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A multiplicação dos suportes de armazenamento e a sua esperança de vida limitada colocam a questão da salvaguarda do conhecimento. Para o escritor italiano Umberto Eco, não há dúvida de que o papel ainda tem futuro.

"As estrelas egípcias, as placas de argila, os papiros, os pergaminhos e, claro, o livro impresso foram suportes de informações escritas. Este último mostrou que podia sobreviver facilmente durante cinco séculos, desde que fosse impresso em papel de trapo.
Desde o século XIX, passámos para o papel à base de pasta de madeira, que parece ter uma duração máxima de 70 anos (basta pegar em jornais ou em livros do pós-guerra para verificar que muitos se desfazem assim que os folheamos). Nas últimas décadas, Têm estado em estudo diversos meios para salvar todos os livros que enchem as nossas bibliotecas. Um dos meios mais apreciados (mas quase impossível de realizar para a totalidade das obras existentes) consiste em digitalizar todas as páginas e transferi-las para um suporte electrónico.
Aí, porém, coloca-se outro problema. Todos os suportes para transferência e conservação da informação que utilizamos actualmente, desde a fotografia as películas cinematográficas, do disco a pen USB, são mais perecíveis do que o livro. Sabemos que, nas velhas cassetes áudio, ao fim de um certo tempo, a fita ficava encravada. Tentávamos arranjá-la com uma esferográfica mas, muitas vezes, era tempo perdido. As cassetes de vídeo perdem facilmente as cores e a definição.
(…) Também não tivemos tempo para perceber quanto tempo podiam durar os discos flexíveis, porque, antes de nos termos acostumado a eles, foram substituídos pelas disquetes rígidas [de 3,5 polegadas], estas pelos CD-ROM e estes pelas pens. 
(…)
Em relação a todos os suportes mecânicos, eléctricos e electrónicos, sabemos que irão desaparecer em breve ou não sabemos ainda quanta tempo irão durar e, provavelmente, nunca o saberemos. Basta um incidente, alias, um relâmpago que cai no jardim ou qualquer outro incidente mais banal, para desmagnetizar uma memória de computador. Se houver uma avaria eléctrica importante, deixarei de poder utilizar qualquer memória electrónica. Além disso, mesmo tendo gravado na minha memória electrónica a versão integral do “Dom Quixote”, não a poderei ler à luz de uma vela, numa cama de rede, num barco, numa banheira ou num baloiço, ao passo que com um livro posso fazer tudo isso, mesmo em condições menos confortáveis. E, se o meu computador ou o meu livro electrónico caírem do 5º andar, estou matematicamente certo de ter perdido tudo, enquanto que, se for o meu livro a cair, na pior das hipóteses terei de apanhar as paginas uma a uma.
Os suportes modernos parecem ter como alvo principal a difusão da informação e não a sua conservação. Pelo contrário, o livro foi o instrumento mais importante da difusão (pensemos no papel que teve a circulação da Bíblia impressa no aparecimento da Reforma e, ao mesmo tempo, da conservação. E possível que, daqui a alguns séculos, quando todos os suportes electrónicos ficarem desmagnetizados, único meio de obter informações sobre o passado seja abrir um incunábulo [obra impressa anterior a 1500].
Entre os livros modernos, sobreviverão todos os que tiverem sido impressos em papel de qualidade ou em papel sem ácido. São muitos os editores que já os disponibilizam.
Não sou um passadista. Num disco rígido de 250 gigabytes, gravei as maiores obras-primas da literatura universal e da história da filosofia. É bem mais cómodo para encontrar em segundos uma citação de Dante ou a Summa Theologiae, de Tomas de Aquino, do que levantar -me para ir procurar um livro demasiado pesado em prateleiras demasiado altas. Mas estou feliz por ter estes livros nas minhas estantes, uma memória fiável para o dia em que os meus instrumentos electrónicos se avariarem."


Courrier Internacional, nº 160, Junho de 2009

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