios. Também os que desconhecem os perigos associados ao uso destes ambientes, estão frequentemente expostos a problemas que afetam a sua vida profissional, social, familiar, económica…  e a conteúdos que os manipulam e lhes limitam a autonomia e a capacidade de intervir em consciência e liberdade na sociedade que integram…

Pelas breves notas atrás apresentadas, é fácil compreender que desenvolver nos alunos a literacia dos media é uma emergência e um imperativo moral para os agentes educativos. Todos e em conjunção. Ainda que nenhum documento orientador emanado dos decisores políticos o exigisse, nenhum educador poderia ficar indiferente à necessidade de capacitar os seus alunos para viver (nas múltiplas dimensões assumidas pela palavra) nos tempos que correm.

No entanto, a política nacional e as orientações internacionais não escusam os docentes desta obrigação, uma vez que a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania [1] define os Media como tema a tratar em pelo menos dois ciclos de escolaridade. Conhecendo-se a reduzida carga letiva atribuída à disciplina de Cidadania e Desenvolvimento parece manifestamente insuficiente.

Porém, se observarmos o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória [2] e atentarmos nas áreas de competências a desenvolver, impreterivelmente, até ao final da escolaridade obrigatória, perguntamo-nos se é possível concretizar verdadeiramente alguma delas sem se atender à sua componente digital:

 

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Figura 1 - áreas de competências [2]

O mesmo documento esclarece:

“As áreas de competências são complementares (...). Nenhuma delas, corresponde a uma área curricular específica, sendo que em cada área curricular estão necessariamente envolvidas múltiplas competências, teóricas e práticas. Pressupõem o desenvolvimento de literacias múltiplas, tais como a leitura e a escrita, a numeracia e a utilização das tecnologias de informação e comunicação, que são alicerces para aprender e continuar a aprender ao longo da vida.”

 

E a quem compete desenvolver este perfil? Mais uma vez: a todos e em conjunção.

Há muito tempo que a Rede de Bibliotecas Escolares vem apelando insistentemente a este trabalho, pois, enquanto especialistas em gestão de informação, os professores bibliotecários estão habilitados a contribuir com os seus conhecimentos na área para colaborar com os restantes docentes neste labor de capacitação para o uso de informação e media.

Em 2012 (já com atualização posterior de 2017), foi publicado o referencial Aprender com a Biblioteca Escolar [3] que apresenta as bibliotecas como parceiras fundamentais para desenvolver, em articulação com docentes de todas as áreas curriculares, três literacias imprescindíveis para o sucesso deste perfil, que viria a ser publicado em 2016 (leitura, media e informação).

Desde a primeira hora, foram disponibilizadas propostas de atividades para todos os níveis de ensino, que têm vindo a crescer e foram reunidas num sítio em permanente atualização, publicado em 2020: Aprender com a biblioteca escolar: atividades e recursos. De acordo com os relatórios anuais associados à aplicação deste instrumento, o número de atividades na área da literacia dos media têm aumentado, no entanto são ainda insuficientes, face à ampla gama de conhecimentos e competências, atitudes e valores, que é necessário desenvolver.

Em 2017, como resultado da ação de uma equipa alargada, liderada por Teresa Calçada, e com financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian, foi oferecido à gestão da RBE o portal MILD – Manual de instruções para a literacia digital, que visa desenvolver as competências dos jovens dos 14 aos 18 anos nos domínios da leitura, dos media e da cidadania digitais. Este portal foi muito recentemente reconfigurado e ampliado.

Em 2020, a RBE integrou um grupo de trabalho bastante alargado, criado por iniciativa do Secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Media e do Secretário de Estado Adjunto e da Educação, com o objetivo de agregar e disponibilizar um conjunto significativo de recursos que visam o desenvolvimento da literacia dos media. Desse esforço coletivo, resultou a plataforma LEME - Literacia e Educação para os Media Em linha, que se constitui como um auxiliar muito útil, pois enquanto agregador, permite localizar recursos relevantes na área da literacia dos media sem exigir a busca por múltiplas plataformas.

 

Em resumo:

O desenvolvimento de destrezas em literacia dos media é uma emergência educativa, que convoca todos os responsáveis pela educação. As bibliotecas escolares estão habilitadas a desempenharem um papel importante neste desafio e a colaborarem com as escolas para lhe responder. Para isso, contam com capacidades acrescidas de especialistas nessa área, os professores bibliotecários, que têm à sua disposição uma compilação de sugestões de atividades e recursos.

 

Referências

1. Portugal. Ministério da Educação (2017). Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Projetos_Curriculares/Aprendizagens_Essenciais/estrategia_cidadania_original.pdf

2. Portugal. Ministério de Educação (2016) Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf

3. Portugal. Rede de Bibliotecas Escolares (2017) Aprender com a Biblioteca Escolar: Referencial de aprendizagens associadas ao trabalho das bibliotecas escolares na educação pré-escolar e nos ensinos básico e secundário. https://www.rbe.mec.pt/np4/%7B$clientServletPath%7D/?newsId=99&fileName=referencial_2017.pdf

Foto de Austin Distel em Unsplash