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 | Januária Cristina Alves. Foto: Arquivo pessoal | Jornal Estadão | Blogue de Bia Reis |

 

Todos - família e escola - são responsáveis por transformar as crianças em leitores competentes, diz a jornalista e escritora Januária Cristina Alves

 

Educação literária é aquela capaz de transformar pessoas em leitores competentes, ou seja, naquele leitor que não apenas entende as palavras de um texto, isoladamente, mas também compreende seu contexto e utiliza suas referências para apreendê-lo. Quem explica é Januária Cristina Alves, escritora com mais de 40 livros para crianças e jovens publicados no Brasil. Educar literariamente as crianças, afirma, é função não apenas das escolas, mas também dos pais. “Todos somos os mediadores da leitura do mundo de nossas crianças”, diz.

Antes de se render à literatura, Januária Cristina Alves trabalhou como jornalista, roteirista do incrível Bambalalão – programa infantil da TV Cultura que, na década de 80, reunia contação de história, teatro, teatro de bonecos, música, artes plásticas e brincadeiras – e foi colaboradora da Mauricio de Sousa Produções, onde fez roteiros de histórias da Turma da Mônica. Em 1990 recebeu o Prêmio Wladimir Herzog de Direitos Humanos, pela criação do Sport Gang, a primeira publicação infantojuvenil com foco em esporte e ecologia, e em 2014 ganhou o Prêmio Jabuti com Para Ler e Ver Com Olhos Livres, da Editora Nova Fronteira, na categoria Didáticos/Paradidáticos.

Confira a seguir, a conversa com Januária:

*

 

O que é educação literária? É um conceito antigo ou mais contemporâneo?

Educação literária, como um conceito mais estruturado, é algo recente, que surge com os estudos de teoria literária que investigam as questões da leitura e da formação do chamado leitor competente. Ou seja, aquele que não só compreende as palavras, mas é capaz de ler um texto, compreender o seu contexto, dar-lhe um sentido com base em suas referências e ainda compartilhá-lo socialmente. A educação literária pretende formar esse leitor competente.

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Quem deve cuidar da educação literária de uma criança? Qual é o papel da família e da escola nesse processo?

Todos nós podemos e devemos cuidar da educação literária das nossas crianças. Segundo nosso educador maior, o pernambucano Paulo Freire, a leitura do mundo precede a leitura da palavra, ou seja, todos somos os mediadores da leitura do mundo de nossas crianças. Ler para elas, com elas, observar o que nos cerca e conversar, perguntar o que veem e como veem, tudo isso faz parte da educação literária. Sem falar que nosso exemplo é o maior instrumento dessa educação. Uma criança que observa seus pais e professores lendo, percebendo os fenômenos que nos cercam e tentando compreendê-los vai entender que a leitura não só é algo interessante, mas necessário para compreender a nós mesmos e ao mundo em que vivemos.

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A última pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, apontou que 44% da população brasileira não é leitora (pela metodologia, não havia lido nenhum livro nos três meses anteriores à realização da pesquisa). Como é possível reverter esse quadro?

A questão é complexa e, portanto, a solução também é. Para mim, ela passa pela valorização do hábito da leitura como condição cidadã, de apropriação dos nossos direitos sociais. Passa também pelo acesso aos livros – que ainda são objeto de luxo em nosso País -, pela condição leitora – ainda temos um porcentual altíssimo de analfabetos funcionais – e pela concorrência, cada dia mais acirrada, com as traquitanas digitais. Some-se a tudo isso o fato de vivermos numa sociedade que priviegia as atividades rápidas e superficiais, e a leitura exige tempo e um certo esforço de concentração e ensimesmamento, coisas difíceis de se conquistar nos tempos modernos. Grosso modo, uma das saídas passa, ao meu ver, pelo resgate da leitura como uma possibilidade de encontro, não só conosco mesmos, mas com os que nos cercam, lendo juntos, conversando sobre o que lemos, trocando livros. A boa e velha experiência dos clubes de leitura.

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Os pais devem interferir na escolha da criança sobre o que ler? Ou ela deve ter liberdade para escolher seus livros?

Depende da idade da criança. O gosto literário vai se formando à medida que a experiência leitora é exercitada. Assim, é importante selecionar bons livros – textos bem escritos, bem ilustrados, com temáticas interessantes, etc – para oferecer a elas desde a mais tenra infância. Conforme forem crescendo, pode-se mesclar isso: um tanto elas podem escolher e outro, devem aceitar as sugestões dos pais e professores, que, assim, terão a oportunidade de lhes apresentar textos de referência, que vão ajudar a formar esse repertório literário.

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Qual é a relação entre a leitura literária e a escrita? Crianças que leem mais literatura têm mais interesse pela escrita? E com outros gêneros de texto, como informativos, essa relação também existe?

Para mim, ler e escrever são as faces da mesma moeda, uma coisa puxa a outra. Quando propomos a criação de um texto, de imediato percebemos o interesse da criança em conhecer outras histórias semelhantes; ela pede referências e, então, se aproxima da leitura. O contrário também é verdadeiro: crianças que leem bastante também escrevem muito, de maneira mais criativa e correta. E isso vale para todos os gêneros textuais: poesia, crônica, romance, relatos de viagens e os informativos, claro. Aliás, é desejável que ela possa exercitar a produção desses vários tipos de textos e vá compreendendo as diversas finalidades comunicativas e expressivas de cada um deles.

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Oficinas de escrita criativa poderiam ajudar as crianças (e os adultos, por que não?) a se interessar mais por literatura?

Claro que sim! Escrever se aprende escrevendo! Quanto mais oportunidades temos de exercitar a escrita, de ter contato com diversas estratégias de produção de texto e de leitura, mais motivados ficamos para continuar a ler e a escrever. A oferta de cursos e workshops de escrita criativa tem crescido bastante e isso indica que tanto adultos como crianças estão percebendo o quanto esse exercício permite que nos expressemos de maneiras diversas, que muitas vezes sequer imaginamos que poderíamos fazer. É uma experiência bastante enriquecedora, vale a pena experimentar.

*

 

A leitura é capaz de transformar as pessoas?

Com certeza. Há muitos relatos tanto de pessoas famosas como de cidadãos comuns que contam como a leitura de um livro transformou seu modo de ver o mundo, o quanto o ajudou a conhecer aspectos de si que julgava incompreensíveis. O professor e crítico literário Harold Bloom, em sua obra Como e Por Que Ler comenta de modo brilhante o poder transformador da leitura: “Uma das funções da leitura é nos preparar para uma transformação, e a transformação final tem caráter universal (…). Lemos não apenas porque, na vida real, jamais conheceremos tantas pessoas como através da leitura, mas, também, porque as amizades são frágeis… (…) A literatura alivia a solidão”. A leitura provoca empatia e é só por meio dela que poderemos viver melhor em sociedade. Acredito muito na potência transformadora da literatura em nossas vidas.

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Dois cursos ministrados por você estão com inscrições abertas. Você poderia contar um pouco sobre eles?

São dois cursos de educação literária, com propostas distintas.

No dia 10 de setembro, vou oferecer, no Instituto Vera Cruz, o workshop Memórias de Leitura: Compartilhamento e Disseminação da Paixão Pelos Livros. A ideia é que possamos resgatar nossas memórias de leitura, os livros que nos marcaram e transformaram nossa vidas, descobrindo como nos constituímos como leitores e escritores que todos somos. Acredito que quem trabalha com literatura tem de fazer esse resgate, pois como levar os alunos, as pessoas, a se apaixonarem pela literatura se nós mesmos não somos apaixonados por ela? Acho que é uma ótima oportunidade para que os educadores compartilharem suas experiências leitoras.

O outro curso é Escrever Para Gostar de Ler: Como Formar Leitores Por Meio da Escrita Criativa, que ocorrerá no Instituto Singularidades, em São Paulo, entre 4 de outubro e 8 de novembro, e é direcionado para professores. Nele, vamos construir juntos muitas referências de leitura e escrita, exercitando como a escrita expressiva nos ajuda não só a nos constituirmos como leitores experientes e mais exigentes, mas também nos ajuda a descobrir e exercitar diversas compertências e habilidades que nos pemitem compartilhar nossas experiências de maneira mais eficiente e lúdica no nosso cotidiano.

 

por Bia Reis

 

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